O título não pretende ser um plágio mas uma vénia a esse grande livro desse grande escritor/cronista: As minhas aventuras na República Portuguesa (Miguel Esteves Cardoso). Neste humilde endereço, apenas um pouco de tudo, um pouco de nada, muito de mim.
quarta-feira, 2 de junho de 2021
Eu e a memória
sábado, 17 de abril de 2021
domingo, 7 de março de 2021
Eu e as linhas que nos tecem
"Toda matéria se origina e existe apenas em virtude de uma força. [...] Devemos supor que por trás dessa força exista uma Mente consciente e inteligente. Essa Mente é a matriz de toda a matéria." — Max Planck, 1944
Hoje sabemos que o mundo não é apenas aquilo que conseguimos absorver com os nossos sentidos. Estamos constantemente rodeados por micro-organismos, por exemplo. Também sabemos - e isso é Ciência, não crença - que tudo é energia, desde o mais sólido pedaço de aço à mais delicada pétala de flor. O próprio Einstein, na sua mais famosa equação, equivale massa a energia.
Somos todos energia e estamos todos conectados. Com as pessoas que nos são mais próximas é fácil sentir essa ligação. Quantas vezes, a quilómetros de distância de um ente querido, sentimos que alguma coisa aconteceu? Ou pensamos, subitamente, em alguém que não vemos há algum tempo e, inesperadamente, essa pessoa nos liga ou temos notícias dela por outra pessoa? Ou entramos numa sala ou conhecemos alguém e sentimos que a energia não "bateu" com a nossa? Coincidência? Ou são pequenas evidências dessas teias que nos tecem?
Para mim, a grande magia da música - e da Arte, como um todo - passa por essa ligação invisível que nos une. Reparem como os momentos que, certamente, mais nos marcam em qualquer evento são aqueles em que todas as individualidades se dissolvem. Quando uma sala inteira canta, por exemplo, o refrão de uma música, canta, literalmente, a uma só voz. É como se essas teias que nos unem, fossem finíssimos fios, inertes e apagados e, nesses momentos, ganhassem vida e se acendessem todos, ligando-nos numa enorme teia iluminada. A energia gerada é incrível! Podemos senti-la no arrepio na espinha, no pulsar do coração, nos pêlos dos braços arrepiados, na lágrima que escorre. E, como tudo é energia, podemos senti-la a ver o pôr-do-sol, a observar uma árvore... Se estivermos receptivos a isso, podemos sentir essa ligação que temos com tudo e essa é a busca máxima do ser humano: transcender a limitada noção de "eu" e, ao perdermos a nossa individualidade, encontrarmo-nos, enfim. Nas palavras de Sadhguru:
O desejo humano de transcender as limitações físicas é natural. Viajando da limitação - baseado do corpo individual para a fonte ilimitada da criação - esta é a base de qualquer processo espiritual.(...) Se você é liberado das forças físicas da existência, a graça irrompe em sua vida.(...) É só que você tem que se tornar receptivo a isso.
Ousemos ir além dos sentidos. Os momentos mais mágicos da vida são aqueles em que nos esquecemos de nós mesmos e nos diluimos em algo maior do que nós. Deixemos as "teias que nos unem" brilhar.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2021
Eu e o ego
“Acordar para quem se é, requer desapego de quem você
imagina ser.”
