Quem nunca presenciou (ou protagonizou) o célebre "mas eu quero!.." de uma criança pequena? Talvez por ser época do Natal ou, simplesmente, porque tenho refletido um pouco sobre este assunto e, por isso, estou mais atenta a ele, tenho presenciado vários pela cidade. O "mas eu quero" começa subtil...A criança vê alguma coisa que se torna objeto do seu desejo, e exterioriza "mãe/pai, posso...?..." Por alguma razão que, certamente, será válida, o pai/mãe recusa. A criança insiste, entre "por favor" e súplicas de "só um" ou "só hoje". É nesse momento que o pai/mãe, entra com a fase dos argumentos. A criança até parece estar a ouvir. Os argumentos sucedem-se, lógicos, racionais, praticamente imbatíveis. A criança parece prestar atenção. Por momentos, fica em silêncio. O pai acha que venceu na conversa mas, quando termina a sua explanação, o "mas eu quero!" sobe de tom. Vem acompanhado de choro ou mesmo alguns gritos, e torna-se repetitivo, quase um mantra entre as lágrimas "mas eu quero...mas eu quero..." Não há argumento nenhum que o demova. Nem muito menos a criança entende que, por vezes, a recusa do pai/mãe é o melhor para ela. (Não comer aqueles doces antes do almoço, por exemplo, é a melhor opção...)
Fiquei a pensar quantas vezes nós, adultos, ficamos igualmente presos nesse "mas eu quero"...Perdidos em ideias fixas de coisas que achamos que nos vão fazer felizes. Irracionalmente, por vezes contra todas as evidências e argumentos, prevalece o "mas eu quero". Ficamos enredados nesse desejo que nos cega para outras possibilidades. E assim como a criança não entende que, algumas vezes, o "não" é a melhor coisa para ela, também nós temos dificuldade de perceber que, por vezes, não termos o que (achamos que) queremos, é a melhor coisa que nos pode acontecer. A diferença é que a criança, na maior parte das vezes, passado poucos minutos já esqueceu aquilo, mudou o foco e ficou feliz com outra coisa qualquer, e nós, adultos, muitas vezes ficamos estagnados a olhar para aquela porta que se fechou sem perceber que outras tantas estão abertas. Ao invés de pensar "mas eu quero", ouse questionar "mas eu preciso?" Talvez a resposta o ajude a seguir adiante, para a próxima porta aberta.O título não pretende ser um plágio mas uma vénia a esse grande livro desse grande escritor/cronista: As minhas aventuras na República Portuguesa (Miguel Esteves Cardoso). Neste humilde endereço, apenas um pouco de tudo, um pouco de nada, muito de mim.
domingo, 24 de dezembro de 2023
205-365
Ontem, durante a minha última aula do dia, a noite começou, aos poucos, a surgir no céu. A minha aluna, ao olhar pela janela, comentou "Olha só como o céu está lindo!.. Mais claro em baixo e mais escuro em cima." Ambas tiramos fotografias e contemplamos um pouco aquele azul. Eu conheço-o bem. Aquele azul vive dentro de mim, enraizado, desde aqueles fins de tarde de treino de futebol em que me preenchia por completo no Estádio Universitário em Lisboa. Sentava-me em qualquer lugar e contemplava aquele céuzão abobadado sobre a cabeça, naquele azul forte, quase metalizado. Aquele mesmo azul que eu contemplava da claraboia da casa de São Julião. Aquele azul que me acompanhava tantas vezes no regresso a casa em Lisboa, e que me tem acompanhado várias vezes aqui nas últimas semanas. Claro, nunca é exatamente o mesmo azul, é sempre um novo azul, um novo céu mas, ainda assim, é sempre "aquele azul": o que mexe cá dentro. São versos diferentes, mas sempre poesia para os meus olhos.
sábado, 16 de dezembro de 2023
204-365
Alguns professores incentivam-nos a não ouvir gravações das músicas que estamos a estudar sem antes as amadurecermos no nosso estudo. Isto porque é muito comum ficarmos presos a determinada gravação, ou mesmo presos a interpretações nossas do passado. A interpretação que escolhemos fazer deve ter por base opções nossas, daquele momento, e não "vícios de audição". Devemos procurar, investigar, refletir, olhar para aquela partitura como quem a vê pela primeira vez, e olhar para nós mesmos sem interferência de memória: é a Verdade de quem somos, agora, que deve transbordar na interpretação, e é a Verdade que encontramos naquela música, naquele momento, que devemos abraçar.
