Quando temos um filho, as coisas mais banais tornam-se extraordinárias. Ficar de gatas? Balbuciar sílabas? Dizer umas palavras? Dar uns passos? Aprender a ler e escrever? Perder um dente de leite? Coisas triviais pelas quais todos passamos. E, ainda assim, que momentos especiais quando os vivemos enquanto mães/pais! Se há coisa que aprendemos com a maternidade é que cada momento é uma oportunidade: a coisa mais simples tem, em si, a semente da eternidade. A maternidade ensina-nos que não há nada mais importante que viver no momento presente, que aproveitar cada coisa do dia-a-dia. Através dos olhos de uma criança, tudo isso se torna evidente.
Ontem, o Mateus teve a visita da Fada do Dente pela primeira vez. Vi quando ela entrou sorrateiramente no quarto dele. Bem de leve, aproximou-se da cama dele. Observou-o a dormir, tranquilo. Muito cuidadosamente, levantou um pouco a almofada dele e procurou o dentinho de leite. Guardou-o numa caixinha, e deixou uma nota e uma moeda em troca. Sorriu e afastou-se. Esta manhã, o Mateus acordou-nos com um grito "Mããããe, paiiiiiiii, venham aqui!" Ai, Jesus, o que será que aconteceu? (De manhã cedo, o raciocínio é mais devagar...) Viu um bicho? Deixou escapar o xixi na cama? Quando chegamos ao pé dele tinha numa mão uma nota, na outra uma moeda, no rosto um sorrisão e nos olhos um brilho especial "Olha só o que a Fada dos Dentes me deixou!" "Que bom, filhote. Valeu a pena ter sido corajoso, não?" "Sim, eu já agradeci muito, muito à Fada!" "Parabéns, filho, temos de agradecer mesmo, todas as coisas boas que temos na vida."
No passado, um aluno meu disse-me muito triste e decepcionado "Joana, eu já sei que o Pai Natal não existe. São os nossos pais que nos compram os presentes de Natal." Disse-me isso com tristeza mas também lhe percebi uma esperança no olhar que eu fosse contrariá-lo, dizer-lhe que sim, que podia continuar a acreditar porque era verdade, sim! "Sabe", continuou ele "eu estou triste porque isso quer dizer que magia não existe. Não existem duendes nem Pai Natal, não existe magia..." "Não digas isso! Existe magia, sim. A vida está cheia de coisas mágicas!" "Ah, mas não é magia de verdade...", respondeu ele desapontado. "É, sim. É a magia das coisas que moram no nosso coração! Magia acontece, mesmo que não seja com pós de prilimpimpim. Só o facto de estarmos aqui, não é já magia? O amor não é magia?"
Eu sei que hoje de manhã houve magia aqui em casa.
O título não pretende ser um plágio mas uma vénia a esse grande livro desse grande escritor/cronista: As minhas aventuras na República Portuguesa (Miguel Esteves Cardoso). Neste humilde endereço, apenas um pouco de tudo, um pouco de nada, muito de mim.
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
domingo, 24 de julho de 2016
Eu e a alegria que contagia
Há pessoas que fazem o seu trabalho com alegria e isso faz toda a diferença. Como é desagradável depararmo-nos com aquelas pessoas que parece que nos estão a fazer um favor a servir o café ou a vender o jornal, não? Devo admitir que, embora também existam por aqui, se vêem mais desses por Lisboa do que aqui por São Paulo. Pelo contrário, como é de salutar as pessoas que fazem o seu trabalho com um sorriso, com gentileza.
Há uma cobradora de ônibus com quem me cruzo, de vez em quando, nos meus trajetos. Acho notável a forma como ela faz questão de cumprimentar todos os que ali entram. Cumprimenta, sorri, deseja boa viagem. Apanha muita gente de surpresa. Posso dizer, sem qualquer sombra de dúvida, que a atitude dela, influencia a atitude que recebe de volta: as pessoas também cumprimentam, também sorriem. Alegria gera alegria, gentileza gera gentileza. O ônibus em que aquela senhora trabalha é o mais cordial e mais sorridente de todos! Eu admiro-a. Assim como admiro o condutor de ônibus que se esforça por travar devagar, principalmente quando choveu e está tudo alagado e sabe que a travagem vai levantar um monte de água que vai molhar quem está à espera do transporte.
