Já vivemos em São Paulo há quase 8 anos. Aqui aprendi que adoro tapioca, jabuticaba, pitaia, açaí e cupuaçu. Não gosto especialmente de caqui chocolate, carambola e fruta do conde. Não gosto, de todo, de catupiry, castanha do Pará, água de coco e guaraná. Adoro fogazza, canoli e pastel de feira. Aprendi que aqui, se queremos limas, pedimos limões, e se queremos limões, pedimos limão siciliano. Aprendi a dizer "imagina" quando me pedem desculpa por esbarrar em mim na rua. Aprendi que aqui, ao invés de dois beijinhos, cumprimentamo-nos com um beijo só e, frequentemente, com um abraço. Aprendi que as crianças brincam de esconde-esconde quando estão a brincar às escondidas, de pega-pega quando jogam à apanhada e de amarelinha quando jogam à macaca. Aprendi que os bebés são bebês ou nenéns e lhes cantamos canções de ninar quando queremos embalá-los. Aprendi que aqui escutam, enquanto nós ouvimos, e assistem, enquanto nós vemos. Aqui pegam ônibus e metrô enquanto nós apanhamos o autocarro ou o metro. Aqui, vamos ao pronto-socorro quando queremos ir às urgências. Vamos ao banheiro, se queremos ir à casa-de-banho (e, na privada, damos descarga quando puxamos o autoclismo na sanita). Abrimos a geladeira ou o freezer para fazer o almoço, enquanto nós abrimos o frigorífico ou o congelador. Aqui não é o Pai Natal que chega no Natal, mas o Papai Noel. Aqui há palavras que em Portugal são comuns e aqui são inadequadas, e vice-versa, mas as palavras mais bonitas da nossa língua, são comuns aqui e aí: amor, saudade, amizade, sonho, esperança, fé.
Posso dizer, com toda a certeza, que não sou a mesma pessoa que chegou aqui no dia 31 de dezembro de 2011. Para ser mais exata, posso afirmar que hoje eu sou muito mais eu mesma do que naquele dia. Em 2011, com 30 anos, sentia-me velha e sem grandes perspetivas de nada. Tudo, absolutamente tudo, me remetia a casa, ao meu país, à minha cidade, à cultura com a qual me identificava, ao estilo de vida a que estava habituada. Para tudo eu tinha uma comparação - "lá em Portugal.." - e, em tudo, o lado de lá do oceano saía a ganhar. Não, eu não gostava de São Paulo, e praticamente tudo aqui me irritava, me tirava do sério, desde o sistema de entrada nos bancos que nos obriga a tirar toda e qualquer coisa dos bolsos, ao facto de ninguém parar nas passadeiras para o pedestre passar, à loucura e imprevisibilidade do trânsito, ao facto de se deixar os sacos de lixo na rua, encostados a um poste, à chuva torrencial que caía todos os dias naquele verão e que fazia com que o dia terminasse por volta das 15h, pois não queria arriscar ficar com uma criança de 2 anos presa nas recorrentes enchentes desses dias - numa dessas, chegamos a casa feito pintos molhados, e jurei para nunca mais! -, às incontáveis vezes que, decorrente dessas chuvadas, ficávamos sem luz por horas a fio.
Nas primeiras semanas eu só tinha uns milésimos de segundo de paz: aquele momento em que, nem acordada nem a dormir, eu ainda não me lembrava que estava aqui.
Foi então que senti na pele a primeira lição que São Paulo me ensinou:
- O que a nossa mente rejeita, o nosso corpo rejeita.
Nos primeiros meses em São Paulo, eu estive praticamente sempre doente. Comecei com uma gripe. A gripe evoluiu para umas secreções de cores que eu nunca tinha visto na minha vida! As dores de cabeça eram absolutamente insuportáveis. Pela primeira vez na minha vida, tive uma crise de sinusite. Fortíssima. A dor de cabeça era tal que descia pelos ossos da face e chegava aos dentes! Só passou com o segundo antibiótico. Concomitantemente a isso, andava com as pernas e braços cheios de bolotas enormes, inflamadas e doloridas das picadas dos insetos às quais, obviamente, eu fazia alergia. Também tive uma crise enorme de aftas em que, por alguns dias, mal conseguia comer. Depois veio uma infecção urinária. Eu não aceitava que estava em São Paulo, não aceitava a cidade, não aceitava a realidade em que estava, e o meu corpo refletia, de todas as formas, a minha rejeição. Realmente é verdade o que dizem: o corpo ouve tudo o que a nossa mente pensa e reage a isso. Viver aqui cansava-me. Sentia-me exausta, descrente. Depois de tempos e tempos de autocomiseração, cheguei a um ponto em que senti que não podia continuar assim. Tinha de escolher: continuar a definhar aos poucos ou mudar, e foi nesse momento que resolvi reerguer-me ("Bom, é aqui que estou, pois então, que seja! Se é aqui que vou ter de ser feliz, o melhor é começar à procura de razões para isso.") Nessa mudança de abordagem, o meu maior professor foi o meu filho, na época, com 2 anos de idade. Foi com ele que aprendi outra lição que apenas conhecia intelectualmente:
- É no presente que somos felizes.
Quem nunca ouviu estes clichês? Quem não os repete mesmo não lhes sentindo verdadeiramente o significado? Quem nunca ouviu dizer que qualquer criança no mundo tem tanto, mas tanto para nos ensinar sobre a simplicidade da vida?
Nos primeiros meses aqui em São Paulo, eu não trabalhava. Ficava em casa com o Mateus ou levava-o a passear um pouco - de manhã, fora do horário de perigo das chuvadas!
