terça-feira, 2 de agosto de 2022

Eu e Terças com Morrie

 



Hoje em dia, quando queremos ver um filme ou uma série, temos várias opções de plataformas que nos permitem alugar ou comprar esses títulos. Inclusivamente, na maioria das vezes, os episódios da série que queremos ver, ficam integralmente disponíveis para ser maratonados de uma ponta à outra, se assim quisermos.
Há décadas atrás, não tínhamos estas comodidades. Se queríamos ver alguma coisa que ia dar na televisão, tinha que ser naquele horário e dia, impreterivelmente, porque não existia repetição noutro canal, noutro dia, a box não gravava e, na melhor das hipóteses, poderíamos encontrar o que queríamos numa Blockbuster ou loja similar, o que significava sair de casa, ir até à loja, procurar o filme, alugar, voltar para casa, ver o filme e percorrer o mesmo caminho de volta para o devolver no dia certo, se não queríamos pagar multa. Eu e o meu irmão fizemos muitas vezes esse caminho. Também nos programamos muitas vezes para poder estar livres e nos sentarmos juntos no sofá em frente à televisão naquele dia naquela hora em que dava o Lost ou a Vingadora.
Nessa época, quando eu queria ver alguma coisa que ia dar muito tarde na televisão, deixava uma cassete no vídeo e, antes de ir dormir, apertava o REC. Claro que gravava o que tinha planeado e também tudo o mais que estivesse na programação até a cassete acabar. Foi numa dessas noites que, acidentalmente, gravei o filme "Terças com Morrie". Que bom que, naquela noite, eu tinha deixado a cassete a gravar! Que pérola de filme, com uma interpretação notável de Jack Lemmon. Quando percebi que o filme era baseado num livro autobiográfico, quis lê-lo. A minha mãe, carinhosamente antecipou-se, e deu-mo de presente de Natal.
"Terças com Morrie" é da autoria de Mitch Albom, um jornalista desportivo que, na faculdade, foi aluno de Morrie Schwartz. Após a conclusão do curso, perde o contacto com o professor. Vários anos mais tarde, vê uma entrevista de Morrie na televisão e descobre que ele tem uma doença incurável (doença de Lou Ghering). Resolve, então, procurá-lo. "Terças com Morrie" descreve os encontros entre o aluno e o professor, todas as terças, abordando os temas mais diversos e essenciais do ser humano, como amor e amizade, vida e morte, a beleza e o valor das coisas simples. "Um curso sobre a vida", como diz o próprio Morrie. O livro e o filme são emocionantes e profundamente inspiradores. Morrie mostra-nos, com a sua enorme sensibilidade, como é fácil ser feliz. De uma forma encantadora, ensina-nos que não precisamos de condições ideais para ser feliz. Mesmo na situação adversa que vive, com dor crónica e totalmente dependente dos outros para tudo, sem poder dançar (uma das suas coisas preferidas) ou saborear as comidas que mais gosta (outra das suas coisas preferidas), encontra sempre formas de sorrir e celebrar a vida.
"Terças com Morrie" é aquele tipo de livro que nos enche de lágrimas mas também de esperança e fé na vida, no amor, nas pessoas. Inesquecível e um livro a que voltamos várias vezes na vida, nem que seja para reencontrar esse ser humano especial: Morrie Schwartz.


Aqui podem ter o prazer de ouvir um pouco dos seus ensinamentos:

https://youtu.be/RtYyT6Hl3ms


domingo, 31 de julho de 2022

Nós e a Sala São Paulo

 Entramos na sala com passos lentos e contemplativos. Conferimos fileiras e cadeiras e acomodamo-nos. Novamente contemplamos: o palco repleto de cadeiras e estantes, as imponentes colunas de um lado e de outro da sala, os elegantes camarotes, a estrutura de madeira no teto do palco. A sala, só por si, já é uma obra de arte que enche os olhos. Aos poucos, vai ficando preenchida. Pessoas de todas as idades. Últimos avisos, algum burburinho ressoa na sala e, ao som de aplausos, os músicos começam a entrar com os instrumentos na mão. Afinam os instrumentos e aguardam o maestro. Ele entra com passos decididos e confiantes, cumprimenta o público e a orquestra com um largo sorriso e, ao elevar a batuta no ar, instala o silêncio na sala. Soam, então, as primeiras notas de Villa-Lobos que nos levam até à Floresta Amazônica. Sons que nos remetem aos animais e pintam as cores da Amazônia. O ritmo e sonoridade inconfundíveis da música de Villa-Lobos entusiasmam, emocionam e acabam em apoteose.

