quarta-feira, 2 de junho de 2021

Eu e a memória

Uma das coisas mais curiosas que me aconteceu quando me mudei para São Paulo foi a percepção de que as memórias que temos estão, literalmente, armazenadas no nosso corpo, a nível celular, e não apenas no nosso cérebro. Na época, não sabia verbalizar isto desta maneira e, muito menos, tinha a noção de que isto são conceitos que têm vindo a ser trabalhados pela ciência moderna. Logo quando cheguei, era janeiro e o pico do verão aqui. Várias vezes eu não conseguia evitar pensar que estávamos no meio do ano, em julho ou agosto. Não, não era um pensamento: era uma sensação física, uma momentânea e errónea sensação, - ou melhor, certeza - de que estava no meio do ano. Ao voltar à realidade de que estávamos em janeiro, mais uma vez, tinha uma sensação física, real, como se fosse uma espécie de "nó" na cabeça. O ano avançou e os dias cinzentos e mais frios chegaram e eu conseguia, literalmente, em breves e inexplicáveis instantes, sentir o cheiro das castanhas assadas ou das filhós da minha mãe. Tinha a certeza que o Natal estava aí à porta! Mas... não, era o meu aniversário, que se aproximava...no final de junho. Nos primeiros anos, tudo me parecia sempre fora do lugar. E, repito, não era uma questão intelectual ou emocional, mas física. Estas oscilações entre o que sentia na pele e ossos e o que era real geravam-me quase um leve desconforto físico. Alguém que já tenha feito uma cirurgia, consegue ter um vislumbre daquilo a que me refiro: a sensação estranha e desconfortável que temos ao tocar na região do corte e não sentirmos o que habitualmente sentiríamos. Anos mais tarde, já não me afeta absolutamente nada se é verão no inverno, verão no verão ou inverno no verão. Onde estou, adapto-me naturalmente ao que é. E agora entendo que as minhas sensações tinham razão de ser: segundo as pesquisas científicas, crê-se agora que as células têm a sua própria memória. Não apenas os neurónios no cérebro mas toda e qualquer célula no corpo. Isso explica porque pessoas transplantadas, por vezes, adquirem gostos, hábitos e memórias da pessoa de quem receberam o transplante. O conceito de "memória" ė bem mais complexo e amplo do que imaginávamos. Carregamos não apenas uma memória emocional que acumulamos ao longo das nossas experiências (positivas e negativas), mas também uma memória, digamos, genética que herdamos não só dos nossos pais como de nossos ancestrais - em última análise, devemos o nosso "cérebro animal",  que nos permite reagir imediatamente a uma situação de ameaça aos primeiros Homo Sapiens (aqueles que melhor e mais rapidamente reagiam, conseguiam sobreviver e, dessa forma, passar adiante os seus genes). Se a memória é imprescindível para algumas coisas na nossa rotina - imagine todos os dias ter de reaprender a vestir-se, falar, comer, etc - noutros aspectos, pode funcionar contra nós,  deixando-nos ancorados no passado ou apavorados com o futuro com base nas memórias que criámos - porque tivemos uma determinada experiência que levou a certo resultado, evitamos experiências semelhantes que receamos nos levem a resultados idênticos que não queremos repetir. Mas a memória deve ser uma ferramenta que usamos a nosso favor e não uma arma que mina o nosso presente ou futuro. Como lidar com memórias que estão profundamente enraizadas em nós? O caminho mais eficaz é atribuir-lhes um novo significado. Olhe para as experiências sem culpa, arrependimento, raiva: nós fizemos sempre o melhor possível com a informação e a maturidade que tínhamos naquele momento. Não se julgue ou condene com base no que sabe ou ė agora. Não deixe que as experiências o paralisem: use-as como lições que o impulsionem a ser mais e melhor. Nós não somos as nossas memórias: podemos reinventar-nos, libertarmo-nos a qualquer momento. Não se renda àquilo que a sua mente e corpo têm como certo, como hábito. Use a memória de forma inteligente, a seu favor. Não somos escravos do que vivemos, nem do que herdamos. Somos uma obra em constante e eterno progresso. 
A minha experiência em São Paulo permitiu-me aperceber que as impressões geradas pela memória estão bem mais incrustadas em nós do que podemos supôr. Conhecer as linhas que nos prendem é o primeiro passo para podermos desembaraçarmo-nos delas. Assim como no filme Matrix: ninguém pode libertar-se do mundo Matrix se não tiver consciência, primeiro, que está preso lá. Ouse ir além dos genes, das experiências, dos traumas. "Os únicos limites que temos são aqueles em que acreditamos." ( Wayne Dyer )

domingo, 7 de março de 2021

Eu e as linhas que nos tecem

"Toda matéria se origina e existe apenas em virtude de uma força. [...] Devemos supor que por trás dessa força exista uma Mente consciente e inteligente. Essa Mente é a matriz de toda a matéria." — Max Planck, 1944


