segunda-feira, 15 de maio de 2023

107-365

 


Ser mãe muda o nosso corpo. Não só durante a gravidez, mas depois. Dependendo das mulheres, o tamanho das ancas muda, do peito - encolhe, aumenta, sofre o efeito da gravidade -, o metabolismo também se altera, a estrutura, peso.
Ser mãe muda a nossa vida, as rotinas, horários, prioridades, gastos. Se não se tiver uma rede de apoio, torna-se difícil, por exemplo, sair para passear, comer fora, muito menos sair a dois - às vezes até dormir!
Mas aquilo que mais muda em nós com a maternidade é a nossa forma de olhar para o mundo. Agora, usufruimos do filtro das lentes do olhar do nosso filho. O olhar que se maravilha com tudo, o olhar atento, presente, o olhar da descoberta, da busca, do encontro. Um filho permite-nos ressignificar o valor de tudo o que nos rodeia e perceber que as coisas mais simples podem ser especiais.
E, então, se tivermos abertura  para isso, ser mãe muda a nossa forma de estar no mundo. Passamos a estar no mundo com a atenção em cada momento, porque percebemos que aquele sorriso é único, aquele primeiro passo não acontece outra vez, aquela sesta no colo tem os dias contados porque só pode acontecer enquanto couberem no nosso colo. Queremos mostrar o Mundo ao nosso filho e redescobri-lo junto com ele. Quando a criança é pequena, o mundo é um imenso parque de diversões, com novidades todos os dias. Nesses anos, temos a oportunidade de renovar a nossa visão do mundo. Quando a criança cresce, começam a surgir medos, desconfianças, dúvidas. Começa a olhar mais para as nossas ações do que para as nossas palavras. Por isso, passamos a estar no mundo de forma mais atenta porque queremos ser um bom exemplo. Queremos ser aquilo que gostaríamos de os ajudar a ser. E, mesmo com os nossos próprios medos, desconfianças e dúvidas - sim, porque também os temos -, nesses anos, é nossa responsabilidade mostrar-lhe o mundo que ela mesma no ajudou a redescobrir: cheio de oportunidades, de coisas boas, beleza, abundância. Temos a oportunidade de repensar quais crenças e visões do mundo queremos deixar que o nosso filho absorva através de nós. As nossas palavras e, principalmente, ações estão, a cada momento, a moldar a construção e entendimento que o nosso filho faz do mundo. Os nossos gestos e palavras são interpretados, incorporados e mimetizados pela criança. É nossa responsabilidade assumir se é daquela forma que gostaríamos que resolvesse os problemas, que enfrentasse as dificuldades, que celebrasse as vitórias, que se relacionasse com os outros. A maternidade proporciona-nos uma oportunidade de nos recriarmos. Inspira-nos a procurar melhores formas de expressão, crenças mais construtivas. Inspira-nos a ser melhores, a nossa melhor versão. Por mais difícil e desafiador que seja. Porque amamos incondicionalmente o nosso filho e queremos apenas o melhor para ele.

sábado, 13 de maio de 2023

106-365

 


"O tempo não evolui as coisas, o que evolui as coisas é o livre-arbítrio. Se pegar uma pedra e a deixar parada no tempo, ela não evolui, ela é destruída. O tempo só envelhece as coisas. É a sua vontade de fazer diferente que evolui as coisas."

Jonas Masetti


É certo que o tempo, na maioria das vezes, é nosso aliado. Como diz José Luís Peixoto "o tempo transforma tudo em tempo". Mas o tempo não é um ingrediente milagroso. É necessário tempo para se adquirir uma habilidade, tempo para amadurecer, tempo para recuperar de uma perda. Mas nenhuma dessas coisas acontece por si só: é preciso, antes de mais, uma intenção, depois, acção. Por fim, é preciso persistência: intenção e acção continuadas no tempo podem levar a mudanças significativas. "Insanidade é fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes." (Einstein) Por vezes, só apetece ficar no nosso cantinho escuro à espera que as coisas melhorem, de preferência, por milagre ou, como diz o povo, "por obra e graça do Espírito Santo." E é tão fácil ficar confortável na inércia desse espaço doloroso. Sim, dói, mas não dá trabalho. E tem o aconchego da autocomiseração. Ter uma intenção diferente é, emocionalmente, exigente. Iniciar uma acção condizente com essa nova intenção é, animicamente, desafiador. É trabalhoso. Mas quem disse que crescer era fácil? Quando a minha avó fazia quilos de filhós no Natal, aconchegava bem a massa num alguidar enorme, repleto de cobertores. Antes de envolver a massa, desenhava nela, cuidadosamente, uma cruz com o dedo enquanto dizia "Deus te acrescente", e deixava a massa descansar pelo tempo necessário. Sim, o tempo ajudava, a fé também, mas antes de tudo isso, havia a intenção de fazer as filhós, a combinação dos ingredientes certos e, tão importante e essencial quanto tudo isso, uma acção forte e vigorosa sobre a massa: sovar aqueles quilos de massa era extremamente exigente fisicamente. Dava muito trabalho! Os braços ficavam doloridos. Mas era tudo isso que, combinado, fazia a massa crescer. Crescer é trabalhoso e, muitas vezes, doloroso. E o tempo? O tempo é nosso aliado, mas não nosso santo milagroso. Toca a pôr a mão na massa!

