quinta-feira, 6 de abril de 2023

95-365

 


Conheci a Joana como uma das "pequeninas" da classe de piano da minha professora. Antes de sermos amigas, a minha professora falava-me das alunas mais novas e exaltava o talento da Joana, a facilidade para aprender, a musicalidade. Nem sei bem quantos anos temos de diferença. Na verdade, nem são tantos assim, embora naquela época, parecesse que um fosso separava "as pequeninas" de mim. Mas a nossa classe de piano começou a conviver e interagir cada vez mais, e aí nasceu a nossa amizade.
Sempre admirei a Joana. Não apenas o indiscutível talento dela, mas a pessoa incrível que é. Talvez a forma tão especial com que se expressa no piano derive disso mesmo: da sua invulgar sensibilidade, da sua generosidade, da sua autenticidade, da sua alegria em viver. Nunca a vi esmorecer, desanimar. Tem sempre um sorriso guardado, um "sacode a poeira e bola para a frente!" como se diria aqui no Brasil. A Joana, seja em que circunstância for, é sempre a Joana, igual a ela mesma, que acredita nas pessoas, na vida. Mas não se enganem: por trás de toda a sua doçura está uma mulher incrivelmente forte e corajosa. Nunca hesitou em se reinventar quando foi necessário. É uma das pessoas que mais admiro na capacidade de gerir inúmeros projetos e atividades ao mesmo tempo. Arregaça as mangas e muitas vezes parece que consegue fazer o que exigiria duas pessoas para ser feito!
Para mim, foi um absoluto privilégio ser colega dela enquanto alunas e enquanto professoras porque, afinal, tudo é mais fácil e divertido quando estamos com uma grande amiga. Sempre nos rimos muito juntas. Mesmo em situações stressantes ou complicadas, arranjávamos maneira de nos rirmos. Sinto muita falta do nosso convívio, das nossas palhaçadas, das nossas conversas, desabafos. Mas sei que, onde quer que estejamos, o carinho e a cumplicidade que nos unem permanecem.
Que este ano te traga tudo de melhor. Mereces isso e muito mais!
Parabéns, "pequenina".

94-365

 


Ontem (5 abril), foi o aniversário da morte de Kurt Cobain, vocalista dos Nirvana. Há 29 anos atrás. Eu tinha 12 anos. Um ano mais nova do que o meu filho é agora. Mas lembro-me bem. Lembro-me do quanto falávamos disso no recreio da escola. O Kurt Cobain era o ídolo de metade de nós. Aquela irreverência dos Nirvana que abriu portas a tantas outras bandas da época, o estilo despojado, as letras das músicas que soavam como desabafos - com os quais nós, adolescentes, nos identificávamos tantas vezes - as músicas que ora pareciam exorcisar a raiva, ora soavam como lamentos da alma. Por mais discos que vendessem, concertos que esgotassem, Kurt Cobain continuava com o mesmo estilo despojado, calças de ganga, t-shirt e All Stars pretos (que todos queríamos ter iguais). Continuava com a mesma simplicidade, o mesmo olhar perdido e até doce - que, admitamos, cativava as meninas adolescentes. Sim, eu tinha um póster dele no meu quarto. Tinha quase todos os CDs, aprendi a arranhar algumas músicas deles na guitarra, ganhei de uma amiga uma t-shirt com o rosto do Kurt Cobain. Quando soubemos do suicídio, começámos a ouvir as músicas dele com outra perspetiva. Encontrávamos indícios em diversos versos, interpretávamos as músicas de outra forma. Tudo ganhou uma nova dimensão. Agora era a dimensão de alguém que exprimia a sua dor, que pedia socorro. Provavelmente, em muitas das músicas não seria ainda isso. Mas agora sabíamos o desfecho, então tudo parecia estar conectado. Ouvi um psiquiatra dizer uma vez que quem se suicida não quer acabar com a vida: quer acabar com a dor. Foi muito triste que a dor de Cobain tenha sido bem maior que tudo o resto na sua vida. Quanton aos Nirvana, tornaram-se atemporais. Amigas do meu filho ouvem as músicas e vestem t-shirts com o rosto de Kurt Cobain, tal como eu fiz há 29 anos atrás. Eu, de vez em quando, ainda revisito as músicas dele. De All Apologies, guardei sempre a última frase "All in all is all we all are." 

terça-feira, 4 de abril de 2023

93-365

Se ao menos houvesse tempo para ler todos os livros que gostaríamos de ler, todos os posts, assistir a todos os filmes, todas as séries, documentários, workshops. Se houvesse tempo e dinheiro para fazer todos os cursos sobre todos os assuntos que nos fascinam...