Há semanas atrás aconteceu um episódio que também reflete essa alegria no trabalho, seja ele qual for. Aqui em São Paulo, é comum algumas pessoas entrarem nos ônibus para tentar vender todo o tipo de coisas: chocolates, balas (rebuçados), carteiras, canetas, ou mesmo pedir uma simples esmola. Se em Lisboa era comum ouvirmos no metro "alguém tem a possibilidade de me ajudar?", aqui ouvimos o célebre "pessoal, boa tarde, desculpem estar incomodando a vossa viagem. O meu nome é tal e venho aqui pedir...(e contam parte da vida, do que os levou ali)." Há semanas atrás, entrou um desses senhores no ônibus. Tinha para vender carteiras para guardar documentos. Vendia uma por X e duas por Y. O ônibus estava relativamente vazio. Silêncio. Ouvia-se apenas a explicação do senhor. No final, novo silêncio. E um desabafo dele "puxa, essa crise está brava mesmo!.. Ninguém compra nada..." Abriu um sorriso e continuou "Ahhhh, mas eu sou brasileiro e não desisto nunca!" (frase célebre por aqui). "Vamos lá, pessoal, eu não saio daqui enquanto não vender uma...uma carteira!.."Entram mais algumas pessoas no ônibus. "Olha só uma moedinha aqui no chão." continuou ele. "Já sei, eu vou dar uma carteira a quem me der uma moeda de um centavo!* Vamos lá, mais barato que isto vocês não encontram!" As pessoas no ônibus começam a esboçar sorrisos. "Quem dá um centavo? Vamos lá, melhor que isto, só de graça, pessoal!" Mais sorrisos dos passageiros. A energia dentro daquele ônibus foi mudando...A alegria daquele senhor, as suas piadas, as tentativas de interagir com as pessoas, foram contagiando todos. O senhor parou próximo a mim. Disse-lhe: "parabéns pelo seu trabalho: você faz tudo com alegria e isso contagia as pessoas." "Ah, tem que levar com alegria mesmo, né?", respondeu-me. "Olhe, eu vou ajudar você e levar uma dessas para o meu filho. Ele adora guardar os papéis dele, os desenhos. Vou levar uma." o senhor anuncia "Olha aí a primeira, pessoal! Vendi a primeira!" Depois de mim, mais 3 ou 4 pessoas compraram. Mais gente entrou no ônibus, que ficou relativamente cheio. O senhor continuou a fazer piadas, comentários bem humorados referindo-se à crise política, à vergonha da corrupção generalizada, e toda a gente ria. No final, despediu-se "Pessoal, muito obrigado pela vossa atenção! Quem vai trabalhar: bom trabalho. Quem vai descansar: bom descanso. Quem vai estudar: estude muito, mas muuuuito mesmo, senão, um dia, vão estar que nem eu aqui, batendo canela! Estudar é tudo! Vão com Deus, pessoal!"
Saí daquele ônibus com dois reais a menos, mas com boa disposição redobrada!
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* Não existem moedas de 1 centavo.
Há uma cobradora de ônibus com quem me cruzo, de vez em quando, nos meus trajetos. Acho notável a forma como ela faz questão de cumprimentar todos os que ali entram. Cumprimenta, sorri, deseja boa viagem. Apanha muita gente de surpresa. Posso dizer, sem qualquer sombra de dúvida, que a atitude dela, influencia a atitude que recebe de volta: as pessoas também cumprimentam, também sorriem. Alegria gera alegria, gentileza gera gentileza. O ônibus em que aquela senhora trabalha é o mais cordial e mais sorridente de todos! Eu admiro-a. Assim como admiro o condutor de ônibus que se esforça por travar devagar, principalmente quando choveu e está tudo alagado e sabe que a travagem vai levantar um monte de água que vai molhar quem está à espera do transporte.
