Hoje fomos passear ao parque. Um dos meus lugares favoritos aqui em São Paulo. Adoro sentir o vento no rosto, contemplar as árvores, variadas, frondosas, as flores coloridas, o lago e, nesta época, as folhas de outono que vão balançando e caindo com o vento, confundindo o nosso olhar quando dançam em torno do voo das borboletas.
Hoje, parei diante de uma árvore enorme. Pensei há quantos anos estaria ali. Certamente bem mais que a minha idade e, acredito que continuará ali, bem firme depois de eu já te virado pó. Encostei a minha mão ao seu tronco. Então, observei que a minha mão e o tronco partilham uma rugosidade semelhante. Pequenos sulcos percorrem a minha mão em todas as direções, linhas que se estendem e cruzam pela minha mão formam um enorme emaranhado de pequenas, minúsculas formas. Rugas subtis vão aparecendo com o passar dos anos. Não as temo nem lamento: ajudam a contar e escrever a minha história. Também o tronco exibe sulcos que formam um enorme emaranhado semelhante ao da minha mão, como um puzzle de milhares e milhares de peças encaixadas umas nas outras. E também o tronco ajuda a contar a história da árvore. A Natureza é cheia de formas que se mimetizam. A copa das árvores é semelhante ao formato do nosso pulmão. Se observarmos uma cenoura cortada, percebemos a semelhança com o nosso olho. O formato da noz lembra o do cérebro. Imagens do espaço, da imensa rede cósmica, são idênticas às da nossa rede neural. Não será por acaso. Somos todos feitos da mesma matéria, somos todos parte de uma mesma coisa, entrelaçada nas linhas da minha mão, nos sulcos do tronco da árvore. Somos incontáveis peças minúsculas que se encaixam para formar esta enorme teia a que chamamos Vida.
O título não pretende ser um plágio mas uma vénia a esse grande livro desse grande escritor/cronista: As minhas aventuras na República Portuguesa (Miguel Esteves Cardoso). Neste humilde endereço, apenas um pouco de tudo, um pouco de nada, muito de mim.
sexta-feira, 9 de junho de 2023
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quarta-feira, 7 de junho de 2023
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Nunca sabemos qual frase ou conversa vai ficar connosco pra sempre. Algumas conversas que tive com o meu professor de piano na Faculdade, por exemplo, permanecem comigo. Em uma delas, ele falava-me sobre a intrínseca, inata e imutável necessidade que o ser humano tem de conexão. Fomos feitos para criar laços. Deu-me o exemplo dos moradores de rua. Excluídos de um convívio social, solitários, a grande maioria tem um fiel companheiro, a quem se dedica carinhosamente: um cão. Vejo isso diariamente. Moradores de rua que aconchegam o seu cão no seu colchão ou barraca, com quem dividem o cobertor e a pouca água e comida que têm, com quem brincam. A quem, visivelmente, entregam o seu amor e por quem se sentem amados.
Criar laços, dar e receber amor são, inequivocamente, necessidades básicas do ser humano. Não por acaso, nas chamadas zonas azuis - regiões em que há uma invulgar percentagem de pessoas centenárias - concluiu-se, em estudos, que um dos fatores que explica a longevidade dos seus habitantes é, precisamente, o senso de comunidade, o senso de pertencimento. Nas zonas azuis, além de as pessoas cultivarem hábitos saudáveis, como alimentação balanceada, exercício físico, boa rotina de sono, o grande diferencial é a comunidade: as pessoas estabelecem relações profundas de amizade entre si. Sentem-se amparadas e acolhidas. Têm com quem chorar e com quem rir. A vida é partilhada e ganha um novo sentido nessa partilha. Além disso, nessas comunidades, todos contribuem de alguma forma, todos se sentem parte de uma coisa maior. Isso também é essencial porque o ser humano encontra propósito. E o nosso propósito maior é servir. Pense bem: quando é que se sente mais realizado? Quando sente que, de alguma forma, contribuiu. E não é preciso ser uma contribuição extraordinária como descobrir a cura de uma doença, fazer voluntariado em um país mais desfavorecido ou doar uma enorme quantia de dinheiro para alguma instituição de caridade. Pode ser em gestos simples: preparou, carinhosamente, a refeição da família. Separou o lixo para a reciclagem. Partilhou um vídeo, um livro, um filme que vai ajudar ou inspirar outra pessoa. Foi gentil com alguém. Doou o seu tempo a alguém. Realizou o seu trabalho da melhor forma possível. Procura aprimorar-se, evoluir, ser "a mudança que quer ver no mundo" (Gandhi) e educar os seus filhos de forma a inspirá-los a fazer o mesmo. Pequenos gestos, por vezes, são uma enorme contribuição para quem nos rodeia. Nunca sabemos a diferença que uma simples palavra ou conversa pode fazer na vida de outra pessoa. O quanto vai reverberar no futuro. Ou um singelo sorriso - pode mudar o rumo de um dia! Numa sociedade aparentemente cada vez mais capitalista em que impera o egoísmo, ganância, egocentrismo, e o "cada um por si", ainda há muita, muita gente que, felizmente, cultiva outros valores. De acordo com a bonita filosofia Ubuntu "eu sou porque nós somos". Neste imenso mecanismo que é a Humanidade, somos todos pequenas engrenagens. Não há real separação entre nós, por isso, as ações de uns, refletem-se nos noutros. E o que mais nos torna humanos é as conexões que fazemos. O que mais nos preenche é a realização de servir aos outros. O que mais nos fortalece é seguir juntos. "Se quer ir rápido, vá sozinho; se quer ir longe, vá acompanhado." (Provérbio africano). (Talvez por isso, os habitantes das zonas azuis, cheguem "tão longe").