O concerto para violoncelo e orquestra de Elgar é arrebatador! Arrepia logo na apresentação do tema, com a entrada intensa do violoncelo, que culmina na entrada do tutti da orquestra. Sentimos as vibrações dos instrumentos nos pés, a emoção causa arrepios na espinha, os olhos enchem-se de lágrimas. Com passagens mais líricas em alguns momentos, com ritmo contagiante em outras, retoma, no final, a mesma intensidade com o primeiro tema do concerto. Após os aplausos, o violoncelista presenteou-nos com um Bach maravilhoso. Após a última nota, pianíssimo, delicada, o silêncio ecoou, magica e profundamente por alguns instantes na sala.
Os "pinheiros de Roma"  de Ottorino Respighi foi a grata surpresa da tarde. Que experiência sonora! A massa sonora, os efeitos sonoros, a grande variedade de instrumentos utilizada, as harmonias, o lirismo. Em alguns momentos, quando os instrumentos soavam de camarotes ou outros lugares "escondidos" do palco, recuei no tempo várias décadas, quando integrei o coro de crianças no War Requiem de Britten em que durante todo o concerto cantávamos nos bastidores do palco, longe dos olhos do público. Os "pinheiros de Roma" encantou-nos com os vários ambientes sonoros e as paisagens desenhadas nos sons e, no final, verdadeiramente apoteótico e emocionante, o público explodiu em aplausos, bravos e gritos efusivos. Quanto a mim, é sem o menor pudor que admito que não contive as lágrimas. De alma cheia e mente vazia. Pura emoção.

Obrigada Sala São Paulo, Orquestra do Festival Campos do Jordão 2022, maestro Marcelo Lehninger e violoncelista Leonardo Elschenbroich. Proporcionaram-nos uma tarde muito especial que eu jamais esquecerei.


Podem assistir ao concerto aqui:

https://youtu.be/B6sSlECDi-o





quinta-feira, 7 de abril de 2022

Eu e as percepções da realidade

 Sempre que estou na cozinha a preparar alguma refeição, tenho um fiel companheiro ao meu lado que, paciente e persistentemente, espera (torcendo!) que alguma coisa caia no chão. Qualquer coisa que caia, o meu cachorro quer comer, mesmo que seja um mera casca de cebola! 

Por estes dias, reparei num detalhe do seu comportamento. Ele percebe, pela minha movimentação ou pelo barulho ou não sei por qual meio de percepção seu, quando eu deixo alguma coisa cair, mesmo quando caiu das minhas mãos na bancada ou na mesa e não no chão. Mas a sua reação é sempre olhar para o chão e procurar o que caiu. Inclusivamente, olha para cima, observando o exato lugar onde deixei cair na bancada, depois para o chão,  depois novamente para a bancada, intrigado sem perceber a razão do objeto não estar no chão. Poderíamos apenas dizer que o cão é um idiota por não perceber que as coisas não passam através da bancada até ao chão. Na verdade, o cachorro julga o mundo, os acontecimentos,  de acordo com a sua capacidade de percepção. Não é melhor nem pior do que a nossa. Apenas diferente. E isso fez-me refletir: quantas percepções do mundo nós temos, quantas certezas cultivamos, que não passam de meras expectativas erróneas? Quantas vezes acreditamos que "as coisas vão cair no chão", sem perceber que a nossa visão do mundo é limitada? E quantas vezes ficamos a encarar a "bancada", continuamente à espera que algo caia, sem procurar outra solução, sem questionar? Quantas "leis" regem o nosso mundo que nós simplesmente desconhecemos? Quanto da realidade foge à nossa capacidade de percepção? Impossível não fazer uma analogia com o Matrix. Quando Neo realmente se apercebe do seu poder, começa a ver o Matrix como realmente é: uma teia de códigos e leis que podemos manipular e não um mundo ao qual só podemos reagir ou acomodarmo-nos. O que distingue o meu cachorro de mim na situação da bancada é a ignorância. E a ignorância é o que nos amarra às nossas crenças e limitações. Como sair disso? Ainda citando Matrix, " É a pergunta que nos impulsiona." 

