sábado, 4 de março de 2023

63-365

 


Tento fazer os meus alongamentos todos os dias. Em relação à flexibilidade, o nosso corpo responde de forma lenta. Avançamos um pouco a cada dia, de forma imperceptível aos nossos olhos. A mudança é lenta, gradual, até que, um dia, percebemos o caminho que já percorremos, o espaço que conquistámos no nosso corpo. Ao longo do caminho, vamos sentindo o corpo esticar, expandir-se. Alguns dias sentimos o corpo ligeiramente dolorido. Como se alguns músculos e tendões nos dissessem que existem, que estão ali. Apercebemo-nos deles. E, por mais preguiça ou desconforto que dê, continuamos, com cuidado, a trabalhá-los, até que não mais ficam doloridos. Cedem. Isso fez-me pensar: a nossa mente também funciona assim. Muitas vezes, quando queremos trabalhar certas emoções em nós ou questões mal resolvidas, (res)surgem dores. Tal como os tendões e músculos que percebemos quando trabalhamos a flexibilidade, essas dores manifestam-se, mostram-nos que existem, que estão ali. E, tal como os músculos doloridos nos dão vontade de não continuar o trabalho, essas dores também nos dão vontade de as evitar, de as deixar ali onde estão, quietas. Mas Einstein afirmou "a mente que se expande jamais voltará ao seu estado original." Cada vez que tentamos ir um pouco mais fundo em nós mesmos, que superamos o desconforto de nos olharmos, de enfrentarmos os nossos medos e dores, é um pouco mais de espaço que conquistamos. Espaço para construir algo novo. Espaço para crescer. Quando se sentir dolorido, não desista: do outro lado da dor, está a sua expansão. (Talvez a sua cura.)

O que Jesus faria (9)

 


Um tema fulcral nos ensinamentos de Jesus é o perdão. Talvez por Jesus saber que perdão é um assunto delicado para nós, (como é difícil, por vezes, perdoar!) e essencial não só para as nossas relações mas também para a nossa própria saúde emocional e mental.
Estudos científicos têm vindo a comprovar os benefícios do perdão para a nossa saúde. O acto de perdoar reduz o risco de ataque cardíaco, melhora os níveis de colesterol e a qualidade do sono, reduz dor, pressão arterial e níveis de ansiedade, depressão e stress (Universidade de Harvard). Um estudo realizado pela psicanalista Suzana Avezum apontou uma relação entre a dificuldade de perdoar e a ocorrência de enfarte agudo do miocárdio.
"A ruminação da mágoa e a revivescência do evento mantêm o stress e o corpo fica exposto a essas respostas fisiológicas, o que pode produzir patologias. Quando se trabalha o perdão, há o relaxamento das defesas do organismo, cura da mágoa e do corpo". A Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins (Baltimore) partilha da mesma conclusão "A raiva é uma forma de stress e, por isso, quando nos apegamos à raiva é como se estivéssemos a ativar a resposta ao stress no nosso corpo, ou resposta de luta ou fuga, de forma crónica. Sabemos que a ativação crónica dessa resposta leva a um desgaste no corpo. Não será surpreendente que, ao envolvermo-nos num acto de perdão, a resposta de stress comece a cessar e as mudanças psicológicas acompanhem essa mudança."
Uma das dificuldades no perdão, é que achamos que o que ocorreu é demasiado grave, que a falta do outro não merece perdão ou, talvez até, que seremos fracos ou tontos se perdoarmos, mas a questão é que o perdão não é um merecimento do outro: é uma dádiva nossa e, em última análise, para nós mesmos. Nas palavras de Everett Worthington, professor de Psicologia na Universidade Virginia Commonwealth, "Para podermos curar os nossos corações, o perdão é essencial. Perceba que o perdão é para nós, não para eles. É lamentável que alguém nos tenha causado mal, mas apegarmo-nos aos sentimentos negativos em relação a essa pessoa só nos magoa a nós mesmos. O perdão exige prática e nem sempre é uma decisão de um momento único. Por vezes, é necessário perdoar algumas ofensas todos os dias até começarmos a lembrar-nos menos e menos delas."
"Então, Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete." Jesus, há mais de 2000 anos atrás, já nos ensinou a importância de perdoar, não apenas por uma questão de convivência, mas porque sabia que o perdão é uma ferramenta essencial na construção da nossa saúde e felicidade. "Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido." "(...) vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta [no altar]." Sem perdão, não há paz de espírito. E assim como disse "amai-vos uns aos outros", orientou que "lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou: Mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco amou."
Amor e perdão andam de mãos dadas. E não temos de amar quem nos ofendeu ou magoou, mas é essencial que nos amemos a nós próprios e nos demos, de presente para nós mesmos, o perdão, não para benefício do outro, mas para nossa cura. Isso inclui a difícil tarefa de nos perdoarmos a nós mesmos. É preciso relembrarmo-nos que, por mais que tenhamos feito escolhas equivocadas, foram as melhores que poderíamos ter feito com a informação de que dispunhamos e sendo a pessoa que éramos naquele tempo.
Quando se encontrar numa situação difícil, dolorosa - ou se tem ainda alguma pendente do passado - invista a sua energia em perdoar, seja outra pessoa ou a si mesmo. A outra pessoa nem tem de saber. O perdão não tem de ser exteriorizado para o outro, tem de ser vivido em nós mesmos, para nós mesmos, por nós mesmos. Nesta temática, a resposta à pergunta "o que Jesus faria" é inequívoca: Jesus perdoaria (tal como perdoou a todos os que o ofenderam e maltrataram). 