O Mateus, naquela época, estava muito dependente de mim. Às vezes, até ir à casa-de-banho era um drama: logo que eu saía do campo de visão dele, abria o berreiro. Se estava a cozinhar, chorava agarrado às minhas pernas que queria colo. Havia dias em que me sentia tão exausta que a sesta dele à tarde era uma benção para mim. No entanto, era o Mateus o meu principal alento todos os dias. O sorriso, as brincadeiras, o carinho. Tudo isso faz qualquer coisa valer a pena. Comecei a encarar cada dia perto dele como uma dádiva. Que mãe tem o privilégio de acompanhar o crescimento do filho de tão perto? Ver as conquistas diárias dele e partilhar momentos de alegria com ele mudou a minha forma de encarar a vida. A forma como ele encarava a vida mudou a minha visão do mundo. Já observaram uma criança a brincar? A correr? A forma como sorri, como cai na gargalhada? A forma maravilhada com que encaram cada descoberta, cada novidade, cada momento do seu dia. E não, não estamos a falar de coisas muito elaboradas. Pode ser o cachorro que passa na rua. A terra nas mãos. O passarinho a voar. O pulo que aprenderam a fazer. A panela em que conseguem entrar. O som de algum objeto. Uma música. Tudo capta a atenção delas, tudo é um pretexto para se sentirem felizes. Para uma criança tudo é intenso. É genuína a forma com que fazem tudo: rir, chorar, acarinhar, reclamar. Para uma criança, tudo o que importa é aquele momento, aquela bolacha, aquela brincadeira, aquela história, aquele carinho. Não importa ontem, nem amanhã. Nada disso existe verdadeiramente para uma criança de 2 anos. O que existe é o Agora. Presente. E elas fazem-se presentes. Entregam-se. Inteiras. E então eu percebi...
- A felicidade é uma escolha que se faz a cada momento.
Esta é uma lição difícil de aceitar. Estamos programados para viver de acordo com a crença oposta: quando eu tiver aquela casa, vou ser feliz. Quando eu tiver namorado, vou ser feliz. Quando eu tiver aquele emprego, vou ser feliz. Quando eu tiver saúde, vou ser feliz. Quando eu viver naquela cidade, vou ser feliz. Quando tiver um filho, vou ser feliz.
Eu decidi ser feliz Aqui e Agora. Como? Mudando a forma de ver a vida. Aprendi que a grande questão é: perspetiva. Nós podemos escolher focar-nos naquilo que não temos, e viver infelizes, ou focar-nos naquilo que temos, e viver felizes. Podemos escolher focar-nos em todas as coisas que achamos que merecemos, que devíamos ter e não temos (isso inclui não só coisas materiais, mas sentimentos como respeito, consideração, atenção, etc), e viver amargurados, ou focar-nos em todas as grandes e pequenas coisas pelas quais nos sentimos gratos, e sentir-nos abençoados. Isso é o poder da gratidão, que é outra grande lição que aprendi. Mudar a nossa perspetiva de "o que eu quero" para "o que eu tenho" faz-nos perceber, automaticamente, inúmeras coisas todos os dias pelas quais somos felizes.
Podemos e devemos escolher a melhor perspetiva para encarar a vida. Ninguém nem nada nos obriga a focar em um ou outro. Não estamos condenados a ter o nosso foco programado para uma ou outra perspetiva. É uma escolha.
No meu caso, o primeiro passo para mudar a forma de olhar para São Paulo foi a busca da beleza. Já dizia Einstein: "O estudo em geral, a busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a vida." E, lá está, ficar crianças, significa ter capacidade de nos maravilharmos perante tudo e nada. Isso mudou a minha forma de estar. As coisas são como nós as vemos. Eu podia continuar a ver São Paulo com os mesmos olhos e considerá-la uma cidade horrível, ou dar uma hipótese de vê-la sob outra perspetiva. Isso foi o grande ponto de viragem. Se pararem para pensar, as "lentes" com que observamos o mundo, afetam e determinam, em grande escala - ou mesmo totalmente -, a forma como o mundo se nos apresenta. Dou-vos um exemplo banal. Quando eu era criança e parti a perna, de repente, parecia-me que havia uma quantidade enorme de pessoas de perna/pé partido na rua a andar de muletas como eu, e quando estava grávida, da mesma forma, parecia-me que havia milhares de grávidas a passear por Lisboa. Certamente nem em uma nem em outra ocasião aumentou o número de pessoas de muletas ou grávidas e nem agora despareceram da face da Terra. O que muda é o nosso foco. É o nosso foco e atenção que muda o mundo e não o inverso. "Quando mudamos a forma como olhamos para as coisas, as coisas para as quais olhamos mudam."(Wayne Dyer). Quer ser feliz? Escolha isso! Mude a forma de pensar, mude a forma de sentir. E faça-o numa base diária, a cada momento. Essa é outra coisa que aprendi, não só aqui, mas ao longo dos anos: algumas mudanças levam tempo e exigem entrega e repetição."A prática não tem a habilidade de descriminar entre padrões negativos e positivos, e o que quer que seja que pratique, é aquilo em que vai tornar-se bom." (Dandapani). Pratique a autocomiseração, a reclamação e é nisso que vai ser bom. Pratique a gratidão, e emoções mais elevadas (amor, empatia...), e é nisso que vai ser bom. Escolha aquilo em que quer ser bom. Não espere que o mundo mude para mudar. Mude primeiro e veja como o mundo se transforma.
Quando o meu olhar se focou em procurar beleza em São Paulo, quando o meu filtro mudou, eu comecei a encontrar beleza em todo o lado! Aprendi que São Paulo tem árvores centenárias, grandiosas, inclusivé árvores com frutos, tem lindas borboletas - e, curiosamente, nunca vi tantas borboletas e tão incrivelmente bonitas quanto aqui!- , pássaros a cantar e é florida mesmo no inverno! A cidade não mudou. Eu mudei. Apaixonei-me pelo canto do sabiá, pelos ipês, rosa, amarelo e, principalmente os brancos, que até hoje me arrancam largos sorrisos e arrepios na espinha perante tamanha beleza. Concordo com Stephen Hawking que dizia que "devemos olhar para cima, para as estrelas, e não para os pés", e costumo dizer ao Mateus que ande na rua a olhar para cima: é lá que encontramos a beleza. Dificilmente nos pés e na calçada. Ao olhar para cima vemos as flores nas árvores, lindas borboletas, um céu azul com lindas nuvens desenhadas. Fico sempre com pena quando vejo as pessoas apressadas na rua, a passar por baixo das flores maravilhosas dos ipês sem nem se darem conta. Acho os grafitis da cidade incríveis e o caos que antes me mexia com o sistema nervoso, aparece-me agora como um espetáculo incrível de diversidade. Adoro andar na Avenida Paulista e observar aquela azáfama, as pessoas de todas as raças, credos e etnias, os vendedores ambulantes, os músicos, mágicos, vendedores de frutas. E esta é outra lição que aprendi...