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sábado, 3 de junho de 2023
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Quando estamos a atravessar uma fase complicada seja por que razão for (saúde, trabalho, relacionamentos, dinheiro), é fácil deixar a mente escapar para pensamentos derrotistas, negativos. Esse tipo de pensamentos gera em nós emoções de baixa vibração como medo, ansiedade, raiva, tristeza. Quanto mais vibramos nessas emoções, mais o nosso corpo responde com a produção de hormónios (cortisol, adrenalina) que reforçam a nossa sensação de stress, ansiedade ou mesmo depressão, e menos produz hormónios que nos causam sensação de bem-estar (dopamina, serotonina, ocitocina). Pensamentos geram emoções que geram sensações que perpetuam os pensamentos que geram as emoções. É comum dizer-se (e ouvir-se) nessas fases "pensa positivo!" Sim, essa é uma das saídas. Gerar novos pensamentos, mais elevados, positivos, gera, por sua vez, novas emoções. A questão é que de todos - pensamento, emoção e sensação - o pensamento é o mais subtil. Então, outra saída é começar pelo corpo, que é o mais denso e, por isso, mais fácil de perceber, aceder e manipular. O corpo, na verdade, reflete todas as nossas emoções. Pense em momentos em que sentiu medo. Como estava o seu corpo? Encolhido, recolhido, ombros para baixo, encurvados. Em momentos em que se sente confiante, feliz, o peito fica aberto, o queixo para o alto. Quando estamos tristes, choramos, quando estamos felizes sorrimos. Quando não está receptivo ao que lhe estão a dizer, cruza os braços. Quando está nervoso, sentado, mexe involuntariamente as pernas ou os dedos das mãos. Quando ouve música, o corpo reage. Quando se sente ansioso, nervoso, sente "borboletas no estômago". Quando está realmente nervoso pode até ficar com um desarranjo intestinal. Em certas situações, não é à toa que dizemos "foi como um soco no estômago." As nossas emoções não são meras vivências mentais: permeiam todo o corpo e todo o corpo armazena as suas memórias. As nossas memórias não ficam apenas guardadas em algum canto do cérebro mas, através do sistema nervoso que percorre o corpo inteiro, ficam em cada célula do corpo. Tensões no corpo, refletem, muitas vezes, tensões emocionais. Por isso, começando por desatar alguns "nós" do corpo, podemos começar a aceder à mente e emoções. Movimente-se, faça yoga, tai chi, Qigong, corrida, musculação, surf, escalada, nade, dance, pule, abane o corpo! Faça uma caminhada, sinta o vento no rosto, os cheiros, observe a Natureza, ative os seus sentidos, a sua percepção. Tudo o que colocar a energia do seu corpo em movimento é válido. Faça exercícios de respiração. A respiração é uma das formas mais imediatas e eficazes para nos conectarmos com o corpo, com as sensações. Feche os olhos, coloque as mãos sobre o peito e respire. Tente reproduzir algum momento marcante pelo qual seja muito grato. Não pense apenas, mas sinta, sinta no corpo a sensação de gratidão. Procure as sensações no peito, na barriga, nas extremidades. Elas estão aí, nas células do seu corpo. Sinta-as e coloque tudo em movimento: sensações, emoções e pensamentos. Quando se aperceber, estará a pensar de outra forma, a nutrir outras emoções e sensações. Não desista! O seu corpo sabe as respostas. Aprenda a fazer as perguntas.
sexta-feira, 2 de junho de 2023
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Uma coisa que tenho aprendido nos últimos anos com o yoga e outras práticas como meditação e breathwork, é o quanto a nossa mente e corpo têm uma forte conexão. Um permeia o outro, reflete o estado do outro, são totalmente interligados, entrelaçados. Intelectualmente, talvez isto não seja novidade para ninguém. Talvez pareça ser uma coisa óbvia. O problema é que cada vez estamos mais desconectados do nosso corpo. E cada vez mais queremos entreter a nossa mente em todas as horas do dia. Então, embora esta ligação exista, não paramos, durante o nosso dia, para a perceber, para a conhecer, para lhe dar atenção, para a explorar a nosso favor. Quantas vezes no dia percebe a sua respiração? Sim, estava a respirar até agora e só agora que leu isto é que percebeu o ar a entrar e a sair das narinas, talvez os movimentos da barriga ou do peito. Fique à vontade, pode parar uns segundos para ver como está a sua respiração. Curta? Mais alongada? Tem pequenas pausas entre a inspiração e a expiração? E agora que parou estes momentos para sentir a respiração, será que se apercebeu de alguma tensão no corpo? Como está o seu pescoço, os seus ombros, os músculos da face, testa, maxilar? Talvez tenha sentido alguma espécie de formigamento nas mãos ou nos pés. Ou talvez alguma outra região do corpo tenha chamado a sua atenção. Agora que prestou atenção à sua respiração, ao seu corpo, o que aconteceu com a sua mente? Talvez aquela preocupação que estava na sua cabeça tenha dado uma trégua? Talvez aqueles pensamentos que andavam aí em loop tenham perdido, por momentos, a força. Ou talvez nem tenha conseguido prestar atenção ao seu corpo porque a mente se intrometeu.
