quinta-feira, 16 de novembro de 2023

189-365

 O calor em São Paulo está difícil de suportar. Andar na rua tornou-se uma tarefa física e mentalmente exigente. Custa a respirar, o sol queima a pele. O desgaste é grande. A vontade é parar. Mas é preciso continuar, um passo atrás do outro. Se nos mantivermos absolutamente concentrados no ar a entrar e sair das narinas, é mais fácil manter o controle. A respiração mantém-nos conectados com o corpo, e isso ajuda a apaziguar a mente. Se as nuvens encobrem o sol, sentimos como uma benção. Quando a rua está na sombra, aproveitamos para ganhar ânimo. Se corre uma brisa fresca, sorrimos. Sabemos que, em algum momento do dia, o calor vai dar uma trégua, e isso, só por si, é um conforto.

Que possamos enfrentar as dificuldades da vida com a mesma resiliência. Um passo atrás do outro, uma inspiração e exalação atrás da outra, percebendo e aproveitando as sombras e brisas que surgem no caminho, e sabendo que, em algum momento, tudo vai passar.

188-365

Quando era pequena, na minha turma da escola havia outras Joanas. Para diferenciar das outras, passei a ser a Joana Gabriela. Não era um nome que me agradasse muito. Não sei porquê, mas até certa idade, embirrava com o nome "Gabriela". Quando entrei para a ginástica, passei a ser "Joana Alves". Então, dos 6 aos 14 anos, eu era Joana Gabriela na escola e Joana Alves na ginástica. Quando entrei para a Faculdade de Direito, já tinha feito as pazes com o meu "Gabriela" e quando entrei para a equipa de futsal feminino, e escolhi "Gabi" para ter nas costas da camisola. A partir daí, durante aqueles 4 anos de Direito, toda a gente me chamava Gabi. Algumas pessoas chamam-me, carinhosamente, Joaninha. Na Escola Superior de Música de Lisboa era simplesmente Joana. Quando casei, em algumas ocasiões passei a ser chamada "Joana Rezende", e quando me mudei para o Brasil, algumas pessoas aqui começaram a chamar-me "Jô". Para o meu irmão, sempre fui a "mana" ou a "maninha". Para os meus pais sou "filhota", e para o Mateus, tornei-me a "mamãe".

Todos nós vestimos muitas "peles" na interação com os outros. Talvez cada um desses nomes pelos quais sou chamada, se dirija a recantos específicos de mim mesma ou corresponda a certos espectros meus. Mas há alguma coisa que permeia todos os nomes, uma Luz que ilumina todos esses cantos, que percorre e dá vida a cada uma dessas camadas. Cada uma delas é tecida pelo mesmo fio. Aquele pedacinho inviolável, intocável, eterno que responde à pergunta mais essencial de todas: quem sou eu? Essa é a pergunta mais premente, a que nos faz atravessar todas as camadas e vislumbrar o que está para além delas. E essa deve ser a nossa eterna busca.

187-365

 





Às vezes, ao caminhar pela cidade, sou surpreendida por detalhes absolutamente perfeitos da Natureza. Contemplo e acolho cada um como se se tratasse de um presente especial. Se tenho alguns minutos, deleito-me naquele momento. Eu e aquela flor nunca mais vamos ter a mesma interação. Mesmo que eu passe no mesmo lugar no dia seguinte, já não é a mesma flor, não é a mesma luz, o mesmo vento, não é o mesmo momento. Talvez nem eu seja a mesma. Em dias diferentes, o meu olhar é diferente. Sempre novo. As sensações são outras. A Natureza relembra-nos que tudo é cíclico, tudo é perene e, ao mesmo tempo, tudo é único, irrepetível. A Natureza relembra-nos que tudo é perfeito exatamente como é, tudo segue uma Ordem que escapa ao nosso entendimento. Testemunhar a beleza única desta flor, faz-me comungar com ela dessa perfeição. Contemplo-a e penso "como poderia esta flor ser mais bela e perfeita do que já é?" Não imagino nada, nem uma pequena pinta que pudesse torná-la mais perfeita. Sinto como se o Divino me sorrisse através dela, como se, carinhosamente, me dissesse "estou aqui, nunca te esqueças disso." E perante este milagre, daquela flor incrivelmente perfeita, a balançar levemente com o vento, eu sei e sinto-O: ele está ali, nela, aqui, em mim, e no espaço entre nós. E, então, eu sorrio de volta. "Estás aqui, nunca me esqueço de me relembrar disso."