sexta-feira, 3 de março de 2023

62-365

 


Esta semana, uma aluna perguntou-me que religião sigo. Respondi que não sigo nenhuma em particular. Ela não ficou satisfeita com a resposta, e insistiu "Mas você é de qual?" "Nenhuma..." Ela não desistiu "A sua mãe é de qual religião?" "Católica." "E o seu pai?" "Católica também." Ela abriu um sorriso e disse, com aquele ar de quem descobriu a pólvora, "Pronto! Então você é católica também!" Correndo o risco de a desapontar, respondi "Bom, não é porque os meus pais são que eu sou... Cada um pode seguir a religião com que mais se identificar." "Sim...", continuou ela "Mas se a sua família é uma coisa, é normal que você também seja..." Achei curioso esse conceito de "herdamos" a religião da nossa família. Parece-me que religião e espiritualidade, são coisas que buscamos de forma muito particular e individualizada. Quaisquer crenças impostas por família ou sociedade podem ser bastante limitantes, podem bloquear a nossa busca.
Não querendo decepcioná-la totalmente, respondi "Bom, eu sou baptizada e fiz a Primeira Comunhão..." "Viu?", respondeu ela "Você é católica!" E concluí "Eu não frequento a igreja, e nem concordo com muitos dos dogmas da Igreja. Mas eu sou, sim, uma profunda admiradora dos ensinamentos e do exemplo de vida de Jesus Cristo." E voltámos à música.
Não, contrariamente ao que a minha aluna concluiu, eu não sigo uma religião. Interesso-me pelos ensinamentos de várias, principalmente porque admiro muito os exemplos de Jesus, Buda, Krishna. Acredito que todas têm muito mais pontos em comum do que diferenças. Acredito que podemos aprender com todas. Acredito que todas, na sua essência, nos ensinam como ser melhores seres humanos. Todas nos ensinam sobre buscar a nossa essência. Todas nos falam de Amor. Eu não sigo nenhuma religião, eu não me prendo a um dogma, eu sigo o meu coração. 

