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| Avenida Paulista |
O título não pretende ser um plágio mas uma vénia a esse grande livro desse grande escritor/cronista: As minhas aventuras na República Portuguesa (Miguel Esteves Cardoso). Neste humilde endereço, apenas um pouco de tudo, um pouco de nada, muito de mim.
sábado, 10 de dezembro de 2016
Eu e a São Paulo menos óbvia
Já o devo ter dito aqui: o meu pássaro preferido em São Paulo é o sabiá. Não que, esteticamente, seja o mais bonito. O Bem-te-vi, por exemplo, é bem mais bonito: a cabeça branca e preta que parece exibir um penteado ousado, e o peito num amarelo vivo, alegre e chamativo. Já o seu canto...é, no mínimo, entediante. O sabiá, por outro lado, exibe cores mais discretas, mas um canto lindíssimo, ímpar. Apesar de já viver aqui há alguns anos, a melodia singela e harmoniosa do sabiá continua a surpreender-me. Dou por mim a parar em ruas típicas de São Paulo, cheias de prédios, só para ouvir esse canto inesperado e inesperadamente belo. Este é um dos lados menos óbvios de São Paulo que eu mais gosto: os sabiás e bem-te-vis que cantam nas ruas mais cosmopolitas e as orquídeas que teimam em renascer enroladas nas árvores da cidade.
Há umas semanas atrás, cheguei a casa de uns alunos meus e eles estavam animados com a visita de dois hóspedes: uma sabiá-mãe e um sabiá-bebé. A sabiá-mãe tentava incentivar o pequeno a voar. Ele ensaiava, mas não conseguia. Ficaram por ali um bom tempo: o bebé procurando a mãe, a mãe esvoaçando para lá e para cá, sempre perto do filhote. Até que, após muitas tentativas...lá foram. O sabiá-bebé abriu asas e voou para longe com a mãe. Embora um pouco tristes pela partida dos dois, todos comemorámos essa pequena grande vitória do bebé: abriu asas e foi conhecer o mundo! (Eu, pessoalmente, para além da conquista do pequeno, comemorei o facto de termos mais um sabiá para nos surpreender e encantar pelas ruas de São Paulo.)
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
Coisas que me fizeram parar
A vista de São Paulo. Nem sempre o céu é o mais azul, nem sempre a vista é a mais ordenada mas, se olhar bem, há lugares que são impressionantes. Mesmo na sua desordem, no seu cimento a perder de vista, São Paulo tem a sua beleza particular. A questão é que nem todos e nem em todos os momentos estamos disponíveis para a perceber.
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
Eu e a Fada do Dente
Quando temos um filho, as coisas mais banais tornam-se extraordinárias. Ficar de gatas? Balbuciar sílabas? Dizer umas palavras? Dar uns passos? Aprender a ler e escrever? Perder um dente de leite? Coisas triviais pelas quais todos passamos. E, ainda assim, que momentos especiais quando os vivemos enquanto mães/pais! Se há coisa que aprendemos com a maternidade é que cada momento é uma oportunidade: a coisa mais simples tem, em si, a semente da eternidade. A maternidade ensina-nos que não há nada mais importante que viver no momento presente, que aproveitar cada coisa do dia-a-dia. Através dos olhos de uma criança, tudo isso se torna evidente.
Ontem, o Mateus teve a visita da Fada do Dente pela primeira vez. Vi quando ela entrou sorrateiramente no quarto dele. Bem de leve, aproximou-se da cama dele. Observou-o a dormir, tranquilo. Muito cuidadosamente, levantou um pouco a almofada dele e procurou o dentinho de leite. Guardou-o numa caixinha, e deixou uma nota e uma moeda em troca. Sorriu e afastou-se. Esta manhã, o Mateus acordou-nos com um grito "Mããããe, paiiiiiiii, venham aqui!" Ai, Jesus, o que será que aconteceu? (De manhã cedo, o raciocínio é mais devagar...) Viu um bicho? Deixou escapar o xixi na cama? Quando chegamos ao pé dele tinha numa mão uma nota, na outra uma moeda, no rosto um sorrisão e nos olhos um brilho especial "Olha só o que a Fada dos Dentes me deixou!" "Que bom, filhote. Valeu a pena ter sido corajoso, não?" "Sim, eu já agradeci muito, muito à Fada!" "Parabéns, filho, temos de agradecer mesmo, todas as coisas boas que temos na vida."