No yoga, esse movimento é a purificação da memória: para termos uma interação profunda com o objeto, - seja uma coisa, uma pessoa, uma sensação - é preciso olhá-lo com o olhar puro, sem "cargas" de interações anteriores, sem pré-conceitos, sem expectativas. Devemos estar inteiros nessa interação, com presença, para que isso se torne uma interação de quem somos com o que o objeto da nossa interação é, agora. É um exercício exigente, desafiante, mas profundamente enriquecedor: olhar para aquela pessoa, aquele objeto, naquele momento, como ele se nos apresenta ali e não através dos véus do nosso julgamento ou expectativa que toldam a nossa visão. É como regressar a um livro ou um filme anos mais tarde: nunca são os mesmos, porque nós não somos os mesmos, o nosso olhar é outro, por isso, a percepção e a interação que se criam são outras. Purificar a memória é um esforço para criar essa Abertura: permitir-se olhar com o olhar de quem nunca viu e, assim, entrar num espaço desconhecido, novo.
203-365
Hoje fiz algumas compras no mercado e depois uma caminhada até casa com as compras na mão. Uma das sacolas estava mais pesada. Caminhei alguns metros com ela na mão, e comecei a sentir cansaço. Optei, então, por encaixá-la entre o braço e o antebraço. Bem mais fácil e confortável. Caminhei uns tantos metros com ela assim, até que começou a "marcar-me" o braço. Voltei à posição inicial, procurando a posição em que conseguia manter o menor esforço possível no braço. Fui alternando de braço. Sempre à procura da posição de menor esforço muscular.
Este trajeto a carregar este peso, fez-me refletir nos pesos que carregamos na nossa vida: às vezes, fazemos esforço a mais, desnecessário, perante algum desafio. Outras vezes, não procuramos uma forma melhor de lidar com esse peso, ficamos presos a uma única forma de o carregar, por vezes, sofrida. E a verdade é que há sempre alguma forma de criar menos esforço, de descontrair alguma parte de nós para a qual não estávamos atentos. Mesmo carregando o mais difícil dos pesos, há sempre alguma coisa que podemos soltar (em nós) e tornar menos sofrido o trajeto enquanto carregamos esse peso. Por vezes, aceitar que temos que levar aquele peso connosco até um determinado lugar, é o suficiente para reduzir o esforço empregue. A resistência retrai-nos e dificulta o trajeto. A aceitação abre o caminho. E, seja como for, é preciso ter em mente que há sempre um momento de chegar ao destino, pousar o peso e, finalmente, abandoná-lo. Já Jesus dizia, sabiamente, "Por isso, não fiquem preocupados com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã trará as suas próprias preocupações. Para cada dia bastam as suas próprias dificuldades."segunda-feira, 11 de dezembro de 2023
202-365
É muito comum os alunos ficarem ansiosos quando existem pausas na música. Não raras vezes, tendem a querer "encurtar" o tempo da pausa e dar seguimento à música. Eu mesma já passei por isso. Aquele silêncio entre as notas pode, por vezes, deixar-nos inseguros, desconfortáveis. No geral, a verdade é que o silêncio tende a incomodar-nos. Qual de nós não passou já pela experiência de estar com estranhos no elevador e sentir na pele aquele silêncio quase cortante? Mas o silêncio faz, sim, parte da música e deve, sim, fazer parte da nossa vida. Uma das coisas mais belas de assistir a um concerto numa sala de concertos é, precisamente, a oportunidade de mergulhar no silêncio mágico que ali acontece: antes da música começar, entre as notas, imediatamente após a música terminar. É nesse silêncio que a música reverbera (principalmente em nós). É nesse silêncio que nos percebemos. É nesse silêncio que se cria o espaço para que a música possa acontecer. E assim é na vida: é preciso cultivar a pausa. A pausa antes de responder. A pausa antes de reagir. A pausa após a nossa reação automática. A pausa antes de comer aquele doce. A pausa antes de escolher. A pausa entre uma respiração e a outra. A pausa antes de começar a azáfama do dia. A pausa antes de terminar o dia. É nessas pausas que ampliamos o espaço para a investigação e a compreensão de nós mesmos. É a pausa que nos tira do piloto automático e pode levar-nos a melhores escolhas. "A música acontece no espaço entre as notas" (Debussy). Tão essencial quanto ouvir as notas, é aprender a ouvir os silêncios. E tão importante como as nossas ações, é aprender de onde elas vêm. "O silêncio não é vazio, é cheio de respostas."