- Há muito mais que nos une do que nos separa.
Seja em que lugar do mundo for, as questões humanas são essencialmente as mesmas. Aquilo que nos move, aquilo que nos assusta, o que nos emociona, o que nos magoa. Os sonhos, medos. Mais do que portugueses, brasileiros, brancos, negros, homens, mulheres, somos todos humanos. E essa condição une-nos mais do que qualquer tipo de identificação que tenhamos estabelecido com qualquer desses parâmetros. Aqui em São Paulo conheci pessoas absolutamente incríveis, de todas as nacionalidades. Com algumas delas senti uma empatia quase imediata. Aprendi que as generalizações apressadas que tantas vezes nos habituamos a fazer, são precipitadas e inúteis. "Brasileiros são assim, portugueses são assado, americanos são cozido, japoneses são frito". Embora haja traços culturais que herdamos da educação que recebemos, cada um é o que fizer de si mesmo. Há pessoas assim, assado, cozido e frito seja em que lugar do mundo for. Não é nacionalidade nem coisa nenhuma que define isso. Não somos moldados de uma forma irreversível. Somos obras em progresso. Constante. Eterno. Podemos mudar qualquer coisa em nós a qualquer momento. É uma das coisas que nos define, em qualquer lugar do mundo, como seres humanos: temos livre arbítrio para escolher e força de vontade para seguir a escolha que fizemos. "Somos aquilo que fazemos. Principalmente aquilo que fazemos para mudar aquilo que somos." (Eduardo Galeano) Isso leva-me a umas das mais importantes lições que aprendi nos últimos anos:
- Somos nós que escolhemos as crenças que temos.
Esta é uma verdade que tenho lido, por aí, dita pelas pessoas mais variadas, das formas mais diferenciadas. A primeira vez que contactei com isso foi lá por 2007 ou 2008 quando vi o documentário maravilhoso "Vinicius" pela primeira vez. A dada altura, aparece o poeta Ferreira Gullar a falar, e diz: "Eu acho a Vida uma invenção: se você quer inventar para o ruim, inventa para o ruim; se quer inventar para o bem, inventa para o bem. Eu tenho horror a ficar sempre pra baixo, sempre dizendo "A Verdade sobre a existência", e coisas desse género. Ninguém sabe qual é a Verdade! Você escolhe dizer que tudo é uma merda e nada tem sentido - não ajuda ninguém, pode até ganhar o prémio Nobel, mas não ajuda ninguém... Eu prefiro o cara que bota a vida pra cima: já que ninguém sabe qual é a verdade mesmo, vamos botar pra cima!"
A realidade é que a maioria de nós vive agarrado a crenças que nos limitam. Desde as coisas mais simples como "Se eu comer um gelado no inverno vou ficar com dor de garganta" ou "Sempre tenho dor de cabeça uma semana antes de ficar menstruada", a coisas mais complexas como "Nunca vou encontrar ninguém para partilhar a minha vida" ou "Nunca vou conseguir melhorar a minha situação financeira" ou "Sou uma pessoa desastrada, ou azarada ou propensa a doença", ou ainda conceitos relacionados com educação, casamento, religião que temos como verdades absolutas. Quem disse que é assim, ou que vai ser assim? Todas essas crenças são baseadas em "lixo" que armazenamos no cérebro, de memórias e experiências passadas. Como explica Joe Dispenza: "Você sabe que, quando recria repetidamente as mesmas emoções até não conseguir pensar com maior grandeza do que como se sente, seus sentimentos são registros de experiências anteriores, você pensa no passado. E, pela lei quântica, você cria mais passado." Acredite que a dor de cabeça é inevitável todos os meses, e ela estará ali, como sua fiel companheira, não a decepcionando. A nossa mente acredita no que quer que lhe digamos. "As palavras são poderosas, e a mente está sempre a ouvir." (Marisa Peer). Faça a experiência. Feche os olhos, relaxe e imagine que espreme um limão na boca. Saboreie cada gota do sumo amargo do limão. Não basta pensar no limão. Sinta a acidez, o gosto do sumo de limão na sua boca. Em poucos minutos, realmente sentirá que começa a salivar e que sente o gosto do limão. Ou experimente recordar uma lembrança maravilhosa da sua vida. Reviva-a em detalhes. Lembre o que via, o que ouvia, cheirava e, principalmente, o que sentia. Sem dúvida começará a sentir-se imbuído dos mesmos sentimentos especiais que essa lembrança boa lhe traz. A sua mente é receptiva a tudo o que lhe quiser transmitir. Então, por que não escolher bons pensamentos, elevados, positivos, poderosos? Nós sabemos qual vai ser o desfecho seja do que for? Nós sabemos como vai correr, o que vai dar certo ou não, o que funciona ou não? Então porquê ficar agarrado a crenças que nos magoam, limitam e diminuem? Criemos crenças que nos empoderam, que nos expandem, que nos soltam amarras do passado e tragam para o presente e para o futuro! "Não faça os seus sonhos caber nas suas crenças limitadas, mude as suas crenças para que abarquem seus sonhos." (Marisa Peer).
- Eu sou totalmente responsável pela minha felicidade e não pela dos outros.