Hoje sabemos que o mundo não é apenas aquilo que conseguimos absorver com os nossos sentidos. Estamos constantemente rodeados por micro-organismos, por exemplo. Também sabemos - e isso é Ciência, não crença - que tudo é energia, desde o mais sólido pedaço de aço à mais delicada pétala de flor. O próprio Einstein, na sua mais famosa equação, equivale massa a energia. 

Somos todos energia e estamos todos conectados. Com as pessoas que nos são mais próximas é fácil sentir essa ligação. Quantas vezes, a quilómetros de distância de um ente querido, sentimos que alguma coisa aconteceu? Ou pensamos, subitamente, em alguém que não vemos há algum tempo e, inesperadamente, essa pessoa nos liga ou temos notícias dela por outra pessoa? Ou entramos numa sala ou conhecemos alguém e sentimos que a energia não "bateu" com a nossa? Coincidência? Ou são pequenas evidências dessas teias que nos tecem? 

Para mim, a grande magia da música - e da Arte, como um todo - passa por essa ligação invisível que nos une. Reparem como os momentos que, certamente, mais nos marcam em qualquer evento são aqueles em que todas as individualidades se dissolvem. Quando uma sala inteira canta, por exemplo, o refrão de uma música, canta, literalmente, a uma só voz. É como se essas teias que nos unem, fossem finíssimos fios, inertes e apagados e, nesses momentos, ganhassem vida e se acendessem todos, ligando-nos numa enorme teia iluminada. A energia gerada é incrível! Podemos senti-la no arrepio na espinha, no pulsar do coração, nos pêlos dos braços arrepiados, na lágrima que escorre. E, como tudo é energia, podemos senti-la a ver o pôr-do-sol, a observar uma árvore... Se estivermos receptivos a isso, podemos sentir essa ligação que temos com tudo e essa é a busca máxima do ser humano: transcender a limitada noção de "eu" e, ao perdermos a nossa individualidade, encontrarmo-nos, enfim. Nas palavras de Sadhguru:

O desejo humano de transcender as limitações físicas é natural. Viajando da limitação - baseado do corpo individual para a fonte ilimitada da criação - esta é a base de qualquer processo espiritual.(...) Se você é liberado das forças físicas da existência, a graça irrompe em sua vida.(...) É só que você tem que se tornar receptivo a isso.


Ousemos ir além dos sentidos. Os momentos mais mágicos da vida são aqueles em que nos esquecemos de nós mesmos e nos diluimos em algo maior do que nós. Deixemos as "teias que nos unem" brilhar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Eu e o ego


“Acordar para quem se é, requer desapego de quem você imagina ser.”

Alan Watts

 