Alan Watts
Olhando para trás, percebo que, se há coisa que a vinda para
São Paulo me proporcionou foi recomeçar. Não me refiro a recomeçar carreira,
questões materiais ou nada dessas coisas que parecem óbvias e necessárias
quando se muda de país ou cidade. A questão é que essa mudança obrigou-me a existir sem nada daquilo que foi parte
da minha existência por 30 anos. Eu vi-me noutro país, com outra cultura,
outros hábitos, outros problemas e desafios, outro clima (até outros mosquitos,
aos quais me tornei, como já contei, extremamente alérgica), sem família nem
amigos por perto, sem nada, absolutamente nada familiar ou conhecido, sem
piano, sem nem sequer o meu sotaque. Era só eu, o meu marido e o meu filho. Em
várias horas do dia era só eu e o meu turbilhão de pensamentos. Eu passei a ser
a única portuguesa do meu dia-a-dia, não era mais a pessoa que tocava piano –
e, por algum tempo, nem mesmo a pessoa que ensinava a tocar piano -, que podia
ver os amigos e família com facilidade, não tinha mais carro para me levar a
qualquer lugar a qualquer hora. Elencar todas as coisas das quais sentia falta
era, na verdade, enumerar todas as coisas com as quais me identificava. Eu
sentia falta de tudo de Lisboa. Tudo. Quanto mais pensava nisso, de mais coisas
simples e ridículas me lembrava. Pensar em Lisboa, na minha família, nos meus
amigos, no meu piano, era como querer agarrar-me com unhas e dentes a quem eu
era. Porque...O que aconteceria comigo se eu deixasse de ser aquela pessoa?
Quem seria eu, então? Como poderia eu existir sem a minha família? Quem sou eu
sem eles? Sem os meus amigos, conhecidos, sem os lugares que frequentava? Quem
sou eu se não tocar piano, sem a minha música? Quem sou eu se comer coisas
diferentes? Se pensar coisas diferentes? Ou até mesmo se falar com um sotaque
diferente? Quem sou eu? Temendo que a distância de quase 8000 km me pudesse
fazer esquecer, o meu ego, ao mesmo tempo frágil e resistente, como o são todos
os egos, – aquela vozinha que fala incessantemente na nossa mente, que nos diz
que não somos bons o suficiente, que tem medo, que é insegura, que acha que tem
de provar alguma coisa a alguém, que julga, critica, que se compara, que nos
faz crer que as respostas estão “lá fora”, nas coisas materiais - procurava
coisas e mais coisas às quais se apegar, pois o ego só se sente bem no que lhe
é familiar, conhecido. O ego faz-nos crer que o que somos é o resultado de um
conjunto de circunstâncias (país em que nascemos), características físicas,
pessoas com quem nos relacionamos, gostos e aversões que temos, traços de
personalidade, profissão que exercemos, coisas que possuímos, etc. etc.
Reparem... Se alguém perguntar: “Quem és tu?” A nossa tendência é elencar uma
série de características: mulher, 39 anos, portuguesa, pianista. Podemos
acrescentar estrutura física, raça, traços de personalidade, coisas favoritas
ou até papéis que representamos no mundo (filha, mãe, esposa, irmã, colega,
diretora, funcionária). Mas...se pararmos para pensar: isso é tudo o que somos?
E quando não somos mais o que somos? O que resta? Foi aí que surgiu a minha
oportunidade de recomeçar. Recomeçar a questionar-me. Recomeçar a busca. Quem
sou eu se grande parte do que eu entendo por “parte de mim” me faltar? Deixando
de ouvir o meu ego que gritava, clamava e exigia o seu conforto no que lhe é
familiar, eu rendi-me a tudo o que me causava desconforto e angústia e resolvi
tentar espreitar o que tinha do outro lado dessas camadas que cobrem o meu Ser.
Aliás, é isso exatamente que fazem os monges (budistas, hindus, cristãos, ou
quaisquer outros): abdicam das suas roupas, posses, cabelos, confortos, para
que possam, enfim, olhar-se e descobrir-se despidos de tudo o que achavam ser. Assim
como uma borboleta tem de se desapegar da identificação com a lagarta que
achava ser para poder abrir asas e alçar voo.
Eu sempre me questionei “quem sou eu?”. Talvez mesmo antes
da adolescência eu já fosse assaltada por essa angústia. Lembro-me, claramente,
de a minha professora de piano me entregar um bilhete de “feliz Natal” após uma
audição em que escreveu algo como “Espero que encontres tudo o que procuras na
vida”. Aquilo foi como um soco no meu estômago. Do que, realmente, eu estava à
procura? Eu nem mesmo fazia uma pequena ideia de “quem sou eu”, quanto mais do
que procurar!.. Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Por que estou aqui?