Todos nós temos prazer em fazer o bem a quem amamos. Gestos, palavras. No entanto, por mais que façamos seja por quem for no mundo, a felicidade dessa pessoa não está nas nossas mãos. Podemos fazê-la sentir-se acarinhada, amada, valorizada, que são coisas que qualquer ser humano gosta de sentir, mas a felicidade de cada um é responsabilidade de cada um. É escolha de cada um. Às vezes, por mais que façamos, a outra pessoa não será feliz. E isso não é culpa nossa. Da mesma forma, não podemos deixar na mão de ninguém a responsabilidade pela nossa própria felicidade. "Quando a sua felicidade depende de algo externo, você torna-se um escravo das circunstâncias." (Sadhguru) A maior liberdade que podemos ter é saber que a forma como nos sentimos e como encaramos as circunstâncias da vida, está totalmente nas nossas mãos. "Como eu sou é escolha minha. Não importa o que outros façam, ninguém pode deixar-me zangado, feliz ou infeliz. Eu reservo esses privilégios para mim mesmo." (Sadhguru) Se estamos doentes, tomamos um remédio. Se estamos com fome, comemos. Se nos sentimos infelizes, achamos que as circunstâncias têm de mudar, o outro tem de mudar, o mundo tem de mudar. Nunca pensamos que somos nós que temos de mudar. Nunca pensamos que, se o problema está em nós, a solução também está em nós. Pare de arranjar desculpas ou culpados para a sua infelicidade: assuma a responsabilidade de ser feliz, sem depender de nada nem de ninguém.
- Aceitar os outros exatamente como eles são.
Esta foi uma das lições que mais paz trouxe à minha vida. É uma verdade profundamente libertadora. Quando aceitamos os outros exatamente como eles são, esperamos deles nada mais nada menos do que aquilo que eles nos podem dar (pelo menos naquele momento). O grande problema da maioria das relações é que estamos sempre à espera que os outros sejam, reajam, ajam, como nós achamos que deveria ser ou como nós seríamos perante aquelas dadas circunstâncias. A partir do momento em que não esperamos nada do outro que o outro não posso dar-nos, a relação torna-se mais leve e plena. Todos podemos mudar, a qualquer momento, claro. Mas ninguém muda ninguém. Ninguém vai ser da forma que queremos que seja só porque nós queremos. Se alguém mudar alguma coisa, parte de si mesmo essa intenção de mudar. Não devemos desejar que os outros mudem para nos agradar. Devemos aceitá-los como são, e viver em paz com isso. Não sofrer se um não telefona, se o outro não aparece, se o outro não dá presente, se o outro não demonstra afeto, se o outro é mais insensível a dar as opiniões. Cada um reage à sua maneira, sente à sua maneira, demonstra à sua maneira. Eu sou fiel ao que acredito, e comprometo-me com os outros da forma que sinto ser a certa, independentemente do que o outro lado faz ou deixa de fazer. O que os outros fazem, é assunto deles. O que eu faço, é assunto meu. Aprender a relacionar-me com os outros sem deixar que expectativas erróneas me atrapalhem, tem sido um excelente aprendizado. Nem por isso é uma visão pessimista da vida. Eu dou o meu melhor e sempre espero o melhor de cada um, mas como cada um é como cada qual, o melhor de um e o que espero de um, não é o mesmo que espero de outro. Digamos que, de uma mangueira, eu espero as mangas mais doces, de uma macieira, espero as maçãs mais suculentas, mas se eu viver à espera que uma laranjeira me dê amoras, vou viver constantemente frustrada.
- "Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses" (Sócrates)
Logo no começo da minha vinda para São Paulo, estavam perdidos aqui por casa "O poder do Agora" de Eckart Tolle e "Comer, Amar e Rezar" de Elizabeth Gilbert. Logo depois, recebi de presente "Consciência" de Osho. Cada um deles veio parar às minhas mãos no momento perfeito. De Osho já tinha lido vários livros e desde os meus 18 ou 19 anos que os assuntos que ele aborda germinavam na minha cabeça, principalmente, meditação. Já conhecia Tolle, tinha visto vários vídeos dele, mas nunca tinha lido nenhum livro dele. "Comer, Rezar e Amar", sabia que era um filme, mas nem nunca tinha tido curiosidade de ver. O livro foi revelador para mim, principalmente o capítulo "Rezar". Tudo em mim me dizia que meditação era um caminho para mim. Arrisco-me a dizer "O" caminho. Ainda assim, demorei vários anos a embrenhar-me nisso. Pensava "Não sei como", "Talvez um dia eu aprenda, se encontrar onde, como". Enfim, apegada a tantas daquelas crenças que nos limitam. A primeira vez que tentei ler "Autobiografia de um Iogue", de Yogananda, pouco depois de ler "Comer, Rezar e Amar", não passei das primeiras páginas. Pareceu-me demasiado para digerir. Não consegui absorver. Demasiado místico para o meu estado de espírito daquela época. Não era o momento certo e não tinha a receptividade necessária para aquela leitura. Há cerca de dois anos peguei no livro novamente e, literalmente, mudou a minha vida. De alguma forma, tocou-me profundamente, identifiquei-me, inspirou-me. Comecei a tentar meditar, à minha maneira, ainda antes de acabar de ler o livro. Basicamente segui algumas indicações do próprio Yogananda, e fechei os olhos para ver o que acontecia, o que estava ali, além da escuridão. O que eu "vi", motivou-me a procurar cada vez mais e mais. Continuo a não ser nenhuma expert. Sou, essencialmente, uma autodidata - hoje em dia é fácil obter informação sobre o que quer que seja graças à internet, então, fui-me aprofundando no assunto, lendo, lendo, vendo vídeos, fazendo masterclasses online, lendo mais e, acima de tudo, experimentando. Posso afirmar que sou uma buscadora, e o melhor dessa busca é que o caminho, em si e por si só, já é profundamente revelador e recompensador .