186-365

 "Estica a ponta do pé", "joelhos esticados", "barriga para dentro", "atenção aos dedos da mão", "esse dó um pouco mais, e o ré seguinte um pouco menos", "sincroniza melhor as notas do acorde", "rigor no andamento". Desde pequena, envolvi-me em atividades que primam por uma busca minuciosa da perfeição. Na ginástica artística, qualquer pequeno desequilíbrio, desalinhamento no corpo, imperfeição na posição de pés, pernas ou mãos, prejudica a beleza estética dos movimentos (e significa décimos a menos na nota final). Na música, há uma constante busca por moldar o som da melhor forma possível. Todo e qualquer detalhe faz diferença na forma como se fraseia. Há passagens em que cada nota é milimetricamente planeada para que, no resultado final, todas se encaixem de forma a que consigamos atingir a expressão mais verdadeira possível. Em ambas as atividades, há uma enorme exigência de esforço, empenho, dedicação. Há um "querer fazer" sempre mais, sempre melhor. É preciso tempo para aprender os movimentos, para os entender, paciência para os dominar, para se apropriar deles, para que sejam "nossos", e investigação para optimizá-los o mais possível. É essencial ter uma intenção firme, uma construção mental de onde se quer chegar. É preciso acreditar que é possível chegar lá. Depois de todo o trabalho feito, de cada gesto estruturado, organizado, depois de perseverantes e contínuas repetições, é necessário confiar no trabalho feito, e entregá-lo, entregando-se ao momento. A disciplina e o trabalho têm que ser feitos com tal minúcia que nos permitem esquecê-los, ir além da técnica e chegar nas sensações. É preciso trabalhar até que o trabalho se torne "invisível". Depois do trabalho feito, é preciso desprender-se desse labor e abrir-se à possibilidade de tudo o que pode acontecer. É aí que a magia acontece. Quando já não há um querer fazer, mas apenas um Ser. Quando se vai além do gesto, porque ele está em nós, além da técnica porque a executamos sem a perceber, e podemos, camada a camada, transbordar naquele momento. Mergulhamos nele, ele atravessa-nos e preenche-nos ao mesmo tempo que é preenchido por nós. E depois? Começamos tudo outra vez, com o mesmo empenho, zelo e desprendimento. Nunca sabemos onde o caminho nos vai levar.

185-365




Quando não nos exercitamos há um tempo ou quando aumentamos a intensidade dos exercícios que fazemos, sentimos o corpo dolorido. Não raras vezes, apercebemo-nos de músculos que, até então, estavam desconhecidos para nós. A nossa atenção é direcionada para aqueles centímetros quadrados muito específicos da perna, por exemplo. E pensamos "Esse músculo sempre esteve aqui? Eu já o utilizei antes?" E, assim, ganhamos mais consciência corporal. Apropriamo-nos do nosso corpo. Acordamo-lo, aos poucos, utilizando cada vez mais o seu potencial. Por que não fazer o mesmo em relação às nossas emoções, crenças, medos? Olhar para dentro, exercitar tudo o que vai cá dentro, pode ser bem mais doloroso do que mexer o corpo. Assim como nos apercebemos dos músculos até então desconhecidos, mergulhando dentro de nós, podemos descobrir emoções que teimamos em manter escondidas. Olhá-las, pode provocar desconforto, até fazer-nos (re)viver algumas dores, mas é a única forma de realmente lidar com elas. Olhar, com curiosidade, abertura, entrega, é a única forma de as compreendermos, pois "é na dor que está a cura da dor." (Rumi) (Ou, em outras palavras, "a Verdade te libertará.")

184-365

 


