Eu tive uma Barbie. Uma Barbie, um Ken e uma Skipper. Os meus pais e o meu avô construíram, em madeira, uma verdadeira mansão para eles, quase da minha altura, com vários cómodos mobiliados e ofereceram-me como presente de Natal. Eu era apaixonada por ginástica, por isso as minhas Barbie e Skipper eram ginastas e um dos cómodos da casa era um ginásio. Muitas vezes, eram essas as brincadeiras: treinos e competições de ginástica, porque isso era o que eu mais gostava no mundo. Passados alguns anos, deixei de brincar com elas - preferia eu mesma fazer ginástica e criar os meus campeonatos imaginários - , e acabamos por doar tudo a um orfanato.
Quando, há meses atrás, estreou o filme da Barbie, não senti especial nostalgia, nem sequer grande curiosidade de ver o filme. Honestamente, não percebi a onda de entusiasmo que se criou à volta do filme. Algumas alunas minhas que o foram ver ao cinema, vinham desanimadas "não percebi nada do filme, Joana. Não gostei..." De facto, o filme, apesar da estética cor-de-rosa, bonitinha, algo infantil, não é para crianças. E é, sim, maravilhoso. Foi uma grata surpresa para mim. Comecei a vê-lo sem qualquer expectativa, nem sabia bem qual era a temática, e foi captando a minha atenção a cada cena, a cada frase, a cada boa alusão a outros filmes (como Matrix ou 2001 Odisseia no espaço). O filme diverte mas é, acima de tudo, um convite à reflexão, não apenas a respeito da sociedade em que vivemos, do que é ser mulher mas, principalmente, do que significa ser humano. "Quem somos se esquecermos tudo aquilo que achávamos que nos definia?" Com frases inspiradoras e provocativas, e uma mensagem muito bonita, é um filme que vale a pena ver, como excelentes interpretações. (Na minha opinião, só peca por um excesso de cantoria...Algumas partes musicais, tornam-se cansativas.)O título não pretende ser um plágio mas uma vénia a esse grande livro desse grande escritor/cronista: As minhas aventuras na República Portuguesa (Miguel Esteves Cardoso). Neste humilde endereço, apenas um pouco de tudo, um pouco de nada, muito de mim.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024
Eu e a ancestralidade
Um assunto que acho fascinante é a ancestralidade que vive em nós. Não a ancestralidade das histórias da nossa família ou cultura que guardamos na memória, mas aquela que está enraizada bem mais fundo: no nosso corpo.
Há formas de reagir que são comuns a todos nós, e que têm a sua raíz lá nos nossos ancestrais caçadores-colectores. Imagine que vivia lá na floresta, e tinha que sair à procura de comida. Andava lentamente pela floresta, atento a todos os sons. Afinal, a qualquer momento, poderia deparar-se com um predador. Por isso, é natural que, a cada farfalhar de folhas, disparasse um alarme de perigo. Fomos programados para antecipar coisas negativas. Ao andar pela floresta, e ao ouvir barulhos, os nossos ancestrais não poderiam dar-se ao luxo de pensar "não é nada, está tudo bem", porque isso poderia significar a sua morte. A primeira reação era "predador". Da mesma forma, ao deparar-se com um predador, desencadeava-se todo um processo de liberação de química que nos permitia direcionar toda a energia do corpo para lutar ou fugir: a energia era retirada de funções como a imunitária - inútil defender-se de um vírus se dali a poucos segundos poderia ser comido por um animal - para se focar em, por exemplo, nutrir os músculos para correr mais rápido e exercer mais força nos golpes. É o nosso tão e cada vez mais conhecido estado de stress. Quando se sente ameaçado, o corpo passa a atuar nesse estado para garantir a sua própria sobrevivência. Passado o perigo, o corpo liberava nova química que o devolvia à homeostase. (Como, atualmente, os perigos e ameaças estão, na maioria das vezes, na nossa cabeça, o corpo não entende quando a ameaça passou, e fica a operar nesse modo SOS indevida e prejudicialmente.) Como sobreviviam os que mais tinham estas capacidades, elas foram sendo passadas adiante às gerações seguintes.Também instintos que temos, como proteger a região do umbigo quando nos assustamos ou achamos que vamos sofrer um embate...Porque essa é uma região extremamente letal do nosso corpo - não por acaso, era nesse ponto que os samurais, para salvar a sua honra, se esfaqueavam para cometer suicídio. O nosso corpo guarda memórias e sabedoria inata para as quais nem sempre temos abertura para ouvir e entender. Mas, dar passos nessa direção, pode ser profundamente libertador. Não só para nós, mas para todos aqueles para os quais, um dia, seremos os ancestrais. O que queremos passar adiante?