105-365

 


Hoje comemora-se o dia de Nossa Senhora de Fátima. Em criança, com a escola, fui várias vezes a Fátima, precisamente por esta altura do ano. Celebrava-se uma missa na Capelinha das Aparições e nós cantávamos no coro durante a missa. Claro que, a parte da viagem que mais gostávamos era tudo o que não fazia parte da atividade na missa: o autocarro, o almoço, o convívio no tempo livre. Já em adulta, voltei lá algumas vezes. Não me considero uma devota de Nossa Senhora, mas tenho um enorme respeito e admiração por aquele lugar. Ontem, estava a ver um vídeo em que Jay Shetty explicava que não é apenas o nosso corpo que guarda memórias, os lugares também e, por isso, ele sempre sentiu que era muito mais fácil meditar em templos de milhares de anos, em que muitos monges já haviam meditado. O lugar guarda a energia. É por isso que Fátima tem uma energia tão especial. Independentemente de qual seja a crença que temos em relação às Aparições, a verdade é que, há décadas, tantas e tantas pessoas oram ali com tamanha devoção, tantas e tantas pessoas abrem ali o seu coração, tantas e tantas pessoas expressam a sua genuína gratidão. Não interessa se é católico, se segue outra religião ou mesmo se é ateu. A energia de Fátima sente-se na pele. E, por isso, é fácil emocionar-se ali, inspirar-se. Deixe os julgamentos de lado, não deixe a mente intrometer-se e abra o seu coração ali. Pode ter insights valiosos. E, quanto mais não seja, pode deixar-se inundar por um profundo e inexplicável sentimento de gratidão.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

104-365

 


Há vários anos que dou aulas de piano. Às vezes, os alunos contam-me que tentaram ensinar um familiar ou amigo a tocar alguma música e perguntam-me como tenho paciência para ensinar. "Tentei ensinar só esta parte, mas ela não conseguia fazer!" Eu acho que um grande desafio de ensinar é colocarmo-nos no lugar do outro. Quando já conseguimos fazer alguma coisa bem, às vezes perdemos a noção de como, um dia, aquilo também foi difícil para nós, e de quais eram as nossas dificuldades concretas. (Tive um professor que dizia que a única coisa que o separava de nós, alunos, era o tempo de prática e a experiência.) Colocarmo-nos no lugar do outro significa tentar perceber quais dificuldades está a enfrentar - mesmo quando, nós mesmos, nunca passámos por nada parecido - para, então, pensar e mostrar ferramentas que possam ajudá-lo. E esse, por si só, às vezes é um desafio: entender o que o outro não percebe, ou descobrir qual dificuldade motora está a bloqueá-lo. Como em tudo na vida, sem perceber onde está o problema, não é possível resolvê-lo. Outra questão importante é que nem todos aprendem da mesma forma, e nem todas as dificuldades se resolvem com a mesma solução. Além disso, todos temos o nosso tempo (de progressão, de maturidade, etc). Na aprendizagem, vale a sabedoria popular "cada um é como cada qual". Talvez a tal "paciência" seja necessária nesse aspecto: descortinar o que aquele aluno específico precisa de nós, adaptar a nossa forma de ensinar a cada um que está a aprender. Pessoalmente, acho muito estimulante passar o conhecimento adiante. Sempre gostei de partilhar com os outros o que me toca, o que me emociona, aquilo que me enriqueceu, de alguma forma. Fico muito feliz quando um aluno se encanta com a música, quando percebe que ela é uma nova linguagem à sua disposição para se expressar de forma autêntica ou, pelo menos, para se divertir genuinamente com ela.
Acho que a única coisa que realmente é desafiante no que diz respeito à paciência é tentar ensinar e motivar, quem não está minimamente interessado em aprender. Porque para quem tem motivação, é muito fácil acontecer o diálogo da aprendizagem. O difícil é quando encontramos uma barreira, uma falta de abertura. Às vezes, dá vontade de cruzar os braços, ceder. Mas, então, lembro-me que eu já estive exatamente naquele lugar, do outro lado da barreira. E hoje estou aqui. Então, continuo a dedicar-me, a entregar o melhor que posso e a tentar encontrar formas de aceder ao melhor de quem está do outro lado. E, não raras vezes, as barreiras caem, a troca acontece, e valeu a pena! 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