- O tempo é precioso
Vou muito pouco a Lisboa e, consequentemente, passo muito pouco tempo, fisicamente, com a minha família. Isso tornou-me uma pessoa extremamente seletiva com o meu tempo. Nas primeiras viagens que fizemos a Lisboa depois de viver aqui, tentava ver o maior número de familiares e amigos possível. Dividíamos o tempo entre aqui e ali, entre este e aquele, entre um passeio e outro. Era uma correria. Hoje em dia, as nossas viagens a Lisboa são muito mais simples e tranquilas: passamos o máximo tempo de qualidade possível com a família. Entendo, hoje, que tempo e atenção são as melhores coisas que podemos oferecer a alguém. Prefiro investi-lo em estar com quem mais importa para mim. Não significa que não goste dos amigos, que não aprecie o tempo que passo com eles - e faço questão de ver e dar um forte abraço aos amigos que amo como se de família se tratasse. Apenas valorizo mais o tempo que posso estar com a minha família. E não imaginam como é bom fazer coisas simples do dia-a-dia, como ir ao supermercado, ficar sentado no sofá a ver televisão, ficar a conversar, ir tomar um café. Simplesmente estar junto, estar perto. O tempo é verdadeiramente precioso. E eu escolho oferecer o meu de forma criteriosa.
- É preciso manter a atenção em tudo aquilo que já aprendemos
A maioria das coisas que aprendemos, se não praticamos, estagnam ou até as esquecemos um pouco. Algumas coisas, temos imperativamente de praticar todos os dias. Se algumas coisas que aprendi se tornaram facilmente parte da minha rotina, outras são mais difíceis de "agarrar". Às vezes elas escapam-me e eu caio em velhos hábitos que não pretendo manter na minha vida. O importante é, precisamente, saber o que queremos e o que não queremos. Isso faz com que o nosso desvio do caminho seja sempre cada vez menor, assim como o tempo que demoramos a retomar o curso. É essencial manter a atenção. Perceber quando as coisas nos estão a fugir, parar para refletir, e recentrar-nos, sem autocomiseração, sem culpas. A nossa mente tem uma tendência natural para o negativismo - herança do instinto de sobrevivência do Homo Sapiens que tinha de estar sempre alerta para momentos de iminente perigo - e é muito fácil ceder a hábitos que perpetuamos por anos e anos. Mas a nossa mente é uma ferramenta poderosa, e faz aquilo que lhe dissermos. Façamos nossas escolhas com atenção e consciência e, certamente teremos uma vida mais tranquila e feliz.
O título não pretende ser um plágio mas uma vénia a esse grande livro desse grande escritor/cronista: As minhas aventuras na República Portuguesa (Miguel Esteves Cardoso). Neste humilde endereço, apenas um pouco de tudo, um pouco de nada, muito de mim.
sábado, 30 de novembro de 2019
domingo, 29 de janeiro de 2017
Eu, os telemóveis e as novas tecnologias
Eu sou do tempo em que não existia telemóvel na nossa vida. Os primeiros que apareceram, eram aparelhos grandes, muito caros e que serviam - espantem-se! - para realizar e receber chamadas. Isso mesmo: o telemóvel servia para conversar. Só? Sim, num primeiro momento, digamos que substituiu o popular bip: mantinha as pessoas em contacto, permitia dar recados. Em pouco tempo, uma parte da população não dispensava o seu. Com o passar dos anos e a evolução dos aparelhos, o tamanho foi diminuindo: a grande moda eram os telemóveis pequenos, finos, leves. Os pequeninos eram os mais fashion. A variedade de aparelhos foi aumentando e, com isso, o preço de alguns foi-se tornando mais acessível. Cada vez mais pessoas tinham telemóvel. Lembro-me de ir a Londres em 1996, talvez - com o passar do tempo, a exatidão de alguns acontecimentos vai-se perdendo - e eu e os meus colegas de escola ficarmos espantados que até a florista que tinha a banca na rua tinha um telemóvel. Em Londres, já "toda a gente" tinha telemóvel.
Eu recebi, de prenda dos meus pais, o meu primeiro telemóvel no Natal do ano em que entrei para a Faculdade: 1999. Ia passar mais tempo para lá e para cá, entre o Direito e a Música, podia dar jeito, podia precisar, assim podiam falar comigo sempre que quisessem... Era um Nokia, relativamente pequeno, cinzento metalizado, com a pequena tela em cima e as teclas letras/numerais em baixo. Fazia e recebia chamadas, mandava e recebia mensagens de SMS, tinha toques simples, com sons computorizados e o jogo da cobra ao qual, confesso, dediquei um bom tempo daqueles anos. A concorrência ainda era pequena e, nesses anos, falar ao telemóvel saía caro. Utilizávamos quando era realmente necessário e, para longas conversas, recorríamos ao telefone fixo. Aos poucos, foram aparecendo os pacotes de voz ou SMS mais atrativos. Por esta altura, a moda já começava a ser os telemóveis que tiravam fotografias. "Para que é que eu preciso de um telemóvel que tire fotografias? Fotografias tiram-se com...máquina fotográfica...não?" Não sentia a menor necessidade disso. Além do mais, para mim, o lema é "enquanto funciona bem, está ótimo." O meu pequeno Nokia, bravo e resistente, ficou nas minhas mãos por muito anos. Acompanhou-me na Faculdade de Direito e, desde os primeiros dias de carta de condução, no meu twingo, nas saídas à noite com os amigos - desculpa, mãe, todas as vezes que te deixei preocupada porque ele não tinha sinal ou eu me esquecia de ligar- , nas milhares de mensagens