No passado, um aluno meu disse-me muito triste e decepcionado "Joana, eu já sei que o Pai Natal não existe. São os nossos pais que nos compram os presentes de Natal." Disse-me isso com tristeza mas também lhe percebi uma esperança no olhar que eu fosse contrariá-lo, dizer-lhe que sim, que podia continuar a acreditar porque era verdade, sim! "Sabe", continuou ele "eu estou triste porque isso quer dizer que magia não existe. Não existem duendes nem Pai Natal, não existe magia..." "Não digas isso! Existe magia, sim. A vida está cheia de coisas mágicas!" "Ah, mas não é magia de verdade...", respondeu ele desapontado. "É, sim. É a magia das coisas que moram no nosso coração! Magia acontece, mesmo que não seja com pós de prilimpimpim. Só o facto de estarmos aqui, não é já magia? O amor não é magia?"
Eu sei que hoje de manhã houve magia aqui em casa.
Ontem, o Mateus teve a visita da Fada do Dente pela primeira vez. Vi quando ela entrou sorrateiramente no quarto dele. Bem de leve, aproximou-se da cama dele. Observou-o a dormir, tranquilo. Muito cuidadosamente, levantou um pouco a almofada dele e procurou o dentinho de leite. Guardou-o numa caixinha, e deixou uma nota e uma moeda em troca. Sorriu e afastou-se. Esta manhã, o Mateus acordou-nos com um grito "Mããããe, paiiiiiiii, venham aqui!" Ai, Jesus, o que será que aconteceu? (De manhã cedo, o raciocínio é mais devagar...) Viu um bicho? Deixou escapar o xixi na cama? Quando chegamos ao pé dele tinha numa mão uma nota, na outra uma moeda, no rosto um sorrisão e nos olhos um brilho especial "Olha só o que a Fada dos Dentes me deixou!" "Que bom, filhote. Valeu a pena ter sido corajoso, não?" "Sim, eu já agradeci muito, muito à Fada!" "Parabéns, filho, temos de agradecer mesmo, todas as coisas boas que temos na vida."
No passado, um aluno meu disse-me muito triste e decepcionado "Joana, eu já sei que o Pai Natal não existe. São os nossos pais que nos compram os presentes de Natal." Disse-me isso com tristeza mas também lhe percebi uma esperança no olhar que eu fosse contrariá-lo, dizer-lhe que sim, que podia continuar a acreditar porque era verdade, sim! "Sabe", continuou ele "eu estou triste porque isso quer dizer que magia não existe. Não existem duendes nem Pai Natal, não existe magia..." "Não digas isso! Existe magia, sim. A vida está cheia de coisas mágicas!" "Ah, mas não é magia de verdade...", respondeu ele desapontado. "É, sim. É a magia das coisas que moram no nosso coração! Magia acontece, mesmo que não seja com pós de prilimpimpim. Só o facto de estarmos aqui, não é já magia? O amor não é magia?"
Eu sei que hoje de manhã houve magia aqui em casa.
domingo, 24 de julho de 2016
Eu e a alegria que contagia
Há pessoas que fazem o seu trabalho com alegria e isso faz toda a diferença. Como é desagradável depararmo-nos com aquelas pessoas que parece que nos estão a fazer um favor a servir o café ou a vender o jornal, não? Devo admitir que, embora também existam por aqui, se vêem mais desses por Lisboa do que aqui por São Paulo. Pelo contrário, como é de salutar as pessoas que fazem o seu trabalho com um sorriso, com gentileza.