Estas eram as perguntas que passeavam incessantemente pela minha mente. Sem
resposta. A minha mãe sossegava-me, dizia que era normal passarmos por essas
dúvidas, questões e inquietações. Que não me preocupasse, que com o tempo, isso
passa: ninguém sabe as respostas, e tudo bem. Aprendemos a viver sem as
perguntas. Eu reparava que nem todos os meus colegas se preocupavam com esses assuntos
e estranhava. Como podem não se perguntar de onde viemos? Por que estamos aqui?
Para onde vamos? Porque eu fechava os olhos e observava: “impossível não pensar
em nada...impossível “ser nada”, “não existir”. Eu queria entender. Seria tudo
um enorme acaso? E quando morrêssemos, seria o fim? Como conceber o “nada”? Nem
mesmo o silêncio eu concebia como real. À noite, sem um som que fosse na casa,
eu percebia que, ainda assim, ouvia alguma coisa, um “zumbido”, uma vibração
ou, nem que seja, o som da nossa respiração ou do nosso coração a bater. E
então eu li “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach, que falava sobre ir mais
além, sobre uma gaivota que não queria ser como as outras que só voavam para
procurar comida e só viviam em função de satisfazer as suas necessidades
básicas. Também li o “Pequeno Príncipe” que me disse que o essencial é
invisível aos olhos. Perdi-me e encontrei-me nos versos de Fernando Pessoa e
seus heterónimos. Identifiquei-me totalmente quando li, pelo mesmo autor de
Fernão Capelo Gaivota, que todos e tudo somos “UM”. Aprendi com “O Profeta” de
Khalil Gibran e com os ensinamentos de Osho. Deixei-me maravilhar pela Música
e, ao tocar piano, comprovei que somos muito mais do que células, tecidos e
ossos. Sempre fui sensível à beleza de uma paisagem, um pôr-do-sol, lua,
estrelas, uma flor. Continuei a ler, ler, escrever, tocar. Percebi que a
resposta a “o que queres ser na vida?” era simplesmente “feliz” - e só bem mais
tarde soube que essa frase já tinha dono (John Lennon). A questão é “o que é
isso de ser feliz?” É ter tudo o que queremos? Ou Ser quem queremos? Se achamos
que somos felizes quando temos o que queremos, estamos a colocar a nossa
felicidade na dependência de uma série de fatores externos e sobre os quais não
temos o menor controle. Há, até, quem coloque a sua felicidade nas mãos de
outra pessoa: é no outro que está a sua felicidade. Se o outro se vai embora, o
mundo colapsa...e a culpa é do outro. Se obtemos o que tanto queríamos, logo
encontramos outro objeto de desejo. É uma procura sem fim: há sempre um carro
melhor, uma casa melhor, um telemóvel mais moderno, uma viagem mais exótica, um
trabalho com melhor status ou melhor salário, ser mãe, ter um cão ou até, quem
sabe, um avião! Mas... ser quem queremos...Só depende de nós. Podemos
argumentar: mas eu sou assim, sempre fui e não vou mudar. Sim, indubitavelmente
trazemos connosco traços de personalidade mas, se analisarmos bem, uma boa
parte deles não são realmente nossos: foram adquiridos por nós, fruto de
circunstâncias do ambiente em que vivemos, das pessoas com quem convivemos, das
experiências às quais fomos expostos. Tudo são crenças que vamos abraçando, uma
espécie de programação que se estabelece e que rege (quase) tudo o que
pensamos, sentimos e fazemos. É disso que o tal ego se alimenta. Desses
pensamentos automáticos que correm na programação do nosso cérebro
inconsciente. Observemos cada uma das nossas crenças, cada uma das coisas que
achamos que nos definem. Deixemos cair por terra uma a uma. O que sobra? Quem
somos nós sem as nossas certezas? Quem somos sem o nosso emprego? Sem a família,
os amigos? Quem somos nós sem o ressentimento, sem o ódio? Quem somos nós sem o
nosso porto-seguro? Sem chão, sem tecto? Sem os dogmas da religião ou da
sociedade? Quem somos nós sem o medo? Sem a nossa dor? Sem a nossa reclamação
constante? Quem somos nós sem o sofrimento? Sem aquilo que nos magoou? Sem a
culpa? Quem somos nós sem as nossas conquistas? Sem a alegria ou o orgulho? Sem a vergonha? Quem
somos nós sem as histórias que vivemos? Quem somos nós no final de tudo isso?