Há semanas atrás aconteceu um episódio que também reflete essa alegria no trabalho, seja ele qual for. Aqui em São Paulo, é comum algumas pessoas entrarem nos ônibus para tentar vender todo o tipo de coisas: chocolates, balas (rebuçados), carteiras, canetas, ou mesmo pedir uma simples esmola. Se em Lisboa era comum ouvirmos no metro "alguém tem a possibilidade de me ajudar?", aqui ouvimos o célebre "pessoal, boa tarde, desculpem estar incomodando a vossa viagem. O meu nome é tal e venho aqui pedir...(e contam parte da vida, do que os levou ali)." Há semanas atrás, entrou um desses senhores no ônibus. Tinha para vender carteiras para guardar documentos. Vendia uma por X e duas por Y. O ônibus estava relativamente vazio. Silêncio. Ouvia-se apenas a explicação do senhor. No final, novo silêncio. E um desabafo dele "puxa, essa crise está brava mesmo!.. Ninguém compra nada..." Abriu um sorriso e continuou "Ahhhh, mas eu sou brasileiro e não desisto nunca!" (frase célebre por aqui). "Vamos lá, pessoal, eu não saio daqui enquanto não vender uma...uma carteira!.."Entram mais algumas pessoas no ônibus. "Olha só uma moedinha aqui no chão." continuou ele. "Já sei, eu vou dar uma carteira a quem me der uma moeda de um centavo!* Vamos lá, mais barato que isto vocês não encontram!" As pessoas no ônibus começam a esboçar sorrisos. "Quem dá um centavo? Vamos lá, melhor que isto, só de graça, pessoal!" Mais sorrisos dos passageiros. A energia dentro daquele ônibus foi mudando...A alegria daquele senhor, as suas piadas, as tentativas de interagir com as pessoas, foram contagiando todos. O senhor parou próximo a mim. Disse-lhe: "parabéns pelo seu trabalho: você faz tudo com alegria e isso contagia as pessoas." "Ah, tem que levar com alegria mesmo, né?", respondeu-me. "Olhe, eu vou ajudar você e levar uma dessas para o meu filho. Ele adora guardar os papéis dele, os desenhos. Vou levar uma." o senhor anuncia "Olha aí a primeira, pessoal! Vendi a primeira!" Depois de mim, mais 3 ou 4 pessoas compraram. Mais gente entrou no ônibus, que ficou relativamente cheio. O senhor continuou a fazer piadas, comentários bem humorados referindo-se à crise política, à vergonha da corrupção generalizada, e toda a gente ria. No final, despediu-se "Pessoal, muito obrigado pela vossa atenção! Quem vai trabalhar: bom trabalho. Quem vai descansar: bom descanso. Quem vai estudar: estude muito, mas muuuuito mesmo, senão, um dia, vão estar que nem eu aqui, batendo canela! Estudar é tudo! Vão com Deus, pessoal!"
Saí daquele ônibus com dois reais a menos, mas com boa disposição redobrada!
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* Não existem moedas de 1 centavo.
terça-feira, 3 de maio de 2016
Coisas que me fizeram parar
Mais um dos bonitos contrastes de São Paulo: no meio de um bairro nobre repleto de enormes prédios, temos esta construção judaica.
Singela e sublime.
terça-feira, 22 de março de 2016
Eu e os acontecimentos das últimas semanas
Vivemos dias invulgares no Brasil. Sem entrar demasiado em todos os méritos da questão, quero apenas tocar em alguns pontos.
Todo o cidadão é considerado inocente até que se prove o contrário. Creio que ninguém põe essa máxima do estado democrático em questão. O que é questionável, parece-me, é que um cidadão sobre o qual pairam dúvidas, que está a ser investigado pelas entidades competentes para tal, que tem o seu nome envolvido em inúmeras situações dúbias, seja nomeado para um cargo público da maior importância. Será o momento mais adequado para tal? Normalmente, névoas deste género costumam gerar o efeito oposto...Não podemos também ignorar que, no caso, foi tudo feito com uma pressa inexplicável - tomada de posse antecipada em relação à data que se tinha estipulado primeiro, edição extra de diário oficial da união.
Por outro lado, acho louvável e admirável a forma como o povo brasileiro se tem manifestado nas ruas. De forma ordeira e pacífica exprimem a sua indignação e descontentamento. O que acho perigoso e lamentável é que no meio de toda esta situação, seja cada vez mais evidente o "nós e eles". A coisa tem assumido uma tal proporção que nos vemos obrigados a pensar duas vezes na cor da nossa roupa antes de sair de casa, não vão uns pensar que estamos a defender os outros. O cerne da questão é esse mesmo: o Brasil não é de uns ou outros. O Brasil é de todos. O Brasil é para todos. Não se trata aqui de uma rivalidade de tipo futebolística. O governo brasileiro, seja ele qual ou quem for, serve o interesse do povo brasileiro. Enquanto essa for a motivação dos políticos no governo, está tudo certo. A partir do momento em que a motivação de quem governa é apenas manter-se a governar, alguma coisa de errado se passa. Peço desculpa se estiver errada, mas parece-me que nas últimas semanas a única coisa que o governo faz é tentar manter-se de pé. Pelo Brasil pouco ou nada tem sido feito. A senhora Dilma parece profundamente comprometida em ajudar os seus amigos, já que convida um para ser ministro e para o outro, que anteriormente ocupava esse cargo - mais uma vez, peço desculpa se estiver errada-, parece ter reconfigurado um novo cargo. Pergunto eu: não trará isso uma despesa ainda maior a um governo que se diz empenhado em cortar na despesa? Eu mesma valorizo muito as minhas amizades e há pessoas por quem me empenharia a fazer o qu e- atente-se na conjugação do verbo, sujeito a condição - pudesse para ajudar. O que não podemos perder de vista é: a senhora Dilma e demais integrantes do governo ocupam cargos que os obrigam a dar total prioridade aos interesses e necessidades do povo brasileiro. É apenas a esse que devem urgência. Por isso, resta-nos torcer para que a justiça faça o seu trabalho, que as investigações se concluam o mais rápido possível e que, seja por qual caminho for, possamos seguir em frente, rumo a um Brasil melhor, mais maduro e mais justo. Não para eles ou para nós, mas para todos.