201-365
Hoje é dia do meu maninho. E é tão fácil escrever sobre ele. O meu maninho é uma das pessoas que eu mais admiro no mundo! O seu carácter, a forma como encara a vida, o ser humano em que se tornou, e que escolhe, a cada dia, ser, enche-me de orgulho. Nunca vi o meu irmão ser desrespeitoso, desagradável com quem quer que fosse. É uma das pessoas mais serenas e centradas que conheço. Doce, carinhoso, altruísta, faz o bem a quem o rodeia. Merece toda a felicidade do mundo! E fico muito feliz de ver que ele tem encontrado e abraçado essa felicidade. Por mais que nos vejamos pouco e não falemos tanto quanto eu gostaria, tem lugar cativo e especial no meu coração. Desde que era aquele miúdo lindo que eu adorava empurrar no carrinho. Foi com aquele miúdo que eu comecei a perceber, realmente, o que era amar. Porque eu podia empurrar o carrinho até me doerem os braços, e continuar até ele adormecer. Porque eu sempre fiquei feliz só de olhar para ele e vê-lo sorrir. Porque eu sempre partilhei, de bom grado, tudo com ele. Sim, tivemos os nossos momentos de provocações e brigas lá pela adolescência, mas cinco minutos depois já estava tudo bem. Sempre fomos unidos, cúmplices. Nunca precisámos de muitas palavras. Sabemos, e isso chega. Mas hoje, faço questão de dizer, que sou muito grata por os nossos caminhos se terem cruzado, por termos crescido juntos, por ele ter sido o meu maior companheiro em todos aqueles anos. É um privilégio ser a maninha do Pedro. Que este ano te traga muitos e muitos sorrisos, maninho. Que a vida te presenteie com lindas surpresas. Em breve estarei aí a abraçar-te forte!
quinta-feira, 30 de novembro de 2023
200-365
Muitas vezes no nosso dia-a-dia, deixamos que as palavras ou atitudes dos outros influenciem o nosso estado de espírito. Quantas vezes, por exemplo, já ouvimos dizer (ou nós mesmos já pronunciamos) a frase "ele/a tira-me do sério!" Ou o contrário "ele/a faz-me bem." Tendemos a responsabilizar os outros pelo que vai cá dentro. Mas, vários professores falam sobre isto, e faz todo o sentido: não é o outro que nos tira do sério: tudo o que sentimos, tudo o que vai cá dentro, é aqui dentro que o sentimos e é aqui dentro que se origina. É como se tivéssemos dentro de nós vários cómodos. Alguns, estão às escuras, não os percebemos, a não ser quando alguma luz os ilumina. A questão é que não é essa luz de fora que os cria: ela apenas mostra que eles estão lá. Aquela raiva, amor, já existe em nós e, com determinados gatilhos, revela-se.
Cada vez que um pessoa nos diz alguma coisa, essa frase passa por vários filtros da nossa mente. Ouvimos, processamos os sons, entendemos o seu significado, e depois atribuimos-lhe um sentido que vai gerar em nós uma sensação e, possivelmente, uma emoção. O que dá peso a um gatilho é o processamento que lhe damos. A mesma coisa dita por pessoas diferentes, em contextos diferentes, tem peso e conotação completamente diferente para nós. Por exemplo, a simples frase "Olá, querida", se a ouvir de alguém que ama, soa carinhosa, amorosa. Se a ouvir de alguém com quem não tem uma boa relação, pode soar-lhe irónica, provocativa. Se estiver a caminhar na rua e alguma pessoa desconhecida lhe gritar "odeio-te!", isso, provavelmente, vai deixá-lo espantado mas indiferente, neutro. Se, no meio de uma discussão com o seu filho, ele gritar "odeio-te!", isso vai magoá-lo profundamente. Se algum professor que admira lhe disser "que trabalho maravilhoso!", vai sentir uma satisfação muito maior do que se for dito por um grande amigo. Se eu tenho problemas de auto-estima, facilmente coisas que outros dizem, podem ligar holofotes nesse meu problema. Se sou autoconfiante, dificilmente irei sentir-me abalada pelas mesmas coisas. Não são os outros, não são as palavras que nos geram determinadas emoções. Não é o que é dito que dita como nos sentimos, é o que sentimos - os nossos apegos, aversões, medos, identificações - que dita como processamos o que ouvimos. Então, os gatilhos podem funcionar como sinais de alerta: há algo aqui, em mim, no qual eu tenho que trabalhar. Se é cá dentro que tudo acontece, é cá dentro que tudo se pode resolver. E a melhor notícia: só depende de nós. É a velha máxima: "A felicidade é um trabalho interno." (Só é preciso coragem para o abraçar...)