Olhando para trás, percebo que, se há coisa que a vinda para São Paulo me proporcionou foi recomeçar. Não me refiro a recomeçar carreira, questões materiais ou nada dessas coisas que parecem óbvias e necessárias quando se muda de país ou cidade. A questão é que essa mudança obrigou-me a existir sem nada daquilo que foi parte da minha existência por 30 anos. Eu vi-me noutro país, com outra cultura, outros hábitos, outros problemas e desafios, outro clima (até outros mosquitos, aos quais me tornei, como já contei, extremamente alérgica), sem família nem amigos por perto, sem nada, absolutamente nada familiar ou conhecido, sem piano, sem nem sequer o meu sotaque. Era só eu, o meu marido e o meu filho. Em várias horas do dia era só eu e o meu turbilhão de pensamentos. Eu passei a ser a única portuguesa do meu dia-a-dia, não era mais a pessoa que tocava piano – e, por algum tempo, nem mesmo a pessoa que ensinava a tocar piano -, que podia ver os amigos e família com facilidade, não tinha mais carro para me levar a qualquer lugar a qualquer hora. Elencar todas as coisas das quais sentia falta era, na verdade, enumerar todas as coisas com as quais me identificava. Eu sentia falta de tudo de Lisboa. Tudo. Quanto mais pensava nisso, de mais coisas simples e ridículas me lembrava. Pensar em Lisboa, na minha família, nos meus amigos, no meu piano, era como querer agarrar-me com unhas e dentes a quem eu era. Porque...O que aconteceria comigo se eu deixasse de ser aquela pessoa? Quem seria eu, então? Como poderia eu existir sem a minha família? Quem sou eu sem eles? Sem os meus amigos, conhecidos, sem os lugares que frequentava? Quem sou eu se não tocar piano, sem a minha música? Quem sou eu se comer coisas diferentes? Se pensar coisas diferentes? Ou até mesmo se falar com um sotaque diferente? Quem sou eu? Temendo que a distância de quase 8000 km me pudesse fazer esquecer, o meu ego, ao mesmo tempo frágil e resistente, como o são todos os egos, – aquela vozinha que fala incessantemente na nossa mente, que nos diz que não somos bons o suficiente, que tem medo, que é insegura, que acha que tem de provar alguma coisa a alguém, que julga, critica, que se compara, que nos faz crer que as respostas estão “lá fora”, nas coisas materiais - procurava coisas e mais coisas às quais se apegar, pois o ego só se sente bem no que lhe é familiar, conhecido. O ego faz-nos crer que o que somos é o resultado de um conjunto de circunstâncias (país em que nascemos), características físicas, pessoas com quem nos relacionamos, gostos e aversões que temos, traços de personalidade, profissão que exercemos, coisas que possuímos, etc. etc. Reparem... Se alguém perguntar: “Quem és tu?” A nossa tendência é elencar uma série de características: mulher, 39 anos, portuguesa, pianista. Podemos acrescentar estrutura física, raça, traços de personalidade, coisas favoritas ou até papéis que representamos no mundo (filha, mãe, esposa, irmã, colega, diretora, funcionária). Mas...se pararmos para pensar: isso é tudo o que somos? E quando não somos mais o que somos? O que resta? Foi aí que surgiu a minha oportunidade de recomeçar. Recomeçar a questionar-me. Recomeçar a busca. Quem sou eu se grande parte do que eu entendo por “parte de mim” me faltar? Deixando de ouvir o meu ego que gritava, clamava e exigia o seu conforto no que lhe é familiar, eu rendi-me a tudo o que me causava desconforto e angústia e resolvi tentar espreitar o que tinha do outro lado dessas camadas que cobrem o meu Ser. Aliás, é isso exatamente que fazem os monges (budistas, hindus, cristãos, ou quaisquer outros): abdicam das suas roupas, posses, cabelos, confortos, para que possam, enfim, olhar-se e descobrir-se despidos de tudo o que achavam ser. Assim como uma borboleta tem de se desapegar da identificação com a lagarta que achava ser para poder abrir asas e alçar voo.