Todo o cidadão é considerado inocente até que se prove o contrário. Creio que ninguém põe essa máxima do estado democrático em questão. O que é questionável, parece-me, é que um cidadão sobre o qual pairam dúvidas, que está a ser investigado pelas entidades competentes para tal, que tem o seu nome envolvido em inúmeras situações dúbias, seja nomeado para um cargo público da maior importância. Será o momento mais adequado para tal? Normalmente, névoas deste género costumam gerar o efeito oposto...Não podemos também ignorar que, no caso, foi tudo feito com uma pressa inexplicável - tomada de posse antecipada em relação à data que se tinha estipulado primeiro, edição extra de diário oficial da união.
Por outro lado, acho louvável e admirável a forma como o povo brasileiro se tem manifestado nas ruas. De forma ordeira e pacífica exprimem a sua indignação e descontentamento. O que acho perigoso e lamentável é que no meio de toda esta situação, seja cada vez mais evidente o "nós e eles". A coisa tem assumido uma tal proporção que nos vemos obrigados a pensar duas vezes na cor da nossa roupa antes de sair de casa, não vão uns pensar que estamos a defender os outros. O cerne da questão é esse mesmo: o Brasil não é de uns ou outros. O Brasil é de todos. O Brasil é para todos. Não se trata aqui de uma rivalidade de tipo futebolística. O governo brasileiro, seja ele qual ou quem for, serve o interesse do povo brasileiro. Enquanto essa for a motivação dos políticos no governo, está tudo certo. A partir do momento em que a motivação de quem governa é apenas manter-se a governar, alguma coisa de errado se passa. Peço desculpa se estiver errada, mas parece-me que nas últimas semanas a única coisa que o governo faz é tentar manter-se de pé. Pelo Brasil pouco ou nada tem sido feito. A senhora Dilma parece profundamente comprometida em ajudar os seus amigos, já que convida um para ser ministro e para o outro, que anteriormente ocupava esse cargo - mais uma vez, peço desculpa se estiver errada-, parece ter reconfigurado um novo cargo. Pergunto eu: não trará isso uma despesa ainda maior a um governo que se diz empenhado em cortar na despesa? Eu mesma valorizo muito as minhas amizades e há pessoas por quem me empenharia a fazer o qu e- atente-se na conjugação do verbo, sujeito a condição - pudesse para ajudar. O que não podemos perder de vista é: a senhora Dilma e demais integrantes do governo ocupam cargos que os obrigam a dar total prioridade aos interesses e necessidades do povo brasileiro. É apenas a esse que devem urgência. Por isso, resta-nos torcer para que a justiça faça o seu trabalho, que as investigações se concluam o mais rápido possível e que, seja por qual caminho for, possamos seguir em frente, rumo a um Brasil melhor, mais maduro e mais justo. Não para eles ou para nós, mas para todos.
sábado, 5 de março de 2016
Coisas que me fizeram parar
Mais um detalhe delicioso da Rua Oscar Freire.
Para quem não conhece São Paulo, a Rua Oscar Freire é uma das ruas mais conhecidas da cidade. É uma rua comercial. É praticamente um shopping center a céu aberto. Ponto turístico. Quem por lá caminha, ouve todo o tipo de sotaques e de línguas pela rua, e vai ficar deslumbrado com a quantidade de lojas de marcas de luxo que por lá se encontra. De tudo um pouco. De livros, a malas, passando por roupa, canetas ou artigos de decoração. A mim, deslumbram-me particularmente detalhes como este, ou como o grafiti do post anterior, ou como outros que ainda vou retratar aqui. Simples, delicados, de uma beleza ímpar que nos faz sorrir à toa no meio da rua e...parar.
E é por estas e outras pequenas grandes coisas da vida que continuamos a caminhar.
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