O que Jesus faria (8)

 


Quem já participou de uma missa, ouviu que, a dada altura o padre diz "O Senhor esteja convosco" e a congregação responde "Ele está no meio de nós." Eu sempre interpretei essa frase como Deus estando ali, nos espaços entre nós. "No meio de nós" seria equivalente a "entre (todos) nós, nessa minha interpretação. Mas na Bíblia, em várias passagens, encontramos a mesma expressão, como em Deuteronómio: "Não te espantes diante deles, porque o Senhor, teu Deus, está no meio de ti" E Jesus afirmou: "Ninguém vai dizer: “Vejam! Está aqui” ou “Está ali”. Porque o Reino de Deus está dentro de vós."
Deus não está sentado num trono algures lá no céu. Deus habita em nós, a cada pulsar do nosso coração, a cada inspiração e expiração. É absolutamente miraculoso que, de entre todas as milhares, milhões, biliões de combinações possíveis no centésimo de segundo da nossa concepção, tenhamos sido cada um de nós a existir! O coração é o primeiro órgão a formar-se quando estamos no útero materno. Então, é credível que aí, no coração, more a nossa essência. Chame-lhe espírito, alma. Assim como os raios de sol ainda são o sol, nós somos um espectro da Luz Divina que nos deu Vida. Somos uma centelha de Deus. Independentemente da nomenclatura que escolher, é aí, no coração que essa Luz que somos brilha (e reflete a Luz Divina).  Deus está no meio de nós: no centro do nosso peito, no nosso coração. É por isso que é tão importante saber ouvir o nosso coração. Aprender a aquietar a mente para que o coração ganhe espaço para se fazer ouvir, "porque da abundância do seu coração fala a boca." Aquilo que está no nosso coração, é o que manifestamos, por isso, "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida."
Esta semana ouvi uma história muito bonita sobre este assunto. Um dia, Deus quis brincar às escondidas com os homens. Consultou vários sábios para saber qual seria o melhor esconderijo. Após ouvir as sugestões de vários, escutou o mais sábio dos sábios que lhe disse "No coração do homem. Esconda-se lá. Ele nunca vai lembrar-se de o procurar aí."
(Mas Jesus ensinou-nos que é aí que devemos procurar.)

quinta-feira, 2 de março de 2023

61-365

Ontem encontrámos na rua um vizinho de mais idade que é muito simpático. Viúvo, vive sozinho e gosta de conversar. Enquanto caminhávamos, conversámos um pouco. A dada altura, comentou que foi casado cerca de 40 anos, que sente falta da esposa. Mas que "é a vida". E acrescentou a frase que mais guardei "o ruim não é a gente ficar velho, o ruim é tudo o que a gente vai perdendo pelo caminho." Aquela frase fez-me pensar...Envelhecer implica perdas, sim. Perda de saúde, de vigor, perda de pessoas e coisas amadas. Sem dúvida, ao envelhecer, temos de aprender a lidar com perdas. Mas envelhecer também nos acrescenta: experiências, maturidade, sabedoria.  Se soubermos usar as nossas experiências a nosso favor, a idade traz-nos novas formas de encarar as coisas, melhora a nossa capacidade de gerir os conflitos e as dificuldades, e pode trazer-nos algo inestimável: a coragem de sermos nós mesmos e a felicidade de nos sentirmos confortáveis e realizados nesse lugar. Envelhecer pode proporcionar-nos a mais valiosa das qualidades: paz de espírito. E, com ela, tudo fica mais fácil de encarar e superar.