Quem, desde o começo, nunca deixamos de Ser.
terça-feira, 15 de dezembro de 2020
Eu e a Gioconda
"Um professor afeta a eternidade; é impossível dizer até onde vai a sua influência."
Henry Adams
Nem eu nem a Gioconda poderíamos imaginar o caminho que iríamos percorrer quando, naquela tarde, com 8 anos de idade, entrei na sala dela com a minha amiga Inês. Posso dizer que não me lembro das minhas primeiras aulas de piano, mas recordo-me claramente desse dia em que conhecemos a nossa professora. Recebeu-nos enquanto dava aula a uma aluna mais velha, na sala 3 - a "sala da professora Gioconda". Com aquela amabilidade que a caracterizava, sorridente, pediu-nos para lhe mostrarmos as mãos. Ambas estendemos as mãos abertas na direção dela que exclamou "Que lindas mãos de pianista que vocês têm! Tenho a certeza que vão ser boas alunas!". Nós, tímidas - do género "entrar muda e sair calada" - nem sei se comentamos muita coisa durante os minutos em que estivemos ali. Acho que ouvimos a aluna mais velha tocar alguma música e a Gioconda motivou-nos, mais uma vez, "Daqui a pouco são vocês a tocar assim!.." Quando saímos da sala, lembro-me de olharmos para as mãos, encantadas: "a professora diz que temos mãos de pianista..."
Mas..aos 8 anos de idade, o piano não era uma paixão para mim. Era só mais uma disciplina da escola à qual me dedicava o quanto podia, o melhor que podia, dentro do tempo (limitado) que a ginástica artística - essa, sim, minha paixão - me deixava. Desses primeiros anos, lembro-me bem do começo das aulas, da exigência da Gioconda em querer a melhor posição das nossas mãos ao piano - como uma "bolinha" e com o pulso leve - e das músicas a 4 mãos que toquei com a Inês e uma música a 6 mãos que toquei com a Inês e outro colega nosso - momentos de muita diversão e aprendizagem que guardo com o maior carinho.
Os anos foram passando e, não sei precisar em qual momento, a Gioconda teve de diminuir as horas de aulas e conversou com a minha mãe para saber qual seria a minha intenção em relação ao piano dali para a frente, uma vez que a ginástica ocupava a maior parte do meu tempo e prioridade. A minha mãe - obrigada, mamã - disse-lhe que não desistisse de mim que, quem sabe, um dia, eu poderia dedicar-me mais ao piano. Após um período conturbado, muitas lesões e um cansaço/desânimo, desisti da ginástica. Em pouco tempo, pensei também desistir do piano - talvez um pouco de rebeldia da adolescência - e tive algumas das piores discussões com a minha mãe, que não me deixou desistir - mais uma vez: obrigada, mamã. Mas, vindo não sei de onde, comecei a sentir um vazio pela falta de objetivos, desafios aos quais estava constantemente habituada com a ginástica. E, bem nesse momento, a Gioconda resolveu ter uma conversa séria comigo e a Inês. "Vocês estão a ficar atrasadas no programa de piano, e têm de decidir o que querem fazer. Se quiserem desistir, tudo bem, deixarei de ser vossa professora mas terão sempre a minha amizade. Mas se optarem por continuar, fazer o exame de 5º grau, têm de mudar de atitude, dedicar-se, estudar horas e horas por dia, desenvolver a técnica." Nessa altura, eu já estava a estudar um Prelúdio de J.S Bach que mexia com a minha sensibilidade. Comecei a perceber que, quando tocava piano, conseguia exprimir-me de uma forma que as palavras não permitiam. De alguma forma, conseguia aceder a partes de mim às quais não chegava por nenhum outro meio. Então, naquele momento oportuno, a Gioconda soube dizer exatamente o que eu precisava ouvir e aquelas palavras mexeram profundamente comigo - como tantas e tantas vezes aconteceu. Não ia desistir novamente! Resolveu trocar todas as minhas peças - excepto o tal