Eu e as luzes e sombras
E refleti como todos somos assim: feitos de luz e sombra. Ninguém é só luz. Ninguém é só sombra. É preciso olhar para dentro e acolher todas as partes de nós mesmos. Celebrar a nossa luz, e perceber como ela pode brilhar mais e, até, como ela pode ajudar a luz de outros a brilhar também. Não se envaidecer, e não se acomodar. Perceber o que a alimenta, e esforçar-se sempre para a nutrir. Perceber onde estão as nossas sombras, que arbustos estão a criá-las, e se podemos remover alguns. Não ter medo, vergonha ou sentir culpa pelas nossas sombras. Todos, todos as temos. Nem Jesus foi só luz. Ele também sentiu medo. Também hesitou. Também se desiludiu. Também se sentiu tentado, esgotado. O problema não são as sombras, mas o que escolhemos fazer com elas e o que permitimos que elas façam connosco.
Eu e Jagged Little Pill
Esta semana vi no HBO o documentário sobre o álbum "Jagged Little Pill" de Alanis Morissette. Para mim que, sem a menor hesitação, o elejo como um dos melhores álbuns de todos os tempos, adorei mergulhar nos bastidores do álbum e da sua tourné mundial. Vemos uma Alanis madura, sorridente e bem humorada, a contar a história de uma Alanis jovem, com um qué de rebeldia, que inspirou gerações de mulheres com a sua autenticidade.
Lembro-me de "Jagged Little Pill" ter ganho alguns Grammys quando mal sabíamos quem era Alanis Morissette. Creio que só após essa entrega de prémios eu comprei o CD. Em plena adolescência, fui-me apaixonando por uma música atrás da outra. Até hoje, continuo a adorar ouvi-las. Algumas são verdadeiros hinos para mim. Músicas bem escritas, poderosas, cheias de energia e com letras que nos trespassam. Logo a primeira do CD, é impossível dizer quantas vezes a ouvi! E, com o passar dos anos, ouço-a de formas diferentes. Versos diferentes reverberam cá dentro. E aquele silêncio mais para o final da música, sempre me atravessou! Assim como Ironic, You learn, Perfect, Hand in my pocket. Quantas vezes, na Faculdade de Direito, eu rabisquei nas bordas das folhas do caderno "I'm lost but I''m hopeful" ou "I'm tired but I'm working"? E como sinto na pele, a cada dia que passa desde que fui mãe "I have no concept of time other than it is flying"? E, sim, estamos sempre a aprender: You live, you learn, You love, you learn, You cry, you learnYou lose, you learn, You bleed, you learn, You scream, you learn. Mas "life has a funny way of helping you out" e "everything's gonna be fine, fine, fine".
Continua a ser uma verdadeira terapia para mim cantá-las a plenos pulmões - ou, tecnicamente, a pleno diafragma.
E o que dizer da versão acústica que Alanis fez anos mais tarde? Maravilhosa.
Para quem curtiu "Jagged Little Pill" nos anos 90, recomendo vivamente este documentário. É uma visita ao passado, à luz do presente. "You oughta know"...