O que Jesus faria (7)

A lei da atracção ficou amplamente conhecida depois do documentário "O Segredo". Muito se falou e continua a falar-se sobre manifestação, sobre como criar a vida que se deseja. Sobre esse assunto, eu adoro alguns autores como Gregg Braden, Joe Dispenza, Vishen Lahkiani, Michael Beckwith ou Marisa Peer. O que muitas pessoas não sabem ou não se apercebem é que Jesus também nos falou da Lei da Atracção, há mais de 2000 anos atrás! "Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque aquele que pede recebe; e o que busca encontra; e, ao que bate, se abre." O que é isto se não a Lei da Atracção? Mas Jesus fala-nos da nossa responsabilidade sobre a nossa vida. Diz-nos que a iniciativa é nossa: peça, busque, bata! Reclame o que deseja e, então, o alcançará! Noutra passagem, no Evangelho de São Marcos, encontramos palavras semelhantes: "Tende fé em Deus, porque em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito. Por isso, vos digo que tudo o que pedirdes, orando, crede que o recebereis e tê-lo-eis." Vale referir que, no Evangelho de São Tomé, que pertence aos achados da biblioteca de Nagg Hammadi, há uma passagem que trata do mesmo assunto trazendo uma nuance importante: "Em verdade eu vos digo, todas as coisas que você pedir diretamente e imediatamente de dentro do meu nome, lhe serão dadas. Até agora você não fez isso. Peça sem motivo oculto e seja cercado pela sua resposta. Seja envolvido pelo que você deseja e sua alegria seja plena. "Este detalhe que faz toda a diferença: "seja cercado pela sua resposta", "Seja envolvido pelo que você deseja". Tal como é falado na moderna e em voga Lei da Atracção, não é apenas o pensamento que nos ajuda a manifestar o que queremos, mas sim o criar um sentimento positivo e vívido a respeito da nossa intenção. Não só acreditar mas sentir como se já se tivesse realizado o que se deseja. Ainda nesse Evangelho lê-se "Jesus disse que se dois fizerem as pazes um com o outro nesta casa, eles dirão ao monte 'se afaste ' e então o monte se afastará." Ou seja, quando pensamento e sentimento estiverem em concordância, a nossa vontade torna-se tão inabalável que até o monte se afastará perante ela!

Em momentos de dúvida, pense: o que Jesus faria? Ele foi um excelente professor, que viveu as lições que ensinou. Um Mestre. Seguiu os seus próprios ensinamentos para realizar todos os milagres. E ele mesmo nos disse: "Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que Eu faço e outras maiores fará, pois eu vou para o meu Pai."

quarta-feira, 1 de março de 2023

60-365

 


Uma coisa boa de ajudar o Mateus com os estudos é relembrar uma série de coisas que eu mesma estudei e já não me lembrava. É uma espécie de reciclagem de conhecimentos. Em Ciências, o ano passado falou das leis de Newton. Dessa matéria, todos guardamos alguma noção. Mas a terceira lei de Newton deixou-me uma reflexão. A lei afirma que a toda a ação corresponde uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto. Um dos exemplos que ele estudou foi o de caminhar. Quando caminhamos, empurramos o chão para trás com o pé, e o chão, por sua vez, "empurra-nos" para a frente. Eu confesso, no auge da minha ignorância, nunca tinha pensado na ação de caminhar dessa forma. Depois de ver essa matéria com o Mateus, dei por mim a reparar nesse gesto enquanto caminho. Fiz até a experiência: se ficarmos em pé, com os dois pés paralelos, e fizermos unicamente o gesto de levantar um pé e o levar para a frente, não saímos do mesmo lugar. É necessário que o outro pé empurre o chão para trás para que consigamos ir para a frente. E aí veio-me a tal reflexão: na nossa vida, a terceira lei de Newton também se manifesta, porque só conseguimos seguir adiante se "empurrarmos" algumas coisas para trás. Quantas vezes temos mágoas, medos, ressentimentos que nos pesam e prendem ao mesmo lugar? Às vezes, é preciso ter coragem, e empurrá-los para trás para nos catapultarmos para a frente. Hoje é o primeiro dia de um novo mês. É uma excelente oportunidade para refletir: o que está disposto a empurrar para trás (porque já não lhe serve, ou não lhe faz bem) hoje para se projetar para a frente (em direção à sua felicidade) neste novo mês?