Prelúdio de Bach. Com enorme sensibilidade à nossa personalidade, como era sua característica, tocou algumas peças para eu escolher. E como tocava bem! Uma exímia pianista, de uma sensibilidade e expressividade raras. Tudo parecia fácil quando era ela a tocar. Entre as peças que tocou para eu ouvir, estava uma Canção sem Palavras de Mendelssohn. Emocionou-me como nenhuma música antes, com aquele arrepio na espinha e, sem qualquer dúvida, escolhi-a. Aprovou a minha escolha dizendo, como costumava, "Vai ficar-te muito bem." E, sim, foi essa peça que mudou a minha vida. Foi ali que eu percebi tudo o que a música me permitia exprimir. Sem palavras. A Gioconda dizia-nos "a música é poesia, e as notas são as nossas palavras. Se tu te emocionas a tocar, os outros também se emocionam a ouvir-te." Comecei a estudar várias horas de piano por dia. Abraçava, apaixonada, o ideal de perfeição que a Gioconda nos fazia perseguir. Incentivava-nos a sonhar, a encontrar a nossa Voz, a desenvolver a nossa sensibilidade, mais ainda do que a nossa técnica. Ao mesmo tempo, fomos estreitando laços a um ponto em que eu não tinha que dizer se estava tudo bem comigo ou não: era só entrar na sala e ela já sabia, só de olhar para mim. Mais do que professora, tornou-se uma grande Amiga, que sabia respeitar o nosso silêncio e ouvir os nossos desabafos. Também conversava connosco sobre a vida dela, fazia questão de nos mostrar que era "gente como a gente" (como se diz aqui no Brasil), com alegrias, tristezas, problemas, preocupações. Enfrentou perdas e doenças com coragem e resiliência. Tudo isso nos fazia admirá-la sempre mais. Admirávamos não só a excelente professora e pianista que era, mas o ser humano sensível, generoso, dedicado que sempre foi. (Quantas vezes corria para ajudar a família, quantas aulas a mais nos dava, quantas vezes nos recebeu na sua casa em aulas particulares sem aceitar nenhum pagamento?) Elegante, amável e educada como nenhuma outra pessoa que tenha conhecido. Carinhosa connosco, fazia questão de nos escrever bilhetes que entregava, principalmente, nos dias das audições - verdadeiros tesouros para mim. Não tinha vergonha de se emocionar. Não raras vezes a vimos chorar, emocionada com a música ou com bilhetes que também gostávamos de lhe escrever. Hoje, faço questão de a lembrar e homenagear aqui mas, se há coisa que me deixa feliz, é saber que sempre o fiz, sempre soube exprimir-lhe a gratidão pelo grande presente que me deu, e de uma forma tão especial e completa: a Música. Sempre soube desculpar-me quando errei. Sempre soube exprimir-lhe o quanto a admirava, o quanto a nossa amizade significava para mim. Sempre demonstrei afeto e carinho. A Gioconda inspirava-nos a procurar e a ser o melhor de nós. Não só na música, mas na vida. Uma das evidências disso é a classe de alunos unida e coesa que conseguiu construir. De alguma foma, nós éramos o espelho das qualidades humanas da Gioconda: não havia a menor competitividade entre nós. Só entreajuda, amizade, zelo, carinho. A Gioconda promovia o nosso convívio, e todos conhecíamos bem as peças que todos tocavam, por isso, sabíamos exatamente quais eram os compassos mais difíceis para cada um de nós, e o que sempre aconteceu foi uma enorme corrente de boas energias que se formava enquanto cada um de nós se apresentava em público. Nas partes difíceis, todos cruzávamos os dedos e, quando tudo corria bem, todos comemorávamos como uma conquista de cada um. Quando corria menos bem, todos nos apoiávamos. Criámos amizades fortes e verdadeiras. Algumas das minhas melhores amigas até hoje, são desse grupo. Tenho a certeza que a Gioconda ficaria feliz de saber que permanecemos próximas.
