Quando era criança tive a sorte de ter uma avó costureira de muito talento e uma mãe que aprendeu muito com ela, por isso, tive sempre fantasias de carnaval personalizadas e bem mais elaboradas do que as que eram vendidas nas lojas. Lembro-me de me ter mascarado de princesa indiana, de palhaço e de Sheera, por exemplo. Depois, deixei de achar graça a mascarar-me no carnaval. Não quis mais. O carnaval era só um dia diferente na escola em que os meninos mais pequenos como o meu irmão se mascaravam e ficavam umas fofuras, e nós, não tão pequenos, tentávamos sempre ir sem farda para a escola. Durante alguns anos, até colou a história de "estar mascarado de civil" e era uma alegria para nós, um dia no ano, andarmos na escola sem a farda cinzenta de todos os dias. Era também a temporada de caça com ovos e balões de água. Nem sempre agradável...Ainda para mais considerando que o carnaval, em Portugal, corresponde a uma época de frio.
Também sempre nos entrou pelas cores da televisão as imagens do carnaval no Rio de Janeiro. Crescemos com aquela imagem que nos vendem: carros enormes, com bonecos e todo o tipo de parafernália decorativa e, claro, as mulheres de corpos esbeltos e impressionantemente trabalhados que se exibem em fantasias minimalistas. Eu nunca entendi nada do que se passava aqui no carnaval. Só que há pessoas que vivem o ano inteiro a pensar nisso, que é uma imensa festa, que as mulheres andam nos desfiles praticamente sem roupa, como se estivessem na praia em pequenos biquinis , e que os desfiles são uma mostra de enormes e sumptuosas maquinarias de ornamentação. Pois agora pasmem-se: o carnaval, afinal, não se trata só de mulheres a abanar os "bumbuns" desnudos. Cada desfile tem um fio condutor: o enredo. Um tema. A partir desse tema, constrói-se o samba: melodia e letra da música. A partir da letra da música, são imaginadas várias alas: conjuntos de pessoas com a mesma fantasia. Cada ala representa algum aspeto que é retratado na música, ilustra visualmente alguma temática que é cantada no samba. No fundo, é tudo uma grande encenação.
Uma das coisas mais importantes de qualquer escola de samba é a bateria: o conjunto de pessoas que constitui a percussão. Isso, para mim, é impressionante. Talvez por a minha formação ser na Música. Centenas de pessoas, de todas as idades, desde crianças a mais maduros, com vários tipos e formas de instrumentos de percussão - alguns eu nem sabia que existiam!-, guiados por gestos ou apitos. Uma sincronia emocionante de pessoas que, na sua grande maioria, não têm qualquer formação musical. Ainda assim, com empenho e muita paixão, agarram nos instrumentos, e conseguem executar, sem fugir à pulsação, combinações rítmicas durante mais de 1 hora, ininterruptamente. É admirável. Eu já desfilei por uma escola de samba de São Paulo e digo-vos: os momentos iniciais do desfile quando os cantores lançam o "grito de guerra" e os primeiros passos que se dão na avenida são verdadeiramente emocionantes.
E, na verdade, para além de tudo isto: o carnaval é uma competição! Quem diria? É uma competição entre escolas de samba! Há um juri atento a cada passo de cada ala, critérios de avaliação e, no final, um vencedor.
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| Bloco Esfarrapado |
Não sei se sou só eu, mas nunca na vida, lá do outro lado do mundo, nada disto me tinha passado pela cabeça. Parecia-me tudo...aleatório. Só um monte de gente fantasiada a passear pela avenida. Realmente até existe esse tipo de carnaval aqui: são os blocos. Um monte de gente fantasiada (ou não), pelas ruas fora a seguir um carro (trio elétrico) em que uma banda ou cantor vai em cima a animar a festa. O outro, o tal das mulheres a sambar na avenida com fantasias que tapam apenas o essencial , não é nada disso. É uma acérrima competição, e as pessoas tendem a torcer pelas escolas de samba da mesma forma que o fazem pelas equipes de futebol: cada um torce incondicionalmente pela sua.
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| Bloco Esfarrapado |
Quando se vê o carnaval com os olhos daqui, é bem diferente o cenário com que nos deparamos- pasmem-se novamente: segundo uma pesquisa, cerca de metade da população brasileira não gosta de carnaval! E muitos brasileiros lamentam que o seu país seja apenas visto, por muitos, como uma mera conclusão precipitada baseada em flashes de imagens: o país do futebol e do carnaval, leia-se, das mulheres vistosas e pouco vestidas a balançar-se pela avenida dos desfiles. É isso, sim, e, felizmente, muito mais também. Não são (só) os "cartões postais" que fazem um lugar.