Eu sempre me questionei “quem sou eu?”. Talvez mesmo antes da adolescência eu já fosse assaltada por essa angústia. Lembro-me, claramente, de a minha professora de piano me entregar um bilhete de “feliz Natal” após uma audição em que escreveu algo como “Espero que encontres tudo o que procuras na vida”. Aquilo foi como um soco no meu estômago. Do que, realmente, eu estava à procura? Eu nem mesmo fazia uma pequena ideia de “quem sou eu”, quanto mais do que procurar!.. Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Por que estou aqui? Estas eram as perguntas que passeavam incessantemente pela minha mente. Sem resposta. A minha mãe sossegava-me, dizia que era normal passarmos por essas dúvidas, questões e inquietações. Que não me preocupasse, que com o tempo, isso passa: ninguém sabe as respostas, e tudo bem. Aprendemos a viver sem as perguntas. Eu reparava que nem todos os meus colegas se preocupavam com esses assuntos e estranhava. Como podem não se perguntar de onde viemos? Por que estamos aqui? Para onde vamos? Porque eu fechava os olhos e observava: “impossível não pensar em nada...impossível “ser nada”, “não existir”. Eu queria entender. Seria tudo um enorme acaso? E quando morrêssemos, seria o fim? Como conceber o “nada”? Nem mesmo o silêncio eu concebia como real. À noite, sem um som que fosse na casa, eu percebia que, ainda assim, ouvia alguma coisa, um “zumbido”, uma vibração ou, nem que seja, o som da nossa respiração ou do nosso coração a bater. E então eu li “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach, que falava sobre ir mais além, sobre uma gaivota que não queria ser como as outras que só voavam para procurar comida e só viviam em função de satisfazer as suas necessidades básicas. Também li o “Pequeno Príncipe” que me disse que o essencial é invisível aos olhos. Perdi-me e encontrei-me nos versos de Fernando Pessoa e seus heterónimos. Identifiquei-me totalmente quando li, pelo mesmo autor de Fernão Capelo Gaivota, que todos e tudo somos “UM”. Aprendi com “O Profeta” de Khalil Gibran e com os ensinamentos de Osho. Deixei-me maravilhar pela Música e, ao tocar piano, comprovei que somos muito mais do que células, tecidos e ossos. Sempre fui sensível à beleza de uma paisagem, um pôr-do-sol, lua, estrelas, uma flor. Continuei a ler, ler, escrever, tocar. Percebi que a resposta a “o que queres ser na vida?” era simplesmente “feliz” - e só bem mais tarde soube que essa frase já tinha dono (John Lennon). A questão é “o que é isso de ser feliz?” É ter tudo o que queremos? Ou Ser quem queremos? Se achamos que somos felizes quando temos o que queremos, estamos a colocar a nossa felicidade na dependência de uma série de fatores externos e sobre os quais não temos o menor controle. Há, até, quem coloque a sua felicidade nas mãos de outra pessoa: é no outro que está a sua felicidade. Se o outro se vai embora, o mundo colapsa...e a culpa é do outro. Se obtemos o que tanto queríamos, logo encontramos outro objeto de desejo. É uma procura sem fim: há sempre um carro melhor, uma casa melhor, um telemóvel mais moderno, uma viagem mais exótica, um trabalho com melhor status ou melhor salário, ser mãe, ter um cão ou até, quem sabe, um avião! Mas... ser quem queremos...Só depende de nós. Podemos argumentar: mas eu sou assim, sempre fui e não vou mudar. Sim, indubitavelmente trazemos connosco traços de personalidade mas, se analisarmos bem, uma boa parte deles não são realmente nossos: foram adquiridos por nós, fruto de circunstâncias do ambiente em que vivemos, das pessoas com quem convivemos, das experiências às quais fomos expostos. Tudo são crenças que vamos abraçando, uma espécie de programação que se estabelece e que rege (quase) tudo o que pensamos, sentimos e fazemos. É disso que o tal ego se alimenta. Desses pensamentos automáticos que correm na programação do nosso cérebro inconsciente. Observemos cada uma das nossas crenças, cada uma das coisas que achamos que nos definem. Deixemos cair por terra uma a uma. O que sobra? Quem somos nós sem as nossas certezas? Quem somos sem o nosso emprego? Sem a família, os amigos? Quem somos nós sem o ressentimento, sem o ódio? Quem somos nós sem o nosso porto-seguro? Sem chão, sem tecto? Sem os dogmas da religião ou da sociedade? Quem somos nós sem o medo? Sem a nossa dor? Sem a nossa reclamação constante? Quem somos nós sem o sofrimento? Sem aquilo que nos magoou? Sem a culpa? Quem somos nós sem as nossas conquistas? Sem a alegria ou o orgulho? Sem a vergonha? Quem somos nós sem as histórias que vivemos? Quem somos nós no final de tudo isso? Quem, desde o começo, nunca deixamos de Ser.


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Eu e a Gioconda

 "Um professor afeta a eternidade; é impossível dizer até onde vai a sua influência."

                                                                                Henry Adams


Nem eu nem a Gioconda poderíamos imaginar o caminho que iríamos percorrer quando, naquela tarde, com 8 anos de idade, entrei na sala dela com a minha amiga Inês. Posso dizer que não me lembro das minhas primeiras aulas de piano, mas recordo-me claramente desse dia em que conhecemos a nossa professora. Recebeu-nos enquanto dava aula a uma aluna mais velha, na sala 3 - a "sala da professora Gioconda". Com aquela amabilidade que a caracterizava, sorridente, pediu-nos para lhe mostrarmos as mãos. Ambas estendemos as mãos abertas na direção dela que exclamou "Que lindas mãos de pianista que vocês têm! Tenho a certeza que vão ser boas alunas!". Nós, tímidas - do género "entrar muda e sair calada" - nem sei se comentamos muita coisa durante os minutos em que estivemos ali. Acho que ouvimos a aluna mais velha tocar alguma música e a Gioconda motivou-nos, mais uma vez, "Daqui a pouco são vocês a tocar assim!.." Quando saímos da sala, lembro-me de olharmos para as mãos, encantadas: "a professora diz que temos mãos de pianista..."