Eu e o equilíbrio
Hoje fomos andar de bicicleta no parque. Num pequeno trecho, estavam a podar árvores e todos - bicicletas nos dois sentidos e pedestres - tínhamos de passar por um espaço bem mais estreito, o que nos obrigava a andar na bicicleta a uma velocidade muito reduzida, quase parados. Imediatamente, o equilíbrio começava a falhar. A única forma de continuarmos a pedalar sem colocar os pés no chão era ir equilibrando a bicicleta em leves curvas de um lado para o outro. Lembrei-me da frase atribuída a Einstein "Viver é como andar de bicicleta. É preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio." E hoje percebi que não é preciso um movimento linear e em alta velocidade: pequenos ajustes, um pouco aqui, um pouco ali, já são suficientes para nos manter equilibrados. O que é essencial é aguçar a nossa percepção, as nossas sensações: para onde a bicicleta está a pender e que pequeno gesto é necessário para a manter em movimento? Às vezes, pequenas mudanças de trajetória podem ser muito significativas no caminho que se quer percorrer. Nem todo o caminho é percorrido em linha reta e alta velocidade. Os passos lentos e pequenos também nos mantém no caminho. Valorize-os. Celebre-os. (Aqueles 10 minutos de exercício, aqueles 10 minutos de leitura, aquele dia sem comer doces, o primeiro parágrafo do trabalho, a primeira semana do curso, aquele dia sem reclamar, aquele primeiro dia sem fumar...) E, acima de tudo, repita-os. É a constância e não a velocidade que nos leva mais longe.
Eu e o Théo
Guimarães Rosa tem toda a razão: "Felicidade se acha é em horinhas de descuido." Aqui em casa, é assim mesmo: sento-me, o Théo aproxima-se, dá, pelo menos, meia volta sobre si mesmo, e deita-se, encostado a mim. Quando lhe apetece, deita a cabeça na minha perna.
Todos os dias tenho este privilégio: receber e retribuir o carinho do Théo. Li, há um tempo atrás, que os cientistas descobriram que os animais de estimação ajudam a regular o nosso sistema nervoso, e eu comprovo isso todos os dias: quando o Théo deita a cabeça dele no meu colo, eu sinto-me repousar, serenar. Como se nada mais se fizesse necessário naquele instante. Embora isso aconteça todos os dias, em todas as vezes, sinto-me grata por esses momentos de carinho, silenciosos, singelos, inestimáveis.Há cinco anos, nascia este peludinho, amado por toda a família. Temperamental, medroso, refilão, mas que transborda amor: uma verdadeira dádiva nas nossas vidas.
Eu e a louça suja
Ontem estava a lavar a louça, e uma das frigideiras tinha resquícios de frango grelhado. Detergente na bucha: esfrega a panela. O detergente começou a transformar-se em espuma. Quanto mais esfregava, mais espuma surgia e, quanto mais espuma, menos eu percebia se a sujeira ainda estava na panela. Só quando passava a frigideira por água e olhava para ela, sem a espuma, conseguia vislumbrar onde, de facto, ainda era preciso limpar. Quando parecia estar limpa, passei, cuidadosamente, os dedos, e senti que ainda havia ali pequenos pedacinhos de sujidade, imperceptíveis à vista. Esfrega mais um pouco, passa pela água, observa novamente.
E assim é na vida: é preciso olhar para os nossos defeitos, dificuldades, desafios, tal e qual como eles são, sem espuma, sem máscaras, sem disfarces. Não adianta fingir que não existem, ou tentar disfarçá-los com todo o tipo de artifício. Por trás de tudo o que parece "livrar-nos" (das partes) de nós mesmos (que não queremos encarar), os "pontos escuros" ainda vão estar lá. Só quando os encaramos, podemos realmente percebê-los, e só quando os percebemos podemos cuidar deles. E, tal como na frigideira, por vezes, não é na primeira tentativa que o conseguimos fazer. É preciso trabalhar neles, e parar para observar. Deixar a espuma sair, e ver o que fica. Às vezes não basta olhar, é preciso sentir. Contemplar, refletir, perceber o que ainda há para trabalhar. Perceber de onde vêm. Com clareza. Porque a clareza abre caminhos: "eu sou assim" ou "eu não sou assim" são limitantes, mas discernir que não "somos assim", mas "estamos assim", abre todas as possibilidades de transformação. Posso estar "assim", "senão", "apesar", "diverso". É preciso substituir "ser" por "estar" e investir onde queremos estar em seguida. E continuar. Continuar sempre. Melhorar. Melhorar sempre.(Quanto às manchas que não saem mais, por mais que se esfregue, basta conhecê-las, aceitá-las como são e não deixar que nos definam ou limitem.)
