domingo, 10 de setembro de 2023

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 Um dia destes, vi um sabiá pousado num ramo de uma árvore a cantar. Bico apontado para cima, peito a inflar, e o canto, tenazmente, a sobrepôr-se ao ruído do trânsito de São Paulo. Olhei em volta para ver se era seguro pegar no telemóvel, e tentei filmá-lo. Ao observá-lo através do ecrã do telemóvel, perdi-o de vista.

Ontem estava a filmar a minha mão no piano para gravar uma melodia que estava a pairar na minha mente. Ao ver a minha mão através do ecrã, fiquei um pouco desorientada, com uma noção distorcida do teclado.
Será que, muitas vezes, não andamos a perder coisas importantes de vista ou a ver coisas distorcidas porque estamos a olhar para a realidade através de um pequeno e limitado ponto de vista? O que poderemos perceber à nossa volta se sairmos da "caixa" e alargarmos os horizontes? Fica a reflexão.

166-365

 



Gosto desta árvore. Sempre que passo por ela, sinto que ela está vestida a rigor para cumprimentar quem por ela passa. Elegante e vistosa. Há semanas que andamos a cumprimentar-nos. Ela acena-me ao sabor do vento, e eu paro e reverencio-a. Nenhuma fotografia minha lhe faz jus. Não se nota a sua nobreza, graça e beleza. Não se vêem os seus quase passos de dança, graciosos, ora subtis ora vigorosos, e em que algumas folhas se soltam esvoaçantes a rodopiar pelo ar como uma talentosa patinadora a rodopiar no gelo. E pensar que, enquanto eu a contemplo e ela me acena, entre nós há uma colaboração vital em que eu recebo o seu oxigénio e ela acolhe o meu dióxido de carbono? Deleito-me a observá-la e deleito-me nesta constatação de que há muito mais na vida para além daquilo que está ao alcance dos nossos sentidos. 

165-365

 


Há uma flor de que gosto muito aqui em São Paulo. Não sei se existe em Portugal, não me recordo de a ver por lá. Coroa-de-Cristo. Durante o ano, há épocas em que ela é um emaranhado de espinhos retorcidos mas, em outras, enche-se de folhas verdes e flores que passeiam entre o vermelho e o rosa. Essas flores de pequenas e delicadas pétalas relembram-me sempre que, por mais inóspito que seja o ambiente, é possível nascer algo belo. Por mais espinhoso que esteja o caminho, vamos encontrar flores. E temos sempre uma escolha: focar a nossa atenção nos espinhos que nos amedrontam, magoam ou deixam paralisados, ou contemplar a beleza singela das flores.
Nem tudo são flores mas, seja onde for, há sempre algo que pode florir.

164-365

 Sempre aprendemos com os nossos alunos também. Ensinar é uma troca. Se eu pretendo que os meus alunos absorvam o que estou a transmitir, primeiro, tenho que perceber quem está do outro lado. Nem todos aprendem da mesma forma, nem todos têm o mesmo grau de abertura, a mesma maturidade ou o mesmo nível de entendimento. Ensinar envolve questionamentos e, com o passar dos anos, tenho vindo a perceber cada vez mais que a principal questão não é como eu posso ensinar, mas sim como o aluno pode aprender? Não há fórmulas mágicas, receitas infalíveis ou formatos pré-estabelecidos que se encaixam em qualquer pessoa. Por ser uma troca, ensinar é dinâmico. Ao mesmo tempo, nessa troca, aprendemos sobre nós mesmos. Exercitamos a nossa paciência, imaginação e, principalmente, empatia. Pensar através do que o aluno expressa e tentar entender através do olhar dele a sua dúvida, ajuda a resolver muitos problemas que vão surgindo na aprendizagem. Ao ensinar, também temos a oportunidade de conhecer outras maneiras de pensar, de ver o mundo. Eu tenho alunos dos 6 aos 73 anos de idade, então tenho a oportunidade de revisitar o mundo através do olhar puro e autêntico de uma criança e de aprender através do olhar de quem já viveu mais do que eu. Ambas as formas de ver o mundo são inspiradoras e, de alguma forma, têm pontos em comum, como se um ciclo se fechasse. A criança pequena não está preocupada com o que pensam dela ou não, e encanta-se com o mundo que a rodeia. Vive cada dia com intensidade, e as coisas simples são valiosas e estimulantes para ela. A pessoa mais experiente já deixou de se importar com o que pensam dela. Percebeu que a grande beleza da vida está na autenticidade, nas coisas simples e, por isso, olha o mundo ao seu redor com encanto e gratidão e quer viver cada dia com intensidade. No meio do caminho, quantas vezes andamos a perder o nosso precioso tempo e a gastar energia com coisas que não são tão importantes assim?