Mas..aos 8 anos de idade, o piano não era uma paixão para mim. Era só mais uma disciplina da escola à qual me dedicava o quanto podia, o melhor que podia, dentro do tempo (limitado) que a ginástica artística - essa, sim, minha paixão - me deixava. Desses primeiros anos, lembro-me bem do começo das aulas, da exigência da Gioconda em querer a melhor posição das nossas mãos ao piano - como uma "bolinha" e com o pulso leve - e das músicas a 4 mãos que toquei com a Inês e uma música a 6 mãos que toquei com a Inês e outro colega nosso - momentos de muita diversão e aprendizagem que guardo com o maior carinho.

Os anos foram passando e, não sei precisar em qual momento, a Gioconda teve de diminuir as horas de aulas e conversou com a minha mãe para saber qual seria a minha intenção em relação ao piano dali para a frente, uma vez que a ginástica ocupava a maior parte do meu tempo e prioridade. A minha mãe - obrigada, mamã - disse-lhe que não desistisse de mim que, quem sabe, um dia, eu poderia dedicar-me mais ao piano. Após um período conturbado, muitas lesões e um cansaço/desânimo, desisti da ginástica. Em pouco tempo, pensei também desistir do piano - talvez um pouco de rebeldia da adolescência - e tive algumas das piores discussões com a minha mãe, que não me deixou desistir - mais uma vez: obrigada, mamã. Mas, vindo não sei de onde, comecei a sentir um vazio pela falta de objetivos, desafios aos quais estava constantemente habituada com a ginástica. E, bem nesse momento, a Gioconda resolveu ter uma conversa séria comigo e a Inês. "Vocês estão a ficar atrasadas no programa de piano, e têm de decidir o que querem fazer. Se quiserem desistir, tudo bem, deixarei de ser vossa professora mas terão sempre a minha amizade. Mas se optarem por continuar, fazer o exame de 5º grau, têm de mudar de atitude, dedicar-se, estudar horas e horas por dia, desenvolver a técnica." Nessa altura, eu já estava a estudar um Prelúdio de J.S Bach que mexia com a minha sensibilidade. Comecei a perceber que, quando tocava piano, conseguia exprimir-me de uma forma que as palavras não permitiam. De alguma forma, conseguia aceder a partes de mim às quais não chegava por nenhum outro meio. Então, naquele momento oportuno, a Gioconda soube dizer exatamente o que eu precisava ouvir e aquelas palavras mexeram profundamente comigo - como tantas e tantas vezes aconteceu. Não ia desistir novamente! Resolveu trocar todas as minhas peças - excepto o tal Prelúdio de Bach. Com enorme sensibilidade à nossa personalidade, como era sua característica, tocou algumas peças para eu escolher. E como tocava bem! Uma exímia pianista, de uma sensibilidade e expressividade raras. Tudo parecia fácil quando era ela a tocar. Entre as peças que tocou para eu ouvir, estava uma Canção sem Palavras de Mendelssohn. Emocionou-me como nenhuma música antes, com aquele arrepio na espinha e, sem qualquer dúvida, escolhi-a. Aprovou a minha escolha dizendo, como costumava, "Vai ficar-te muito bem." E, sim, foi essa peça que mudou a minha vida. Foi ali que eu percebi tudo o que a música me permitia exprimir. Sem palavras. A Gioconda dizia-nos "a música é poesia, e as notas são as nossas palavras. Se tu te emocionas a tocar, os outros também se emocionam a ouvir-te." Comecei a estudar várias horas de piano por dia. Abraçava, apaixonada, o ideal de perfeição que a Gioconda nos fazia perseguir. Incentivava-nos a sonhar, a encontrar a nossa Voz, a desenvolver a nossa sensibilidade, mais ainda do que a nossa técnica. Ao mesmo tempo, fomos estreitando laços a um ponto em que eu não tinha que dizer se estava tudo bem comigo ou não: era só entrar na sala e ela já sabia, só de olhar para mim. Mais do que professora, tornou-se uma grande Amiga, que sabia respeitar o nosso silêncio e ouvir os nossos desabafos. Também conversava connosco sobre a vida dela, fazia questão de nos mostrar que era "gente como a gente" (como se diz aqui no Brasil), com alegrias, tristezas, problemas, preocupações. Enfrentou perdas e doenças com coragem e resiliência. Tudo isso nos fazia admirá-la sempre mais. Admirávamos não só a excelente professora e pianista que era, mas o ser humano sensível, generoso, dedicado que sempre foi. (Quantas vezes corria para ajudar a família, quantas aulas a mais nos dava, quantas vezes nos recebeu na sua casa em aulas particulares sem aceitar nenhum pagamento?) Elegante, amável e educada como nenhuma outra pessoa que tenha conhecido. Carinhosa connosco, fazia questão de nos escrever bilhetes que entregava, principalmente, nos dias das audições - verdadeiros tesouros para mim. Não tinha vergonha de se emocionar. Não raras vezes a vimos chorar, emocionada com a música ou com bilhetes que também gostávamos de lhe escrever. Hoje, faço questão de a lembrar e homenagear aqui mas, se há coisa que me deixa feliz, é saber que sempre o fiz, sempre soube exprimir-lhe a gratidão pelo grande presente que me deu, e de uma forma tão especial e completa: a Música. Sempre soube desculpar-me quando errei. Sempre soube exprimir-lhe o quanto a admirava, o quanto a nossa amizade significava para mim. Sempre demonstrei afeto e carinho. A Gioconda inspirava-nos a procurar e a ser o melhor de nós. Não só na música, mas na vida. Uma das evidências disso é a classe de alunos unida e coesa que conseguiu construir. De alguma foma, nós éramos o espelho das qualidades humanas da Gioconda: não havia a menor competitividade entre nós. Só entreajuda, amizade, zelo, carinho. A Gioconda promovia o nosso convívio, e todos conhecíamos bem as peças que todos tocavam, por isso, sabíamos exatamente quais eram os compassos mais difíceis para cada um de nós, e o que sempre aconteceu foi uma enorme corrente de boas energias que se formava enquanto cada um de nós se apresentava em público. Nas partes difíceis, todos cruzávamos os dedos e, quando tudo corria bem, todos comemorávamos como uma conquista de cada um. Quando corria menos bem, todos nos apoiávamos. Criámos amizades fortes e verdadeiras. Algumas das minhas melhores amigas até hoje, são desse grupo. Tenho a certeza que a Gioconda ficaria feliz de saber que permanecemos próximas.  