terça-feira, 27 de julho de 2021

Eu e os Jogos Olímpicos

Há crianças que gostam de brincar com carrinhos, outras com bonecas, outras com legos. A minha brincadeira favorita era brincar aos Jogos Olímpicos. A parte de cima do sofá da sala era a trave, a poltrona era o salto de cavalo e o tapete da sala era o solo - apenas para as paralelas assimétricas não encontrei simulador. Imaginava todo um enredo com várias ginastas, com a sequência das notas e com o desfecho dos resultados finais. Eu sou, desde que me entendo por gente, completamente fascinada pela ginástica, pela sua beleza. A minha avó costumava dizer-me: "Vejo aquelas acrobacias todas da tua ginástica e penso: como o corpo humano consegue fazer tudo aquilo? Parece um milagre." Eu via esses mesmos milagres na televisão e, de alguma forma, sabia que tudo era possível. Vi dezenas e dezenas de vezes as mesmas provas que tínhamos gravado em cassetes. Ficava vidrada na televisão, entretida por horas. E é assim que fico, até hoje, a acompanhar os Jogos Olímpicos. Emociona-me profundamente. Desde a cerimónia de abertura, a tocha olímpica, as provas, claro, até à cerimónia de encerramento. Qualquer pessoa que tenha sido atleta de alta competição sonhou estar ali. E quem, como eu, um dia, sonhou estar ali, arrepia-se com cada momento desse evento. 
Para além de eu ser apaixonada por desporto, hoje entendo que há três fatores que explicam a minha paixão pelos Jogos Olímpicos. O primeiro é a minha incessante busca pela beleza. Eu acredito que a Beleza inspira, transforma e nos eleva. Quando acompanhamos uma Olimpíada,  sabemos que vamos ver os melhores atletas do mundo em ação e que vamos presenciar momentos incríveis: quebras de recordes, conquistas nunca antes alcançadas, momentos de incrível beleza. Como bem dizia a minha avó, parecem milagres diante dos nossos olhos. É verdadeiramente inspirador! Para além disso, cativa-me ainda mais o segundo fator: a superação. As histórias por trás de cada vitória, o percurso de cada atleta, o que enfrentaram, de onde vieram, o que passaram para chegar àquele momento sublime. Eu, tendo sido atleta, sei bem as dores e sacrifícios que estão por trás de cada performance. Mas o que dizer do campeão olímpico que não tinha dinheiro para comprar uma prancha de surf e começou a surfar nas tampas de esferovite que o pai usava nas caixas em que guardava o peixe que vendia? Ou da campeã olímpica de levantamento de peso que treinava, sem qualquer estrutura, com baldes de água? Do campeão olímpico que corria sem ténis? Do campeão olímpico cuja primeira bicicleta foi catada no ferro velho e nem assento tinha? Dos muitos campeões olímpicos que passaram fome? Da refugiada que nadou horas no Mediterrâneo para salvar outras pessoas e, anos depois, disputa uma Olimpíada? As realizações de todos eles relembram-nos que tudo, absolutamente tudo é possível. E tudo começa com uma paixão e um sonho. Não há limites para quem sonha e luta, com todas as suas forças,  por esses sonhos. E o que dizer dos exemplos de superação no momento da prova? O atleta que, exausto, quase a desfalecer, se esforça até ao limite das suas forças porque "o meu país fez um sacrifício para me enviar aos Jogos, e eu vim aqui para terminar a prova e não para desistir". O atleta que bate com a cabeça na plataforma de saltos para a água e, momentos depois, enfrenta todos os medos e sobe novamente para mergulhar brilhantemente para a medalha de ouro. Os atletas que se lesionam durante as provas mas, seja de que forma for, fazem questão de cruzar a linha de chegada. A atleta que cai nas Qualificações mas se reune emocionalmente e consegue uma performance inesquecível na Final. E a par da superação, encanta-me o outro fator: a atmosfera dos Jogos. Sim, há competição e todos querem ganhar, inscrever o seu nome na história do desporto. Mas há também união, confraternização e entreajuda. (Já na Grécia antiga os Jogos Olímpicos eram um período de trégua sagrada.) Não são raros os exemplos de atletas que ajudam outros, de nacionalidades diferentes, a terminar provas. Além de os Jogos Olímpicos unirem uma nação inteira - coisa que, nos dias de hoje é, igualmente, um milagre, dada a polarização que se vive em tantos países - também unem as diferentes nações nessa enorme celebração do desporto. O que mais me apaixona nos Jogos Olímpicos é que eles propiciam que o melhor do ser humano se revele. O lema dos Jogos é "mais rápido, mais alto, mais forte". Eu acrescentaria "mais humano", porque a Olimpíada não revela apenas o melhor do ser humano na performance física, mas principalmente nas qualidades que nos tornam humanos: empatia, compaixão, o coração a guiar as nossas ações. Eu sou, definitivamente, uma pessoa que acredita no ser humano, que acredita que somos todos partículas de uma mesma coisa, que somos todos Um. Os Jogos Olímpicos são o cenário perfeito para nos unir, e fazem-no, desde logo, no seu símbolo: os anéis entrelaçados, lembram-nos que estamos, sim, todos ligados. O meu sonho era participar dos Jogos Olímpicos, e hoje, o meu sonho é que o espírito dos Jogos Olímpicos participasse mais da nossa vida, sempre: competir de forma saudável, sem atropelos, sem deslealdade, ajudarmo-nos uns aos outros, estarmos abertos e, acima de tudo, estarmos curiosos para conhecer e abraçar as diferenças entre nós e podermos, enfim, celebrá-las. Se a Humanidade vivesse como na aldeia olímpica e competisse e se relacionasse como nos cenários das provas olímpicas,  viveríamos num mundo bem melhor. Mas...como em tudo, tudo começa com cada um de nós. Let the games begin!