trocadas com as melhores amigas, nas ilusões e desilusões amorosas - na época, não havia relatório de entrega das mensagens então, podíamos dizer a nós mesmas e umas às outras "se calhar ele não recebeu a mensagem, por isso é que não respondeu" - nas horas de estudo de piano, na mudança para a Escola Superior de Música. Honestamente, não me lembro de ter tido outro até o meu namorado-agora-marido me oferecer o Sony Eriksson no começo de 2008. Este já tirava fotografias - algumas delas, guardo com carinho até hoje - e fazia vídeos, tinha toques mais elaborados e, melhor, até dava para ter qualquer música da qual se fizesse o download para o telefone como toque e personalizar o toque para cada contacto, entre tantas e tantas outras, para mim, novidades. Era preto, com alguns detalhes em verde escuro, e era daqueles fechadinhos que se abria para utilizar o teclado, escondidinho lá para dentro enquanto o telefone estava fechado. A esta altura do campeonato, os melhores telemóveis já não eram os menores e a nova moda era o touch screen. O Eriksson não durou tanto: não chegou a três anos. Três anos de muita música, de muito namoro à distância, de algumas viagens, de sonhos realizados e... lá estão as fotos tiradas por ele a comprovar alguns desses momentos especiais: o casamento, a gravidez, o nascimento do Mateus. Foi por essa altura, precisamente, que ele perdeu o pio. Já só dava para ter uma conversa no alta voz, de outra forma, a pessoa do outro lado da linha não passava de um longínquo sussurro. Foi então que o Samsung me veio parar às mãos, desta vez, como prenda de dia das Mães do Mateus para mim. 2010. Era branco, um pouco maior que o antecessor, elegante e com touch screen. Tinha Wifi, que eu nunca utilizei em toda a sua longa vida de quase 8 anos. Documentou em fotos e vídeos o crescimento do Mateus - graças a Deus, tudo salvo em CDs e no cartão de memória. Acompanhou-me na mudança para São Paulo e mandou inúmeras mensagens transatlânticas. Conhecia a minha saudade de cor, nas palavras que enviava e nas fotos que eu nunca apaguei e que visitava de vez em quando. Numa era de redes sociais, televisão no telemóvel e todas essas coisas mirabolantes que a tecnologia, hoje em dia, permite, e que há 5 anos atrás pareciam ser coisa de filme futurista, o meu telefone servia para receber e fazer chamadas, receber e enviar mensagens de SMS, tirar fotos e fazer vídeos, e assim me serviu totalmente as minhas necessidades em todos estes anos. "Não tenho internet no meu celular." "Como assim, não tem internet no seu celular? Eu lhe dou a senha do wifi daqui." Os meus alunos, jovens adolescentes, não entendem sequer o conceito de "não ter internet no celular". "A Joana não tem Whatsapp?" "Não..." Diziam que era uma das únicas pessoas a não ter. Há uns meses atrás, a mãe de uma aluna dizia para a filha "Você conhece alguém que não tenha Whatsapp?" A menina abanou a cabeça. A mãe sorriu: "Conhece: a Joana!" O meu telemóvel tornou-se, com o passar dos anos, pequeno, perto dos aparelhos mais utilizados hoje em dia, com telas bem maiores, que permitem tirar maior partido da tal tecnologia. As minhas alunas diziam "o seu celular é tão fofo!..Assim pequenino. Adoro!"
Foi na semana passada que a tal tela touch screen deixou de colaborar comigo. Nada. Nenhum sinal. Nenhuma reação. Tanta coisa dentro daquele telemóvel, à distância de poucos toques na tela. E ela? Nada. Imóvel. Entra a mensagem nova. Nada: não abre. Há uns bons anos que ele andava com umas reações estranhas: quando lhe tirava a bateria, ou quando se desligava sozinho - o que, só de si, já não era um sinal de completa normalidade -, religava na incompreensível data de 5 de Janeiro de 1980, em que ainda nem era nascido - nem eu, sequer, só para que conste- e na exata hora de 22h00. Desde há dois meses para cá que a tela andava temperamental: de vez em quando parava de funcionar. Depois de inúmeras tentativas, voltava ao normal. Até há uma semana atrás. Parou, e não mais voltou. E foi assim que este novo Samsung me veio parar às mãos. Grande. Muito grande. Preto. As minhas alunas tinham razão: o meu outro Samsung, o branco, era pequeno e fofo. Ainda não me habituei ao tamanho da tela deste. Tão pouco aprendi a trabalhar com todas as funcionalidades dele. Os telemóveis, hoje em dia, fazem de tudo e, tendo internet, há aplicativos para as mais variadas coisas: pedir táxi, pedir comida, ver a previsão do tempo, ver e-mail, navegar nas redes sociais, saber o horário em que vai passar o transporte público, efetuar pagamentos de contas, saber o nome daquela música que já ouvimos tanta vez e não sabemos quem canta, etc, etc, etc. Eu diria que, atualmente, o limite é a imaginação e, diga-se, há coisas que até nos espantamos que existam! Uma coisa, certamente, mudou para mim: vivo longe do meu país e, estas tecnologias de hoje, encurtam as distâncias. Depois das nossas primeiras videochamadas com Lisboa, eu e o Mateus olhámos um para o outro e dissemos: "é bom poder ver a família, de vez em quando". Então, nem tudo é fútil, e devo um grande bem haja às novas tecnologias. O meu lema, esse sim, mantém-se: "enquanto funcionar bem, está ótimo", por isso, torço para que este aparelho me acompanhe por muitos e bons anos e que registre muitos e muitos momentos especiais.