A respiração é uma coisa fascinante. Já na Bíblia encontramos "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente." É a primeira coisa que fazemos quando nascemos e a última coisa que faremos na vida. A vida começa com uma inspiração e acaba com uma exalação. Entre uma e outra, acontece incontáveis e incessantes vezes na nossa vida. Através dela, as nossas células obtém a energia necessária para funcionar e se reproduzir. Através dela, descartamos o CO2 de que não precisamos. (E através desse CO2, as plantas conseguem fazer a sua fotossíntese! Então a nossa respiração não apenas está ligada ao nosso corpo mas ao de outros seres vivos.) Acontece involuntariamente. E adapta-se involuntariamente: em esforço físico, precisamos de mais oxigénio, então respiramos mais vezes e de forma mais curta. Em repouso, fica mais alongada. Quando estamos stressados, assustados, angustiados também fica mais curta, irregular. Em certos momentos, suspiramos. Mas a respiração também pode acontecer conscientemente: podemos respirar fundo, respirar de forma ofegante, inspirar e expirar na velocidade que decidirmos, até suster a respiração por alguns segundos ou minutos. A respiração consciente permite-nos prestar atenção ao nosso corpo, às nossas sensações e, dessa forma, retirar a nossa atenção da mente. Não é possível contar inspirações e expirações, colocar o foco no que está a acontecer no corpo, onde estão as tensões, onde formiga, etc, e, ao mesmo tempo, estar a pensar no trabalho que tem para fazer ou na conta para pagar ou na louça para lavar. Então, a respiração consciente, concede-nos uma pausa do burburinho interno. Ao mesmo tempo, pelo facto de mexermos no ritmo na respiração, vamos produzir efeitos químicos no nosso corpo que podem conduzir a nossa mente a um estado mais relaxado, por exemplo. Quando respiramos fundo, o nosso corpo deixa de produzir tantos hormónios "do stress" (cortisol, adrenalina) o que envia um sinal ao cérebro de que está tudo bem, não estamos em perigo. A mente pode sossegar. Comece a usar a respiração a seu favor, o corpo a seu favor. Perceba as tensões que ele carrega, respire fundo nelas, use a exalação como forma de "deitar fora" o que não lhe serve. Inspire vida, energia, amor, expire mágoas, cansaços, preocupações. Conduza a sua respiração para que ela o leve a lugares melhores.
quinta-feira, 1 de junho de 2023
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Por vezes não temos noção do quanto as nossas crenças nos condicionam. Às vezes, a diferença entre conseguir ou não conseguir está no nosso "mindset". É famosa a história do recorde mundial da milha: até Roger Bannister bater o recorde de correr a milha em menos de 4 minutos, achava-se que o corpo humano não poderia aguentar esse esforço. Médicos e cientistas acreditavam que, se alguém tentasse, morreria. No mês seguinte a Bannister bater o recorde, o recorde foi novamente batido por outro corredor e, nos 3 anos seguintes, caiu mais 15 vezes! O que mudou? A crença. Quando se percebeu que era possível, quando se passou a acreditar que se podia, aconteceu sucessivas vezes. Moscas podem voar a alturas elevadas. Mas, quando as prendemos em um recipiente fechado por um tempo e as libertamos depois, não mais voam acima da altura em que ficaram condicionadas a voar. O que mudou? A crença daquilo que são capazes de fazer, a crença do que é possível. Quantas pessoas tiveram remissões ou curas consideradas milagrosas pelos médicos e pela ciência? Apenas porque escolheram acreditar que a cura era possível, escolheram descartar a crença de que não havia mais nada a fazer.
Acredite no poder de acreditar. A sua crença pode ser o seu único obstáculo, a única coisa que o impede de atingir o seu objetivo. Escolha as suas crenças cuidadosa e criteriosamente. Mantenha apenas as que o elevam. Analise quais correspondem, verdadeiramente, a uma escolha sua e descarte todas as outras que, ao invés, resultam de influências externas - o que os pais/avós acreditam, a opinião dos professores, o que os amigos disseram, o que a comunicações social dissemina. As crenças são demasiado poderosas e determinantes para que concedemos esse poder a alguém mais que nós mesmos. Exerça a sua escolha.