Infelizmente, já a tínhamos perdido, sem a perder, há vários anos. Deixamos de partilhar tantas coisas... A última vez em que a encontrei, conseguiu lembrar-se de mim, do meu nome e de onde me conhecia mas, quando lhe mostrei a fotografia do meu filho bebé, não conseguiu esboçar nenhuma reação. Naquela época, já era apenas uma sombra pálida do ser humano iluminado que foi. Não imagino o sofrimento que a família passou - sempre admirámos a forma como ela e o marido se olhavam, com ternura e admiração, a linda relação que tinham construído depois de tantos anos juntos. Quando, nesse dia, me despedi do marido, confidenciou-me que a Gioconda jamais tinha apagado do telemóvel as mensagens carinhosas que eu lhe enviava. Segurei as lágrimas enquanto o abraçava, mas desabei. Que falta que ela nos fez! Que falta que ela nos faz! Que bom que vivemos essa amizade. Que bom que cada uma de nós soube demonstrar à outra o que sentia. Que bom que ela continuará viva nos ensinamentos que nos deu e que nós passamos adiante, nas memórias que criamos juntas, no afeto e carinho que sempre teremos por ela, nas notas que tocamos no piano, na Música que, como a Gioconda dizia, "vai ser sempre a nossa melhor amiga." Obrigada, Gioconda. Obrigada. Até sempre.