Eu recebi, de prenda dos meus pais, o meu primeiro telemóvel no Natal do ano em que entrei para a Faculdade: 1999. Ia passar mais tempo para lá e para cá, entre o Direito e a Música, podia dar jeito, podia precisar, assim podiam falar comigo sempre que quisessem... Era um Nokia, relativamente pequeno, cinzento metalizado, com a pequena tela em cima e as teclas letras/numerais em baixo. Fazia e recebia chamadas, mandava e recebia mensagens de SMS, tinha toques simples, com sons computorizados e o jogo da cobra ao qual, confesso, dediquei um bom tempo daqueles anos. A concorrência ainda era pequena e, nesses anos, falar ao telemóvel saía caro. Utilizávamos quando era realmente necessário e, para longas conversas, recorríamos ao telefone fixo. Aos poucos, foram aparecendo os pacotes de voz ou SMS mais atrativos. Por esta altura, a moda já começava a ser os telemóveis que tiravam fotografias. "Para que é que eu preciso de um telemóvel que tire fotografias? Fotografias tiram-se com...máquina fotográfica...não?" Não sentia a menor necessidade disso. Além do mais, para mim, o lema é "enquanto funciona bem, está ótimo." O meu pequeno Nokia, bravo e resistente, ficou nas minhas mãos por muito anos. Acompanhou-me na Faculdade de Direito e, desde os primeiros dias de carta de condução, no meu twingo, nas saídas à noite com os amigos - desculpa, mãe, todas as vezes que te deixei preocupada porque ele não tinha sinal ou eu me esquecia de ligar- , nas milhares de mensagens trocadas com as melhores amigas, nas ilusões e desilusões amorosas - na época, não havia relatório de entrega das mensagens então, podíamos dizer a nós mesmas e umas às outras "se calhar ele não recebeu a mensagem, por isso é que não respondeu" - nas horas de estudo de piano, na mudança para a Escola Superior de Música. Honestamente, não me lembro de ter tido outro até o meu namorado-agora-marido me oferecer o Sony Eriksson no começo de 2008. Este já tirava fotografias - algumas delas, guardo com carinho até hoje - e fazia vídeos, tinha toques mais elaborados e, melhor, até dava para ter qualquer música da qual se fizesse o download para o telefone como toque e personalizar o toque para cada contacto, entre tantas e tantas outras, para mim, novidades. Era preto, com alguns detalhes em verde escuro, e era daqueles fechadinhos que se abria para utilizar o teclado, escondidinho lá para dentro enquanto o telefone estava fechado. A esta altura do campeonato, os melhores telemóveis já não eram os menores e a nova moda era o touch screen. O Eriksson não durou tanto: não chegou a três anos. Três anos de muita música, de muito namoro à distância, de algumas viagens, de sonhos realizados e... lá estão as fotos tiradas por ele a comprovar alguns desses momentos especiais: o casamento, a gravidez, o nascimento do Mateus. Foi por essa altura, precisamente, que ele perdeu o pio. Já só dava para ter uma conversa no alta voz, de outra forma, a pessoa do outro lado da linha não passava de um longínquo sussurro. Foi então que o Samsung me veio parar às mãos, desta vez, como prenda de dia das Mães do Mateus para mim. 2010. Era branco, um pouco maior que o antecessor, elegante e com touch screen. Tinha Wifi, que eu nunca utilizei em toda a sua longa vida de quase 8 anos. Documentou em fotos e vídeos o crescimento do Mateus - graças a Deus, tudo salvo em CDs e no cartão de memória. Acompanhou-me na mudança para São Paulo e mandou inúmeras mensagens transatlânticas. Conhecia a minha saudade de cor, nas palavras que enviava e nas fotos que eu nunca apaguei e que visitava de vez em quando. Numa era de redes sociais, televisão no telemóvel e todas essas coisas mirabolantes que a tecnologia, hoje em dia, permite, e que há 5 anos atrás pareciam ser coisa de filme futurista, o meu telefone servia para receber e fazer chamadas, receber e enviar mensagens de SMS, tirar fotos e fazer vídeos, e assim me serviu totalmente as minhas necessidades em todos estes anos. "Não tenho internet no meu celular." "Como assim, não tem internet no seu celular? Eu lhe dou a senha do wifi daqui." Os meus alunos, jovens adolescentes, não entendem sequer o conceito de "não ter internet no celular". "A Joana não tem Whatsapp?" "Não..." Diziam que era uma das únicas pessoas a não ter. Há uns meses atrás, a mãe de uma aluna dizia para a filha "Você conhece alguém que não tenha Whatsapp?" A menina abanou a cabeça. A mãe sorriu: "Conhece: a Joana!" O meu telemóvel tornou-se, com o passar dos anos, pequeno, perto dos aparelhos mais utilizados hoje em dia, com telas bem maiores, que permitem tirar maior partido da tal tecnologia. As minhas alunas diziam "o seu celular é tão fofo!..Assim pequenino. Adoro!"
Foi na semana passada que a tal tela touch screen deixou de colaborar comigo. Nada. Nenhum sinal. Nenhuma reação. Tanta coisa dentro daquele telemóvel, à distância de poucos toques na tela. E ela? Nada. Imóvel. Entra a mensagem nova. Nada: não abre. Há uns bons anos que ele andava com umas reações estranhas: quando lhe tirava a bateria, ou quando se desligava sozinho - o que, só de si, já não era um sinal de completa normalidade -, religava na incompreensível data de 5 de Janeiro de 1980, em que ainda nem era nascido - nem eu, sequer, só para que conste- e na exata hora de 22h00. Desde há dois meses para cá que a tela andava temperamental: de vez em quando parava de funcionar. Depois de inúmeras tentativas, voltava ao normal. Até há uma semana atrás. Parou, e não mais voltou. E foi assim que este novo Samsung me veio parar às mãos. Grande. Muito grande. Preto. As minhas alunas tinham razão: o meu outro Samsung, o branco, era pequeno e fofo. Ainda não me habituei ao tamanho da tela deste. Tão pouco aprendi a trabalhar com todas as funcionalidades dele. Os telemóveis, hoje em dia, fazem de tudo e, tendo internet, há aplicativos para as mais variadas coisas: pedir táxi, pedir comida, ver a previsão do tempo, ver e-mail, navegar nas redes sociais, saber o horário em que vai passar o transporte público, efetuar pagamentos de contas, saber o nome daquela música que já ouvimos tanta vez e não sabemos quem canta, etc, etc, etc. Eu diria que, atualmente, o limite é a imaginação e, diga-se, há coisas que até nos espantamos que existam! Uma coisa, certamente, mudou para mim: vivo longe do meu país e, estas tecnologias de hoje, encurtam as distâncias. Depois das nossas primeiras videochamadas com Lisboa, eu e o Mateus olhámos um para o outro e dissemos: "é bom poder ver a família, de vez em quando". Então, nem tudo é fútil, e devo um grande bem haja às novas tecnologias. O meu lema, esse sim, mantém-se: "enquanto funcionar bem, está ótimo", por isso, torço para que este aparelho me acompanhe por muitos e bons anos e que registre muitos e muitos momentos especiais.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
Eu e brincar
Eu não fui uma criança que brincasse muito. Ou melhor, não com as coisas que, normalmente, fazem parte do universo de uma menina ou, até mesmo, de uma criança pequena. Gostei de Barbie por, talvez, dois anos. Tinha a família toda - Barbie, irmã e Ken- e uma linda e enorme casa de madeira construída pelos meus pais e avô e que eu ganhei de um Pai Natal generoso. Troquei-os por Micromachines, Lego e alguns Pinypon - ou seria Playmobil?- com os quais também acho que não brinquei tanto assim. Adorava jogar Subbuteo e brincar com pistas de carros - ficava furiosa quando perdia, amuava e dizia que nunca mais queria jogar! O Spectrum do meu pai também era um dos eleitos. Cruzava os dedos para ver se o jogo entrava. "Puxa, não foi desta..." O meu pai dizia-me que tivesse paciência. "Quem sabe agora?" Novos minutos de expectativa...Em alguns dias, não entrava mesmo. Depois de inúmeras tentativas, arrumávamos tudo outra vez, desiludidos. Outras vezes, a espera terminava em euforia "Entrou, entrou, entrou!!!"