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Eu e os 40 anos

Hoje comemoro 40 anos de vida. Por isso, hoje é um dia em que quero comemorar! Comemorar a Vida! Celebrar o privilégio que é existir aqui, neste tempo, nesta forma. Nós, seres humanos, somos, aparentemente, a única espécie neste planeta que tem a capacidade de indagar, questionar e maravilhar-se perante o milagre da Existência. Quão incrível é essa possibilidade que nos foi concedida? Então, hoje eu celebro. Celebro cada pôr-do-sol, cada estrela no céu, cada poesia e livro que li, cada filme, música, cada lágrima de emoção que chorei. Celebro cada abraço, beijo, encontro e reencontro. Celebro cada árvore florida, cada folha de outono, o sol a beijar-nos calorosamente a pele, a água do mar a acariciar-nos os pés, o cheiro da maresia, o voo da gaivota, as nuvens desenhadas no céu azul. Celebro os meus voos, mortais e piruetas, as notas no piano, as palavras escritas, o vento no rosto enquanto corremos ou andamos de bicicleta. Celebro o cheiro do pão quente e do bolo acabado de fazer, a sensação dos lençóis lavados na pele e de uma bebida quente no inverno. Celebro o sorriso do meu filho - o simples facto de ele existir na minha vida - o amor incondicional da minha família e do meu marido e que me une a eles, o carinho irresistível do meu cão. Celebro o Amor. Acima de tudo, celebro o amor. É esse sentimento que me une a tudo o resto. Celebro não só o amor que sinto, em todas as suas formas variadas, mas também o sentir-me amada. Celebro o amor que sinto quando fecho os olhos e sei que não Sou sozinha. Celebro a Vida que pulsa em mim. Celebro, porque trago o mundo cá dentro e isso, só por si, me preenche por inteiro e me faz transbordar, em palavras, notas musicais, gestos. Tudo foi e será sempre o Amor. Recebo os 40 de braços abertos e, mais ainda, de coração aberto.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Eu e a memória