Infelizmente, já a tínhamos perdido, sem a perder, há vários anos. Deixamos de partilhar tantas coisas... A última vez em que a encontrei, conseguiu lembrar-se de mim, do meu nome e de onde me conhecia mas, quando lhe mostrei a fotografia do meu filho bebé, não conseguiu esboçar nenhuma reação. Naquela época, já era apenas uma sombra pálida do ser humano iluminado que foi. Não imagino o sofrimento que a família passou - sempre admirámos a forma como ela e o marido se olhavam, com ternura e admiração, a linda relação que tinham construído depois de tantos anos juntos. Quando, nesse dia, me despedi do marido, confidenciou-me que a Gioconda jamais tinha apagado do telemóvel as mensagens carinhosas que eu lhe enviava. Segurei as lágrimas enquanto o abraçava, mas desabei. Que falta que ela nos fez! Que falta que ela nos faz! Que bom que vivemos essa amizade. Que bom que cada uma de nós soube demonstrar à outra o que sentia. Que bom que ela continuará viva nos ensinamentos que nos deu e que nós passamos adiante, nas memórias que criamos juntas, no afeto e carinho que sempre teremos por ela, nas notas que tocamos no piano, na Música que, como a Gioconda dizia, "vai ser sempre a nossa melhor amiga." Obrigada, Gioconda. Obrigada. Até sempre.
terça-feira, 24 de novembro de 2020
Eu e o Théo
Nasceu no começo de 2019 - estima-se que no dia 8 janeiro. No penúltimo dia de março tornou-se o mais novo integrante da nossa família, por isso, decidimos adoptar o dia 30 de março para data comemorativa. Sugerimos todos os nomes possíveis e imagináveis. Mas era Theo que o Mateus queria. E Theo ficou.
No dia da adopção, parecia um anjinho. Estava lá num cantinho, sossegado. Fofo, fofo, fofo. "Podemos ver aquele?" Puseram-no no colo do meu marido e logo adormeceu. Depois ficou tranquilo no colo do Mateus. Os três olhávamos para ele enternecidos. Como resistir a tamanha fofurice? Ele dormia pacifica e tranquilamente como se o nosso colo fosse o seu lar. Logo percebemos que o Mateus já tinha feito a sua escolha. (E o Théo, aparentemente, também.) Quando o deitámos na cama na loja de animais, para testar se o tamanho era adequado, adormeceu, mais uma vez, ali mesmo - e compramos esse modelo de cama. Irresistível. Parecia um bichinho de peluche. Acho que foi o único dia da vida dele em que parecia ser um anjinho - vá, justiça seja feita, quando dorme ainda parece um anjinho. Mesmo depois de chegar à sua nova casa, continuou tranquilo, dorminhoco. Um doce.
Nas primeiras noites, tinha dificuldades para dormir a noite inteira e acordava muito, muito cedo. Realmente tínhamos, novamente, um bebé em casa, que não nos deixava dormir tanto quanto gostaríamos. Chegou pequenino. Tão pequeno que, durante o dia, adorava dormir escondido em baixo dos armários da cozinha. Insistiu em dormir lá até ficar entalado, alguns meses depois, e precisar de ajuda para sair por algumas vezes. Resignou-se à sua nova condição: passou a dormir ao lado do armário, só com a cabeça escondida em baixo dele. (Agora nem a cabeça dele cabe lá.) À noite, dormia num cantinho entre a nossa cama e a parede, com a cabeça igualmente enfiada em baixo da cama. Ainda hoje é um dos lugares preferidos dele para dormir, embora já não consiga enfiar a cabeça em baixo da cama - mas ainda consegue dormir em baixo da poltrona da sala, que ele usa como sua cabana.