Vivemos num mundo em que temos fácil acesso a tudo. Livros, filmes, séries, cursos online, está tudo à distância de um clique. Há 15, 20 anos atrás, para ver um filme ou íamos ao cinema ou íamos até uma Blockbuster alugá-lo. Para ler um livro, tínhamos de o ir comprar à loja. Para acompanhar uma série, tínhamos que reservar aquele horário daquele dia da semana para não perder um episódio. Hoje em dia, as solicitações são tantas que temos que ser criteriosos nas escolhas. Admitamos: não é humanamente possível ver todas as boas séries, documentários, filmes que estão disponíveis em 1001 opções de streaming. Não é possível ler todos os livros, ou aprofundarmo-nos em todos os assuntos. Isso obriga-nos a uma difícil escolha. Qualquer escolha implica abdicar do que não se escolheu. Se seguimos pelo caminho A, deixamos de seguir pelo B ou C. Se escolho os sabores baunilha e caramelo, abdiquei de todos os outros sabores da loja. Talvez por isso, hoje em dia, nos seja partícularmente difícil fazer escolhas: sempre que escolhemos alguma coisa, estamos a abdicar de inúmeras outras. Mas a bem da nossa sanidade, é bom que tenhamos a consciência de fazer essas escolhas. Ou caímos no equívoco de seguir milhares de pessoas nas redes sociais, perder tempo precioso a rodar a tela para baixo, sem conseguir realmente aprofundar em nenhuma das dezenas de informações que nos aparecem. 

92-365

Esta semana recebi um vídeo de uma amiga com um excerto do filme "História de um Casamento" (excelente filme, por sinal, que encontram no Netflix), em que a advogada da personagem interpretada por Scarlett Johansson discorre sobre o sentimento de culpa e de obrigação de perfeição que recai sobre as mulheres. Afinal, diz ela, Maria era a mãe de Jesus: a virgem, perfeita, que deu à luz o filho de Deus, que estava lá na hora da morte do filho - "e onde estava o pai?" questiona a advogada.

Lembro-me perfeitamente da aula de piano em que o meu professor me falou sobre isto. Do complexo que nos persegue desde Eva. Somos descendentes dela, e ela é que instigou Adão a comer o fruto proibido - não, o pobre Adão não teve responsabilidade pela sua decisão... Caímos do Paraíso por causa de Eva e, inconscientemente, carregamos essa culpa no nosso ADN. Somos as pecadoras que merecemos sofrer e fazer todo o tipo de sacrifícios pelos outros - talvez para nos redimirmos da péssima influência que fomos para Adão e por termos condenado a raça humana a viver fora do Éden. Olhem à vossa volta. Os homens, em geral, são bem mais descomplexados. Para eles - talvez por uma questão genética e pelo contexto de sociedade patriarcal em que ainda nos movemos - é bem mais fácil dar-se o direito de pensar em si mesmos. Uma mulher tem que se desfazer em 2 ou 3 para dar conta de todos os recados, e ainda assim tende a achar que não é suficiente. Uma mulher sente a obrigação de colocar todos à sua frente como prioridade. No dia em que ousa pensar em si mesma primeiro, lá vem a famigerada culpa. Ser mulher nunca foi fácil. Temos de agradecer o tanto que outras mulheres de gerações anteriores à nossa já percorreram para que hoje tenhamos adquirido direitos e liberdades com que elas apenas sonhavam. Ainda há muito a  ser trilhado. E continuamos a ter o caminho mais difícil para percorrer: cá dentro, de desconstrução. Não, não temos de ser perfeitas em tudo. Não, não é egoísmo pensar em si mesma: é autocuidado - e é essencial se queremos cuidar dos outros (a história de colocar primeiro a máscara de oxigénio em si mesma para depois ter condições de ajudar os outros a colocar a sua). 

domingo, 2 de abril de 2023

91-365

 


Em criança, li muita banda desenhada da Disney. Ontem, ao caminhar com o meu filho na rua, lembrei-me do Pato Donald e do Gastão. Isto porque ele me disse "Será que encontramos uma moeda no caminho, mãe?" Imediatamente me veio à memória em quantas coisas fantásticas Gastão tropeçava, sem que fizesse o menor esforço para isso. Ao mesmo tempo, por mais que o Pato Donald tentasse, as coisas corriam-lhe sempre mal. A grande diferença entre um e o outro era a atitude. O Gastão caminhava pela rua com a absoluta certeza de que tudo de bom lhe iria acontecer, de que tudo o que queria ou precisava viria ao seu encontro na hora certa. Já o Pato Donald navegava pela vida com a ansiedade de achar que tudo era difícil e perigoso e sempre atento a tentar perceber de onde o azar iria aparecer desta vez. Quanto mais o Gastão confiava na sorte, mais ela o visitava. Quanto mais o Donald acreditava que tudo de mal lhe iria acontecer, mais azares o perseguiam. (Vejam a diferença de atitude dos dois personagens nessa imagem que coloquei aí.) Reparem como isso nos acontece tantas vezes... qual de nós não passou fases em que sentia que tudo de mal lhe acontecia? Ou fases em que parecia que tudo fluía? Ou dias-não, em que parece que tudo nos acontece? Parece que funciona em espiral: quanto mais "sorte" sentimos ter, mais sorte atraímos e o mesmo para o "azar". Como mudar a nossa sorte? Talvez seguindo o exemplo do Gastão: simplesmente acreditar que tudo vai acontecer para o nosso bem.
Ah, não encontrámos moeda nenhuma no caminho, mas à noite ganhámos R$10 no lotofácil que tínhamos feito minutos antes da caminhada. Vale? :)