terça-feira, 24 de novembro de 2020

Eu e o Théo




Nasceu no começo de 2019 - estima-se que no dia 8 janeiro. No penúltimo dia de março tornou-se o mais novo integrante da nossa família, por isso, decidimos adoptar o dia 30 de março para data comemorativa. Sugerimos todos os nomes possíveis e imagináveis. Mas era Theo que o Mateus queria. E Theo ficou.
No dia da adopção, parecia um anjinho. Estava lá num cantinho, sossegado. Fofo, fofo, fofo. "Podemos ver aquele?" Puseram-no no colo do meu marido e logo adormeceu. Depois ficou tranquilo no colo do Mateus. Os três olhávamos para ele enternecidos. Como resistir a tamanha fofurice? Ele dormia pacifica e tranquilamente como se o nosso colo fosse o seu lar. Logo percebemos que o Mateus já tinha feito a sua escolha. (E o Théo, aparentemente, também.) Quando o deitámos na cama na loja de animais, para testar se o tamanho era adequado, adormeceu, mais uma vez, ali mesmo - e compramos esse modelo de cama. Irresistível. Parecia um bichinho de peluche. Acho que foi o único dia da vida dele em que parecia ser um anjinho - vá, justiça seja feita, quando dorme ainda parece um anjinho. Mesmo depois de chegar à sua nova casa, continuou tranquilo, dorminhoco. Um doce.
Nas primeiras noites, tinha dificuldades para dormir a noite inteira e acordava muito, muito cedo. Realmente tínhamos, novamente, um bebé em casa, que não nos deixava dormir tanto quanto gostaríamos. Chegou pequenino. Tão pequeno que, durante o dia, adorava dormir escondido em baixo dos armários da cozinha. Insistiu em dormir lá até ficar entalado, alguns meses depois, e precisar de ajuda para sair por algumas vezes. Resignou-se à sua nova condição: passou a dormir ao lado do armário, só com a cabeça escondida em baixo dele. (Agora nem a cabeça dele cabe lá.) À noite, dormia num cantinho entre a nossa cama e a parede, com a cabeça igualmente enfiada em baixo da cama. Ainda hoje é um dos lugares preferidos dele para dormir, embora já não consiga enfiar a cabeça em baixo da cama - mas ainda consegue dormir em baixo da poltrona da sala, que ele usa como sua cabana.
A cama dele foi uma das primeiras vítimas: em poucos dias já tinha estragado o fecho e roído um dos cantos. Seguiram-se os pés das cadeiras da sala. Quando o deixámos sozinho em casa, arrancou pedaços de espuma de uma almofada. Em outra ocasião, cantos de lençóis e edredons - um dos lençóis ficou em frangalhos.
Sempre gostou de mordiscar e pular. O alvo predileto é, e sempre foi, o Mateus. Os dois fazem a festa, mas quase sempre acaba com reclamações das mordidas e arranhões.
É medroso. Gosta de passear, mas adora voltar para casa e, quando somos nós a sair, recebe-nos entusiasticamente, com pulos e mais pulos, como se não nos visse há meses!
Acho que o que mais gosta na vida é de comer. Claro que não a própria ração. Basta ouvir-nos na cozinha a mexer em alguma embalagem ou talheres e corre para lá para ver se vai ter sorte, e se nos vê a comer alguma coisa, senta-se, educada e pacientemente à nossa frente, implorando com o olhar - sim, aquele olhar tipo "Gato das Botas" - que partilhemos com ele . Qualquer coisa. Alguma coisa. Adora fruta, bolacha e macarrão cru - fica sorrateiramente à espreita todas as vezes que vamos colocar macarrão na panela, não vá algum pedacinho cair...- E cai mesmo, acho que de tanto que ele torce para que aconteça.
Apaixonei-me por ele logo no primeiro dia e ele, bebezinho, talvez sentindo o meu carinho por ele, seguia-me por todo o lado. Não podia nem ir à casa-de-banho que lá ficava ele a choramingar na porta. Hoje em dia, ainda me segue se vou estudar piano, por exemplo, e fica a chorar na porta se não o deixo entrar. À noite, quando percebe a nossa movimentação na sala e os diálogos, corre imediatamente para a porta do quarto do Mateus, e fica sentado a olhar para ela: já sabe que é hora de ir dormir e quer entrar para dar boa noite. Abrimos a porta do quarto, ele dispara para cima da cama e deita-se lá à nossa espera. Algumas vezes fica perto de nós enquanto lemos um pouco. Depois, o Mateus faz carinho nele, dá beijo de boa noite e ele volta para a sala. Connosco também tem sempre o mesmo ritual: espera que me deite e, só então, sobe também na cama e deita-se no meu lado esquerdo (em que a cama está encostada à parede) com o focinho em cima da minha barriga. Se, por acaso, não vai diretamente para o lado esquerdo, dizemos "Théo: lá no teu lugar" e ele, imediatamente, vai para lá. De manhã, se sente que o Sérgio se mexeu na cama e vai acordar, logo se levanta e abana o rabo como um tambor rápido e ritmado. Também adora deitar-se aninhado nas pernas do pai . Quando ouve o Mateus no quarto dele, sai em disparada para a porta para lhe dar bom dia. Adora brincar conosco no quintal com a bola dele - que, diga-se, já tem tantas partes mordiscadas que, tecnicamente, já não é exatamente uma bola - e, principalmente, com a nossa bola de futebol - que, definitivamente, já não é uma bola - que abocanha enquanto abana a cabeça vigorosamente de um lado para o outro - qual predador que exibe a sua presa nos dentes.
Quando ouve a campainha, ladra sem parar. Quando ouve as pessoas a falar na rua também. Sempre ladrou para a televisão desligada, pois vê nela o próprio reflexo. Não pode ver um papel ou guardanapo perdido por aí que logo os come como se se tratasse de um petisco saboroso. Não gosta de tomar banho e, principalmente, não gosta do secador. Também não gosta de ter o pêlo escovado - tenta, insistentemente, morder a escova, o que dificulta a nossa tarefa de o escovar.
É muito querido, companheiro e beijoqueiro. Mas não gosta de abraços nem apertões. Também não gosta que o Mateus se meta com ele quando está entretido a roer o seu osso. 
Sabe que o amamos. Sim, não tenho pudor de o dizer: amo o meu cão, nessa forma de amor única que existe entre nós, seres humanos, e eles, bichos de estimação (principalmente cães) que nos amam incondicionalmente e nos ensinam tanto sobre isso e também sobre a felicidade dos pequenos momentos partilhados. E se há coisa que eu gosto aqui no Brasil é que aqui eu não sou dona do Théo: aqui sou a mãe dele.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Eu e Tu