Ao estudar yoga, percebo conexões inegáveis com a música. Desde logo na definição de yoga que Patanjali nos traz no começo do seu tratado Yogasūtra: "o Yoga é acessar a mente coração através da estabilização dos movimentos
da mente." (Tradução do Professor Caio Corrêa) Ou seja, mantendo uma qualidade da mente de completa entrega ao momento presente, atingimos um estado de yoga em que acessamos aquele lugarzinho especial de nós mesmos que identificamos como a nossa essência - e, comumente, se intui morar no nosso coração. Em raras ocasiões pude sentir-me tão perto desta definição como sentada a tocar piano. Quando superamos as questões técnicas e a mente fica tão focada naquele momento, conseguimos entregar-nos completamente a cada nota tocada, de tal forma que as notas deixam de existir: passamos a Ser cada nota tocada, e cada nota tocada é um pouco de nós. Estamos em cada uma delas, e cada uma delas toca-nos na nossa mais profunda essência. O que será isso se não samadhi? - tornar-se idêntico à sua essência. E esses momentos acontecem após um caminho. O caminho do yoga. Um caminho de muita disciplina, empenho, esforço continuado e persistente, mas feito com cuidado, zelo. Não pode ser um estudo automático, distraído, mas um estudo consciente, atento a cada som, a cada gesto, com devoção e amorosidade tentando perceber a cada momento qual a melhor solução possível para aquela situação. Aprender os gestos, as técnicas, para depois poder deixar a mente tão focada em um ponto só que tudo isso se desvanece. Não estudamos por obrigação, mas por devoção à Música, à Beleza, a algo maior que nós mesmos e que conseguimos acessar ali. Teremos obstáculos: a mente dispersa, outras vezes está mais letárgica, preguiçosa e outras entra em "piloto automático", num estudo incipiente e mecânico, sem conexão. Por vezes, a memória de um erro anterior, precipita um novo erro. Teremos medo, hesitações, dúvidas, desânimo e, outras vezes, excesso de confiança. Depois do trabalho feito, do empenho, é essencial não se prender ao desejo de um resultado final e nem sequer a qualquer resultado final que se obtenha, porque a única coisa que está sobre o nosso controle é a nossa ação, mas não o resultado dela. Entregar-se! Um momento após o outro. Pular de braços abertos no escuro: não há o que temer! Quanto mais mergulhamos, seja qual for o resultado, mais poderemos acessar quem realmente somos, em essência, mesmo que em breves vislumbres. Aos poucos, vamos cada vez mais reconhecendo-nos como nós próprios. E assim seguimos: no caminho. 

183-365

Com o passar do tempo, percebemos cada vez mais, o valor do tempo que passa. Queremos aproveitá-lo o melhor possível. Não queremos desperdiçá-lo com coisas que achamos que não valem a pena. Por isso, cada vez que escolho ver um filme ou uma série, fico realmente frustrada quando chego ao fim e penso "não acredito que perdi o meu tempo a ver isto..." Felizmente, não foi o caso ontem ao ver o filme "um lindo dia na vizinhança" (netflix), com o Tom Hanks. Só por si, ver o Tom Hanks a atuar já é um enorme prazer e privilégio. Neste filme, mais uma vez, ele esbanja talento e carisma.

O filme é uma história biográfica do apresentador de televisão Fred Rogers, famoso nos Estados Unidos da América pelos seus programas para o público infanto-juvenil. O jornalista Lloyd Vogel é escolhido para escrever o perfil do apresentador para a revista em que trabalha. Ao conhecer o apresentador, a sua vida começa a mudar e, ao longo da história, os dois constroem uma bonita amizade. Rogers é um homem encantador, gentil, e de uma sabedoria inspiradora. Uma das mensagens mais bonitas que nos transmite é que não temos de evitar ou esconder as emoções, mas sim aprender a reconhecê-las e a encontrar ferramentas que nos ajudem a lidar com elas. Um dos exemplos de formas de lidar com a raiva que ele dá? "Apertar todas as teclas graves do piano ao mesmo tempo" - essa, eu conheci muito bem durante anos!
O filme tem uma arte muito bonita, em que mistura imagens dos programas de Rogers com imagens de maquetes dos cenários onde a história se desenrola. Tudo muito sensível, singelo. Há um minuto do filme, em particular, uma sequência de 60 segundos, que já faria todo o filme valer a pena. Tenho a certeza que toda a gente que vê este filme, mergulha naquele "1 minuto" junto com os personagens e emociona-se tanto quanto eles.
Rogers é-nos apresentado como uma pessoa absolutamente incrível, admirável. Gentil, calmo, compreensivo, altruisticamente generoso, com um senso muito grande de servir aos outros, de saber ouvir o outro.. Em alguns momentos, parece... perfeito, um santo. Mas o detalhe do final do filme, mostra-nos que ele, apesar de ser aquela pessoa encantadora e tranquila é tão humano como todos nós. Talvez tenha, apenas, mergulhado e abraçado a sua natureza humana de uma forma tão profunda que aprendeu a navegar nela com serenidade, apesar de qualquer intempérie. Foi esse o  caminho que inspirou o jornalista Vogel e, com certeza, todos os que assistirem o filme.