O que Jesus faria (15)

Jesus também sentiu medo. "E tomou consigo a Pedro, e a Tiago, e a João e começou a ter pavor e a angustiar-se. E disse-lhes: A minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui e vigiai." E então, pediu a Deus que o poupasse do que estava por vir: "...prostrou-se em terra; e orou para que, se fosse possível, passasse dele aquela hora. E disse: Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres."

Quantas vezes sentimos medo, incerteza em relação ao futuro? Quantas vezes precisamos, como Jesus precisou, do apoio das pessoas que amamos e em quem confiamos? Isso não nos torna mais fracos. Apenas humanos. Medos e dúvidas fazem parte da nossa natureza. Assim como deve fazer parte da nossa natureza confiar que estamos à altura dos desafios que se nos apresentam. Saber que tudo acontece por uma razão e que nem sempre cabe ao nosso entendimento perceber todas as razões de todas as coisas. Também tem que fazer parte da nossa natureza ter a coragem de enfrentar os desafios, mesmo com medo, se for preciso. E também deve fazer parte da nossa natureza pedir ajuda quando sentirmos necessidade. Assim como Jesus, Arjuna, protagonista de Bhagavad Gita, também sentiu medo e dúvidas. Desses sentimentos nasce, com Krishna, um dos diálogos mais bonitos e ricos em ensinamentos de todas as Escrituras. Também Siddhartha Gautama saiu pelo mundo, numa vida ascética, à procura de respostas. Foi por não as encontrar que ficou 40 dias sob uma árvore, em silêncio, e aí se tornou Buda, o iluminado.
Que tenhamos a coragem de assumir as nossas dúvidas e procurar as respostas, de reconhecer os nossos medos e enfrentá-los, com a certeza de que nunca estaremos sozinhos no caminho.

sábado, 1 de abril de 2023

90-365

 


Ontem estava a dar o Matrix na televisão e assisti a parte do filme. Por mais vezes que assista, sinto-me sempre maravilhada pela genialidade do filme, permeado por tanta sabedoria milenar! Logo no começo, Morpheus dá a Neo a escolha entre permanecer naquele mundo conhecido, ou conhecer a Verdade. Dá-lhe a escolha de permanecer na ignorância ou enfrentar o caminho da Verdade - a famosa escolha entre a pílula azul ou vermelha - o que sempre me lembra da alegoria da caverna de Platão e do versículo da Bíblia "a Verdade te libertará" (talvez não por acaso, ao tomar a pílula vermelha, Neo acorda do seu sono forçado e liberta-se, iniciando a sua jornada). Quando Neo questiona o que é real, Morpheus responde "Se estás a falar do que consegues sentir, do que podes cheirar, provar, ver, então, "real" são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo cérebro."
Um pouco mais à frente, Morpheus diz "Liberta a tua mente. Eu posso abrir a porta, mas és tu que tens de atravessá-la. Só posso oferecer-te a Verdade. Não disse que seria fácil." No treinamento de Neo, ao defrontar-se numa luta de kung-fu, Morpheus diz-lhe "Não penses que és mais rápido, sente e sabe que o és! Não tentes acertar-me, acerta-me!", o que nos traz à memória outro grande sábio do mundo geek, mestre Yoda "Faz ou não faças. Não existe tentativa." Morpheus oferece a Neo a possibilidade de sair do mundo das ilusões em que vive (Matrix) e conhecer o mundo real. Mais do que isso, mostra-lhe que Matrix é regido por regras mas que dentro dele, na sua mente, está o poder de manipular essas regras a seu favor, o poder de criar.
Precisamos de mais Morpheus neste mundo: pessoas que nos digam que somos mais poderosos do que pensamos ou acreditamos, pessoas que nos apontem para o conhecimento que já está aqui, dentro de nós, no nosso corpo, pessoas que nos façam acreditar e viver o nosso potencial. Na verdade, não precisamos de mais Morpheus, apenas de tirar o foco de tudo à nossa volta que nos diz que precisamos mais disto e daquilo, que nos faz crer nas limitações, e prestar mais atenção a todos os "Morpheus" que já andaram por aqui (Jesus mesmo disse-nos que podemos fazer as obras que ele fez), e a todos os que por aqui andam agora.
A grande questão, no final, é: escolhemos a pílula azul ou a vermelha?