Agradeço ao meu professor Caio Corrêa e à potência da troca que acontece no grupo inspirador e acolhedor que compõe a turma do @yogalaya_ .
Seguimos, com empenho e abertura.
O título não pretende ser um plágio mas uma vénia a esse grande livro desse grande escritor/cronista: As minhas aventuras na República Portuguesa (Miguel Esteves Cardoso). Neste humilde endereço, apenas um pouco de tudo, um pouco de nada, muito de mim.
Jacob Collier é, sem sombra de dúvidas, um dos músicos mais geniais do nosso tempo - e, atrevo-me a dizer, de todos os tempos! Não só é um excelente cantor com um timbre que vai dos graves mais profundos aos mais cristalinos falsetes, como é um exímio pianista, guitarrista, e um multi-instrumentista de todo o tipo de instrumentos. Além disso, é absolutamente admirável a sua compreensão da música, o senso de harmonia, o sentido rítmico que pulsa em tudo o que faz. As suas músicas não distraem: inspiram, espelham a sensibilidade e o quanto a música lhe corre nas veias. As versões que faz de músicas de outros cantores ou bandas são magníficas: descontruções e reconstruções que ganham uma nova cor à luz da sua imaginação prodigiosa.
E o que dizer de Jacob Collier em palco? Despojado, alegre, simples, às vezes de pé descalço, passeia pelo palco e pelos vários instrumentos como se estivesse em casa. E quando se torna o maestro do público, transformando aquela massa humana de desconhecidos, heterogénea, imensa, num gigantesco coro afinado a cantar a várias vozes, não há quem possa ficar indiferente! Milhares de pessoas, sem qualquer ensaio prévio, seguem intuitivamente os gestos de Jacob Collier, e o espaço reverbera com a música vinda de todos os cantos. As vozes fundem-se, e de forma brilhante, Jacob constrói uma narrativa com harmonias vibrantes e surpreendentes. Naqueles minutos, não existe diferença de idade, crença, nacionalidade, género, raça que prevaleça: todos são Um, e a música é a sua linguagem. Naqueles minutos, a música faz o que de melhor sabe fazer: une. Jacob Collier, ao dirigir coros nas plateias pelo mundo afora, mostra-nos a maior e mais bonita verdade da nossa existência: somos todos mais parecidos do que diferentes, somos todos parte de uma mesma coisa, e somos mais fortes quando nos unimos.
A Natureza tem colaborações tão bonitas!.. Uma delas é a das orquídeas e das árvores. Aqui em São Paulo, é muito comum ver as orquídeas entrelaçadas nas árvores. As orquídeas acomodam-se, a árvore acolhe. A orquídea beneficia-se, fortalece-se, floresce, sem prejudicar a árvore em nada. A árvore dá, desinteressadamente. Doa, sem esperar nada em troca, não teme a presença da orquídea, não a repulsa. As duas encontram uma forma de coexistir harmoniosamente juntas. E somos nós que também ganhamos: ao contemplar a árvore ainda mais embelezada, enfeitada, e as orquídeas a florescer, coloridas. Poderíamos aprender tanto com a Natureza...A presença do outro nem sempre tem de ser encarada como uma ameaça. Na diferença, algo bonito pode florescer. Na colaboração, o crescimento acontece. No entendimento, a Beleza manifesta-se. Que possamos ser mais árvore para as orquídeas que precisam de nós.
Hoje, um dos meus alunos estava com uma dor no pé. "É horrível sentir dor! Seria melhor se não existisse dor..." De facto, sentir dor é terrível, mas não poderíamos viver sem ela. A dor nada mais é do que um sinal de alerta do corpo. Como um alarme que toca cada vez que o corpo se sente ameaçado. Se não sentíssemos dor, poderíamos queimar-nos de forma irreversível, ou passar a vida a quebrar ossos, romper músculos ou tendões. É a dor que nos impede de ultrapassar os limites do nosso corpo. Também a dor emocional é um sinal de alerta de que ultrapassámos algum limite no nosso universo interno. Se nos magoa, se nos constrange, se nos amedronta, é preciso refletir em que limite esbarramos. A dor é desagradável, mas necessária e, se soubermos ouvi-la, é uma excelente professora sobre o assunto mais relevante da nossa vida: nós mesmos.
Se não chove num lugar há muito tempo, quando cai uma carga de água, é uma benção. Mas, se chove em demasia, pode ser uma tragédia de perdas humanas e materiais incalculáveis. A água limpa, mas se nos invade a casa, suja tudo. Precisamos de água para viver, mas a água também nos pode matar afogados.
Nada é, em si, bom ou mau. Tudo depende do contexto, das circunstâncias e, principalmente, do nosso julgamento. É preciso desapegar mais dos nossos julgamentos. O que é bom hoje, pode ser mau amanhã. O que é mau agora, pode conter uma benção escondida que se revela mais tarde. É preciso permanecer aberto, porque a única certeza que temos é que nada é certo, tudo está em constante mudança.