Uma das coisas mais curiosas que me aconteceu quando me mudei para São Paulo foi a percepção de que as memórias que temos estão, literalmente, armazenadas no nosso corpo, a nível celular, e não apenas no nosso cérebro. Na época, não sabia verbalizar isto desta maneira e, muito menos, tinha a noção de que isto são conceitos que têm vindo a ser trabalhados pela ciência moderna. Logo quando cheguei, era janeiro e o pico do verão aqui. Várias vezes eu não conseguia evitar pensar que estávamos no meio do ano, em julho ou agosto. Não, não era um pensamento: era uma sensação física, uma momentânea e errónea sensação, - ou melhor, certeza - de que estava no meio do ano. Ao voltar à realidade de que estávamos em janeiro, mais uma vez, tinha uma sensação física, real, como se fosse uma espécie de "nó" na cabeça. O ano avançou e os dias cinzentos e mais frios chegaram e eu conseguia, literalmente, em breves e inexplicáveis instantes, sentir o cheiro das castanhas assadas ou das filhós da minha mãe. Tinha a certeza que o Natal estava aí à porta! Mas... não, era o meu aniversário, que se aproximava...no final de junho. Nos primeiros anos, tudo me parecia sempre fora do lugar. E, repito, não era uma questão intelectual ou emocional, mas física. Estas oscilações entre o que sentia na pele e ossos e o que era real geravam-me quase um leve desconforto físico. Alguém que já tenha feito uma cirurgia, consegue ter um vislumbre daquilo a que me refiro: a sensação estranha e desconfortável que temos ao tocar na região do corte e não sentirmos o que habitualmente sentiríamos. Anos mais tarde, já não me afeta absolutamente nada se é verão no inverno, verão no verão ou inverno no verão. Onde estou, adapto-me naturalmente ao que é. E agora entendo que as minhas sensações tinham razão de ser: segundo as pesquisas científicas, crê-se agora que as células têm a sua própria memória. Não apenas os neurónios no cérebro mas toda e qualquer célula no corpo. Isso explica porque pessoas transplantadas, por vezes, adquirem gostos, hábitos e memórias da pessoa de quem receberam o transplante. O conceito de "memória" ė bem mais complexo e amplo do que imaginávamos. Carregamos não apenas uma memória emocional que acumulamos ao longo das nossas experiências (positivas e negativas), mas também uma memória, digamos, genética que herdamos não só dos nossos pais como de nossos ancestrais - em última análise, devemos o nosso "cérebro animal",  que nos permite reagir imediatamente a uma situação de ameaça aos primeiros Homo Sapiens (aqueles que melhor e mais rapidamente reagiam, conseguiam sobreviver e, dessa forma, passar adiante os seus genes). Se a memória é imprescindível para algumas coisas na nossa rotina - imagine todos os dias ter de reaprender a vestir-se, falar, comer, etc - noutros aspectos, pode funcionar contra nós,  deixando-nos ancorados no passado ou apavorados com o futuro com base nas memórias que criámos - porque tivemos uma determinada experiência que levou a certo resultado, evitamos experiências semelhantes que receamos nos levem a resultados idênticos que não queremos repetir. Mas a memória deve ser uma ferramenta que usamos a nosso favor e não uma arma que mina o nosso presente ou futuro. Como lidar com memórias que estão profundamente enraizadas em nós? O caminho mais eficaz é atribuir-lhes um novo significado. Olhe para as experiências sem culpa, arrependimento, raiva: nós fizemos sempre o melhor possível com a informação e a maturidade que tínhamos naquele momento. Não se julgue ou condene com base no que sabe ou ė agora. Não deixe que as experiências o paralisem: use-as como lições que o impulsionem a ser mais e melhor. Nós não somos as nossas memórias: podemos reinventar-nos, libertarmo-nos a qualquer momento. Não se renda àquilo que a sua mente e corpo têm como certo, como hábito. Use a memória de forma inteligente, a seu favor. Não somos escravos do que vivemos, nem do que herdamos. Somos uma obra em constante e eterno progresso. 
A minha experiência em São Paulo permitiu-me aperceber que as impressões geradas pela memória estão bem mais incrustadas em nós do que podemos supôr. Conhecer as linhas que nos prendem é o primeiro passo para podermos desembaraçarmo-nos delas. Assim como no filme Matrix: ninguém pode libertar-se do mundo Matrix se não tiver consciência, primeiro, que está preso lá. Ouse ir além dos genes, das experiências, dos traumas. "Os únicos limites que temos são aqueles em que acreditamos." ( Wayne Dyer )