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Percebo agora que eras Tu. Eras Tu quando eu acreditava que podia transpôr qualquer limite do meu corpo a cada pirueta, mortal, acrobacia ou demonstração de flexibilidade. Eras Tu quando eu sentia a pura  liberdade de voar e fazer com o corpo o que pareceria impossível pelas leis da física. Eras Tu quando eu fechava os olhos na praia e me deleitava nas cores e formas que me apareciam. Eras Tu a cada queda, a cada derrota e eras Tu em cada conquista. Eras Tu em cada caminho não tomado, em cada pedra no caminho, a cada encontro e desencontro. Percebo agora. És Tu a cada harmonia e melodia que me arrepia a espinha. És Tu em cada livro, cada frase ou poema que me fala ao coração. És Tu numa bebida quente no inverno e numa bebida gelada no verão. És Tu no perfume das flores, no cheiro da maresia e da relva molhada. És Tu quando o meu cão deita o focinho no meu colo, no canto do sabiá e no vôo planado da gaivota. És Tu num bom filme ou obra de arte, e na energia inigualável de um evento desportivo ou de um concerto. És Tu no amor, na paixão e na amizade e és Tu na ausência deles. És Tu a cada pôr-do-sol ou lua cheia que me faz parar. És Tu nas cores do arco-íris, nas ondas do mar e na leve brisa que me acaricia o rosto nas tardes abafadas. És Tu no azul do céu, nas nuvens desenhadas e nas estrelas cintilantes. És Tu nos campos de girassóis, nos ramos das  árvores que dançam ao sabor da aragem, nas cores das folhas de outono e também na neve e na chuva que nos impressiona com a bela coreografia que faz no chão. És Tu nos vitrais da Igreja, no cume da montanha e no grão de areia. És Tu no sorriso do meu filho, nas horas de brinquedos espalhados no chão e és Tu nos desafios da convivência. És Tu no abraço de quem amamos, no encontro de almas e corpos, nas gargalhadas de doer a barriga, nas lágrimas de alegria e nas de tristeza também. És Tu na cereja doce, no pão quente com manteiga e no bolo acabado de fazer. És Tu no trabalho, no descanso, na dádiva e na perda. És Tu quando ajudamos e Tu quando somos ajudados. És Tu a cada coincidência, acaso e plano que não dá certo. És Tu nos acertos e nos erros (que são dádivas para nos fazer evoluir). És Tu na esperança e és Tu no desespero. És Tu na intuição, no sonho e na visão. És tu na inspiração e na respiração e no ténue e precioso espaço entre cada uma delas. És Tu na imensa escuridão dos olhos fechados e no silêncio que lá encontramos. És Tu o Começo e o Fim. És Tu Aqui, Ali, Agora, Antes e Depois. Percebo agora que eras Tu. És Tu. Percebo agora. Sou Eu.