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 Uma das frases que mais ouvíamos nos treinos de ginástica era "têm que ter espírito de sacrifício." Ouvíamos isso enquanto fazíamos dezenas de abdominais, flexões, enquanto corríamos em sprints sucessivos ou subíamos escadas vez após vez, ou enquanto as nossas pernas e costas eram levadas ao limite da sua extensão. Quem vê o resultado final numa prova de ginástica, talvez não imagine o esforço, dedicação, entrega e, sim, sacrifício envolvidos naquele momento belo e harmonioso. Há muita dor envolvida. Se quero ser flexível, tenho de aceitar a dor do caminho até lá chegar. Mas suportamos porque sabemos que isso serve um propósito maior. Abdicamos de comer aquele doce, porque ter o corpo na melhor forma, é mais importante do que o prazer de comer. Eu cresci nesse entendimento: que é preciso entrega e disciplina para se alcançar os objetivos. Que é preciso trabalhar para, talvez, ter os resultados. Treinamos para ser o mais precisos possível, mas ninguém está isento de falhar. Há sempre imprevistos, imponderáveis. O resultado nunca é garantido. Talvez por isso, eu sinta tanta afinidade com o universo do yoga. No yoga, a disciplina também é um pilar essencial. O esforço continuado, a repetição. E também a rendição, aceitar as coisas como elas são, que não temos o controle sobre todas as coisas, sobre o resultado que vamos obter. Temos, sim, controle sobre as nossas escolhas e ações. Se sabemos onde queremos chegar, se sabemos aquilo de que estamos à procura, não cedemos a distrações, não perdemos tempo, não nos prejudicamos a nós mesmos. Seguimos em frente, abdicando do que for necessário, com "espírito de sacrifício" que em nada nos pesa, porque é ele que vai abrindo o caminho. O amor é maior que qualquer dor. E é ele que nos alimenta. Não nos aprisiona: liberta-nos.

162-365

 






Eu sei, já falei sobre isto, já escrevi sobre isto, até mais do que uma vez. Mas vou fazê-lo novamente. Os ipês amarelos e brancos estão a florir em São Paulo! Sim, é o ciclo da natureza a repetir-se, de forma idêntica, a cada ano. Aparentemente, não seria um evento extraordinário. Mas a cada ano, a florada do ipê é única e especial. Na minha opinião, é o momento em que a cidade fica mais bonita, com cores às quais é impossível ficar indiferente em cada canto da cidade. É a hora de caminhar pela rua com olhar atento e deixar-se deleitar na beleza com a qual a natureza nos presenteia. Se estivermos abertos a isso, é um Acontecimento. Uma oportunidade de contemplação e encantamento. Para mim, um absoluto privilégio ao qual me rendo todos os anos.


161-365

 


O sabiá (re)começou a cantar! Ouvi-o ontem de manhã pela primeira vez, e hoje acordámos bem cedo com ele. Nesta época do ano, o macho canta para atrair a fémea e, ao mesmo tempo, marcar território afastando os outros machos. Habitualmente, escolhia o amanhecer para cantar mas, como a cidade está cada vez mais barulhenta durante o dia, nos últimos anos tem-se percebido uma mudança nos hábitos do sabiá. Não raras vezes acordamos em plena madrugada com o canto dele. O sabiá não é uma ave particularmente bonita. Em aparência perde claramente para o bem-te-vi que é uma ave de belíssimas cores, mas o canto é melodioso como o de poucos. O canto do sabiá foi uma das primeiras coisas que me cativou em São Paulo. No meio desta selva de pedra, de prédios, cimento, cinza, aquelas notas musicais a ecoar na cidade começaram a chamar a minha atenção. Ao caminhar pela cidade, comecei a tirar o foco das coisas que eu achava feias na cidade - desculpem-me os paulistanos - e a prestar atenção ao que ouvia. Comecei a perceber a quantidade de árvores pelas quais passava, e cada vez que ouvia o sabiá era literalmente música para os meus ouvidos. E o bichinho é pequeno mas atinge consideráveis decibéis! No silêncio da madrugada, a sensação é de que ele está no pé da nossa cama a cantar para nós! O meu marido, que tem sono leve, chega a irritar-se com a ave que lhe rouba o sono às 3h da manhã. Eu não consigo ter raiva do sabiá: para sempre terei carinho por ele que me mostrou que São Paulo não era toda cinza mas tem belezas escondidas à espera de serem descobertas.


(Neste vídeo, uma colaboração espontânea entre o sabiá e a minha música ao piano - desculpem os ruídos das teclas.)