Há uma cobradora de ônibus com quem me cruzo, de vez em quando, nos meus trajetos. Acho notável a forma como ela faz questão de cumprimentar todos os que ali entram. Cumprimenta, sorri, deseja boa viagem. Apanha muita gente de surpresa. Posso dizer, sem qualquer sombra de dúvida, que a atitude dela, influencia a atitude que recebe de volta: as pessoas também cumprimentam, também sorriem. Alegria gera alegria, gentileza gera gentileza. O ônibus em que aquela senhora trabalha é o mais cordial e mais sorridente de todos! Eu admiro-a. Assim como admiro o condutor de ônibus que se esforça por travar devagar, principalmente quando choveu e está tudo alagado e sabe que a travagem vai levantar um monte de água que vai molhar quem está à espera do transporte.
Há semanas atrás aconteceu um episódio que também reflete essa alegria no trabalho, seja ele qual for. Aqui em São Paulo, é comum algumas pessoas entrarem nos ônibus para tentar vender todo o tipo de coisas: chocolates, balas (rebuçados), carteiras, canetas, ou mesmo pedir uma simples esmola. Se em Lisboa era comum ouvirmos no metro "alguém tem a possibilidade de me ajudar?", aqui ouvimos o célebre "pessoal, boa tarde, desculpem estar incomodando a vossa viagem. O meu nome é tal e venho aqui pedir...(e contam parte da vida, do que os levou ali)." Há semanas atrás, entrou um desses senhores no ônibus. Tinha para vender carteiras para guardar documentos. Vendia uma por X e duas por Y. O ônibus estava relativamente vazio. Silêncio. Ouvia-se apenas a explicação do senhor. No final, novo silêncio. E um desabafo dele "puxa, essa crise está brava mesmo!.. Ninguém compra nada..." Abriu um sorriso e continuou "Ahhhh, mas eu sou brasileiro e não desisto nunca!" (frase célebre por aqui). "Vamos lá, pessoal, eu não saio daqui enquanto não vender uma...uma carteira!.."Entram mais algumas pessoas no ônibus. "Olha só uma moedinha aqui no chão." continuou ele. "Já sei, eu vou dar uma carteira a quem me der uma moeda de um centavo!* Vamos lá, mais barato que isto vocês não encontram!" As pessoas no ônibus começam a esboçar sorrisos. "Quem dá um centavo? Vamos lá, melhor que isto, só de graça, pessoal!" Mais sorrisos dos passageiros. A energia dentro daquele ônibus foi mudando...A alegria daquele senhor, as suas piadas, as tentativas de interagir com as pessoas, foram contagiando todos. O senhor parou próximo a mim. Disse-lhe: "parabéns pelo seu trabalho: você faz tudo com alegria e isso contagia as pessoas." "Ah, tem que levar com alegria mesmo, né?", respondeu-me. "Olhe, eu vou ajudar você e levar uma dessas para o meu filho. Ele adora guardar os papéis dele, os desenhos. Vou levar uma." o senhor anuncia "Olha aí a primeira, pessoal! Vendi a primeira!" Depois de mim, mais 3 ou 4 pessoas compraram. Mais gente entrou no ônibus, que ficou relativamente cheio. O senhor continuou a fazer piadas, comentários bem humorados referindo-se à crise política, à vergonha da corrupção generalizada, e toda a gente ria. No final, despediu-se "Pessoal, muito obrigado pela vossa atenção! Quem vai trabalhar: bom trabalho. Quem vai descansar: bom descanso. Quem vai estudar: estude muito, mas muuuuito mesmo, senão, um dia, vão estar que nem eu aqui, batendo canela! Estudar é tudo! Vão com Deus, pessoal!"
Saí daquele ônibus com dois reais a menos, mas com boa disposição redobrada!