103-365


Faleceu a Rita Lee, ícone da música brasileira. Desde que se soube a notícia, ontem e hoje, merecidamente, têm proliferado as homenagens à cantora. Na televisão, ouvimos vários e vários trechos dos grandes êxitos dela. E são muitos! E maravilhosos. Dei por mim a cantarolar e "a arranhar" boa parte das músicas. Então, lembrei-me que, quando eu era pequena, os meus pais costumavam ouvir o vinil dela. É daí, da minha infância, que conheço a maioria das músicas dela. Isso fez-me pensar: se eu tenho na memória, escondido, aqui em algum canto recôndito da mente, letras das músicas da Rita Lee, o que mais anda atafulhado por aqui? A nossa mente é um verdadeiro sótão, daqueles dos filmes, cheio de caixas e mais caixas empilhadas, etiquetadas com diferentes nomenclaturas (boa, má, conhecimento, inútil, etc). Algumas estão bem guardadas, organizadas, e recorremos a elas frequente e conscientemente, mas outras estão escondidas em cantos escuros, cheios de teias de aranha e, muitas vezes, nem temos noção que elas existem. Na maioria das vezes, apetece deixar tudo como está, porque dá preguiça de começar a arrumar tamanho caos, e também dá medo do que vamos encontrar ali. Mas arrumar as nossas lembranças e vivências,  é essencial para que possamos viver com mais equilíbrio. Porque aquele sótão, lá em cima, cheio de "fantasmas", assombra as decisões e reações que temos todos os dias. Todas aquelas memórias vivem e manifestam-se nas nossas reações emocionais. Nos cantos escuros do sótão, estão muitas das respostas que procuramos para o por quê somos como somos, reagimos como reagimos, acreditamos no que acreditamos. Acessar essas caixas, permite-nos decidir se o que está lá nos serve no momento presente ou não. Ninguém está condenado "a ser assim" ou  "a fazer assim" para sempre. Podemos decidir como queremos ser e fazer as coisas. Como disse a Rita Lee "um belo dia eu resolvi mudar, e fazer tudo o que eu queria fazer." Que tal começar uma reciclagem?

segunda-feira, 8 de maio de 2023

102-365

 


Há silêncios que incomodam. Silêncios que aconchegam. Há silêncios que amedrontam. Silêncios que acalentam. Há silêncios que cortam e logo são quebrados. Silêncios que envolvem e se delongam em cumplicidade.
O silêncio é terreno fértil de ideias. Dele nascem todas as grandes obras de arte. "O silêncio não é vazio, ele está cheio de respostas." (Anónimo) Mergulhar no silêncio é abrir-se a novas possibilidades.
Neste Dia Mundial do Silêncio, tente ouvi-lo um pouco. Que pensamentos surgem? Que receios? Que dúvidas? Às vezes, o silêncio pode ser tão caótico como o trânsito de uma metrópole. Barulhento, poluído, confuso. Mas se retirarmos todos os carros, buzinas, todo o ruído, o que fica? Por trás de todo o caos aparente, há sempre um lugar de repouso. Por trás do ruído da mente, há um silêncio potencialmente revelador. É preciso tempo, treino e persistência para ir além da mente limitada e aceder, realmente, a um lugar silencioso. E, nesse lugar, as respostas podem surgir. 

domingo, 7 de maio de 2023

101-365

Hoje é o dia de celebrar a nossa mãe. Independentemente de a termos perto ou longe, ou até de já nos ter deixado. Porque uma mãe está sempre connosco, faz parte de nós para sempre, nunca nos deixa realmente. Vive no amor que lhe temos, no amor com que nos nutriu (ou nutre), vive em tudo o que nos ensinou, em tudo o que nos inspirou a ser. Podemos falar todos os dias, ou só de vez em quando, ou apenas em oração: seja como for, ela está presente no que somos e fazemos, e as suas palavras ecoam em nós, reverberam muito para além da sua existência.

Hoje é dia de celebrar a nossa mãe. Quem mais nos acarinhou, acalentou, amou, mas também quem chamou a nossa atenção, quem ralhou, repreendeu. Quem elogiou os nossos acertos, e nos fez refletir nos erros. Quem sabe, melhor do que ninguém, as coisas que mais gostamos de comer, e sabe fazê-las como ninguém, mas também quem nos obrigou a comer a sopa, as verduras e a fruta, mesmo quando não nos apetecia. Quem nos colocou na cama para dormir, aconchegou, mas também nos acordou todos os dias cedo para ir para a escola. Quem nos mostrou e abriu caminhos, motivou a sonhar, mas também orientou, protegeu. Quem sempre tenta fazer e dar o seu melhor, mas também erra pelo caminho. Quem celebra as nossas conquistas, e ampara as nossas derrotas. Quem guarda o melhor pedaço da melancia, a última fatia do bolo, quem deixaria de comer, se fosse preciso, só para que nós possamos fazê-lo. Quem daria a vida por nós, mas nos deu a vida.
Obrigada, mamã, pelo carinho, dedicação, entrega, pelo amor. Obrigada pela exemplo de força, coragem, dedicação e criatividade. Admiro-te muito. Obrigada também pelas vezes que me obrigaste a acabar de comer, por me teres obrigado a estudar piano, pelas feridas que, dolorosamente, me desinfectaste, pelos valores que me passaste.
Vivo pelos teus exemplos. Se, um dia, o Mateus tiver por mim um orgulho e admiração semelhantes, serei uma mãe feliz.
Adoro-te.