A cama dele foi uma das primeiras vítimas: em poucos dias já tinha estragado o fecho e roído um dos cantos. Seguiram-se os pés das cadeiras da sala. Quando o deixámos sozinho em casa, arrancou pedaços de espuma de uma almofada. Em outra ocasião, cantos de lençóis e edredons - um dos lençóis ficou em frangalhos.
Sempre gostou de mordiscar e pular. O alvo predileto é, e sempre foi, o Mateus. Os dois fazem a festa, mas quase sempre acaba com reclamações das mordidas e arranhões.
É medroso. Gosta de passear, mas adora voltar para casa e, quando somos nós a sair, recebe-nos entusiasticamente, com pulos e mais pulos, como se não nos visse há meses!
Acho que o que mais gosta na vida é de comer. Claro que não a própria ração. Basta ouvir-nos na cozinha a mexer em alguma embalagem ou talheres e corre para lá para ver se vai ter sorte, e se nos vê a comer alguma coisa, senta-se, educada e pacientemente à nossa frente, implorando com o olhar - sim, aquele olhar tipo "Gato das Botas" - que partilhemos com ele . Qualquer coisa. Alguma coisa. Adora fruta, bolacha e macarrão cru - fica sorrateiramente à espreita todas as vezes que vamos colocar macarrão na panela, não vá algum pedacinho cair...- E cai mesmo, acho que de tanto que ele torce para que aconteça.
Apaixonei-me por ele logo no primeiro dia e ele, bebezinho, talvez sentindo o meu carinho por ele, seguia-me por todo o lado. Não podia nem ir à casa-de-banho que lá ficava ele a choramingar na porta. Hoje em dia, ainda me segue se vou estudar piano, por exemplo, e fica a chorar na porta se não o deixo entrar. À noite, quando percebe a nossa movimentação na sala e os diálogos, corre imediatamente para a porta do quarto do Mateus, e fica sentado a olhar para ela: já sabe que é hora de ir dormir e quer entrar para dar boa noite. Abrimos a porta do quarto, ele dispara para cima da cama e deita-se lá à nossa espera. Algumas vezes fica perto de nós enquanto lemos um pouco. Depois, o Mateus faz carinho nele, dá beijo de boa noite e ele volta para a sala. Connosco também tem sempre o mesmo ritual: espera que me deite e, só então, sobe também na cama e deita-se no meu lado esquerdo (em que a cama está encostada à parede) com o focinho em cima da minha barriga. Se, por acaso, não vai diretamente para o lado esquerdo, dizemos "Théo: lá no teu lugar" e ele, imediatamente, vai para lá. De manhã, se sente que o Sérgio se mexeu na cama e vai acordar, logo se levanta e abana o rabo como um tambor rápido e ritmado. Também adora deitar-se aninhado nas pernas do pai . Quando ouve o Mateus no quarto dele, sai em disparada para a porta para lhe dar bom dia. Adora brincar conosco no quintal com a bola dele - que, diga-se, já tem tantas partes mordiscadas que, tecnicamente, já não é exatamente uma bola - e, principalmente, com a nossa bola de futebol - que, definitivamente, já não é uma bola - que abocanha enquanto abana a cabeça vigorosamente de um lado para o outro - qual predador que exibe a sua presa nos dentes.
Quando ouve a campainha, ladra sem parar. Quando ouve as pessoas a falar na rua também. Sempre ladrou para a televisão desligada, pois vê nela o próprio reflexo. Não pode ver um papel ou guardanapo perdido por aí que logo os come como se se tratasse de um petisco saboroso. Não gosta de tomar banho e, principalmente, não gosta do secador. Também não gosta de ter o pêlo escovado - tenta, insistentemente, morder a escova, o que dificulta a nossa tarefa de o escovar.
quinta-feira, 23 de julho de 2020
Eu e Tu