________________
* Não existem moedas de 1 centavo.
Há uma cobradora de ônibus com quem me cruzo, de vez em quando, nos meus trajetos. Acho notável a forma como ela faz questão de cumprimentar todos os que ali entram. Cumprimenta, sorri, deseja boa viagem. Apanha muita gente de surpresa. Posso dizer, sem qualquer sombra de dúvida, que a atitude dela, influencia a atitude que recebe de volta: as pessoas também cumprimentam, também sorriem. Alegria gera alegria, gentileza gera gentileza. O ônibus em que aquela senhora trabalha é o mais cordial e mais sorridente de todos! Eu admiro-a. Assim como admiro o condutor de ônibus que se esforça por travar devagar, principalmente quando choveu e está tudo alagado e sabe que a travagem vai levantar um monte de água que vai molhar quem está à espera do transporte.
Há semanas atrás aconteceu um episódio que também reflete essa alegria no trabalho, seja ele qual for. Aqui em São Paulo, é comum algumas pessoas entrarem nos ônibus para tentar vender todo o tipo de coisas: chocolates, balas (rebuçados), carteiras, canetas, ou mesmo pedir uma simples esmola. Se em Lisboa era comum ouvirmos no metro "alguém tem a possibilidade de me ajudar?", aqui ouvimos o célebre "pessoal, boa tarde, desculpem estar incomodando a vossa viagem. O meu nome é tal e venho aqui pedir...(e contam parte da vida, do que os levou ali)." Há semanas atrás, entrou um desses senhores no ônibus. Tinha para vender carteiras para guardar documentos. Vendia uma por X e duas por Y. O ônibus estava relativamente vazio. Silêncio. Ouvia-se apenas a explicação do senhor. No final, novo silêncio. E um desabafo dele "puxa, essa crise está brava mesmo!.. Ninguém compra nada..." Abriu um sorriso e continuou "Ahhhh, mas eu sou brasileiro e não desisto nunca!" (frase célebre por aqui). "Vamos lá, pessoal, eu não saio daqui enquanto não vender uma...uma carteira!.."Entram mais algumas pessoas no ônibus. "Olha só uma moedinha aqui no chão." continuou ele. "Já sei, eu vou dar uma carteira a quem me der uma moeda de um centavo!* Vamos lá, mais barato que isto vocês não encontram!" As pessoas no ônibus começam a esboçar sorrisos. "Quem dá um centavo? Vamos lá, melhor que isto, só de graça, pessoal!" Mais sorrisos dos passageiros. A energia dentro daquele ônibus foi mudando...A alegria daquele senhor, as suas piadas, as tentativas de interagir com as pessoas, foram contagiando todos. O senhor parou próximo a mim. Disse-lhe: "parabéns pelo seu trabalho: você faz tudo com alegria e isso contagia as pessoas." "Ah, tem que levar com alegria mesmo, né?", respondeu-me. "Olhe, eu vou ajudar você e levar uma dessas para o meu filho. Ele adora guardar os papéis dele, os desenhos. Vou levar uma." o senhor anuncia "Olha aí a primeira, pessoal! Vendi a primeira!" Depois de mim, mais 3 ou 4 pessoas compraram. Mais gente entrou no ônibus, que ficou relativamente cheio. O senhor continuou a fazer piadas, comentários bem humorados referindo-se à crise política, à vergonha da corrupção generalizada, e toda a gente ria. No final, despediu-se "Pessoal, muito obrigado pela vossa atenção! Quem vai trabalhar: bom trabalho. Quem vai descansar: bom descanso. Quem vai estudar: estude muito, mas muuuuito mesmo, senão, um dia, vão estar que nem eu aqui, batendo canela! Estudar é tudo! Vão com Deus, pessoal!"
Saí daquele ônibus com dois reais a menos, mas com boa disposição redobrada!
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* Não existem moedas de 1 centavo.
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