Do que eu gostava mesmo, aquilo que me divertia por horas era fazer ginástica! Essa sim, embora não fosse propriamente uma brincadeira, era a minha favorita. A sala da nossa casa - a primeira, da Póvoa de Santo Adrião-, lembro-me como se fosse hoje, era um imenso ginásio na minha cabeça, e ali aconteciam enormes e importantes competições. Eu fazia as vezes de todas as ginastas: daquelas que eu queria que ganhassem, e das outras. O tapete da sala era o solo. O sofá pequeno era o salto de cavalo: eu corria, corria, e passava por cima dele para o outro lado das formas mais mirabolantes. A parte de trás do sofá grande que estava encostada à parede e tinha alguns centímetros de largura, era a trave: eu passeava ali por cima, dava uns saltinhos e imaginava que estava a fazer as acrobacias mais difíceis do código de pontuação. Só para as paralelas não tinha imaginação que chegasse. Era no chão que me imaginava agarrada à barra e a girar de um lado para o outro. No final, havia subida ao pódio, hino e bandeiras a erguer-se!
Já o meu irmão Pedro, sim, dominava a arte de brincar, daquela forma mais tradicional, como ninguém! Eu gostava de o observar a espalhar os carrinhos pelo corredor da casa, a criar diálogos e enredos elaborados com todos os personagens espalhados no chão do quarto dele. De vez em quando, ele percebia a minha presença, interrompia a fala de algum personagem e perguntava-me, um pouco irritado: "o que é que foi?..", seguido de um enternecedor "só estou a brincar..." Ele era tão especialista nessa arte de brincar que, qualquer peça de qualquer brinquedo que nós encontrássemos pela casa, era só recorrer a ele: "Pedro, sabes o que é isto?" Ele olhava, e logo enunciava minuciosamente de qual brinquedo aquilo fazia parte. Eu admirava a forma como ele brincava. Como eu disse, eu nunca fui muito disso de espalhar bonecos e pô-los a interagir uns com os outros. Eu...fazia ginástica e, com o meu irmão, jogava futebol, basquete, fazia cabanas ou jogava na Playstation.
O meu filho, Mateus, é como o tio: ama brincar e, como o tio, é um verdadeiro especialista nessa arte! Às vezes ouço-o a brincar e parece que estou a ver o meu maninho a brincar. Ele mistura playmobil com lego, constrói bases - leia-se casas - para todos e, para isso, utiliza o castelo, legos, casas do playmobil, blocos de madeira ou até mesmo o espaço por baixo da escrivaninha dele. Cria diálogos, faz efeitos sonoros ( de batidas, pancadas, quedas, sustos, etc) e até banda sonora - sim, ele entoa uma música estilo épico enquanto os super-heróis vão a caminho da missão ou depois de uma grande vitória deles. O Mateus gosta tanto de brincar que até nos jogos do videogame ele brinca. Passo a explicar: aqueles jogos de hoje que têm o chamado jogo livre, em que os personagens podem passear livremente por algum espaço do jogo e em que há pequenas missões para cumprir, ele gosta de inventar as suas próprias brincadeiras lá dentro. Não raras vezes eu fui companheira dele nesses momentos e ele inventou histórias das mais variadas: ele era o polícia e eu o ladrão, ou vice-versa, e um tinha de apanhar o outro; eu era a mãe e ele o filho e, com essa premissa, diversas peripécias aconteceram. É como se costuma dizer: o limite é a imaginação, e a do Mateus é bem prodigiosa. Neste mês que passou, de férias escolares dele, eu tenho a sensação que brinquei mais do que em toda a minha infância com este tipo de brinquedos. Passamos horas no quarto dele, com o que ele nomeou - ele adora esta palavra - "brincadeira infinita do Mine-ninja" (uma mistura de Minecraft com Ninjago) que, a cada dia que arrumávamos as coisas - para um cantinho do quarto, confesso, até para não estragar a brincadeira - dizíamos "amanhã: próximo capítulo!"
O capítulo de hoje, inclui o regresso às aulas do Mateus mas, com disciplina e organização, vamos garantir que ele continue a ter o tempo dele para cultivar este bem mais precioso que ele tem: ser criança. Vai ter o resto da vida para ser outras coisas, por isso, agora ainda é o momento de ele continuar com as suas "brincadeiras infinitas" que tanto o fazem feliz.
Do que eu gostava mesmo, aquilo que me divertia por horas era fazer ginástica! Essa sim, embora não fosse propriamente uma brincadeira, era a minha favorita. A sala da nossa casa - a primeira, da Póvoa de Santo Adrião-, lembro-me como se fosse hoje, era um imenso ginásio na minha cabeça, e ali aconteciam enormes e importantes competições. Eu fazia as vezes de todas as ginastas: daquelas que eu queria que ganhassem, e das outras. O tapete da sala era o solo. O sofá pequeno era o salto de cavalo: eu corria, corria, e passava por cima dele para o outro lado das formas mais mirabolantes. A parte de trás do sofá grande que estava encostada à parede e tinha alguns centímetros de largura, era a trave: eu passeava ali por cima, dava uns saltinhos e imaginava que estava a fazer as acrobacias mais difíceis do código de pontuação. Só para as paralelas não tinha imaginação que chegasse. Era no chão que me imaginava agarrada à barra e a girar de um lado para o outro. No final, havia subida ao pódio, hino e bandeiras a erguer-se!
Já o meu irmão Pedro, sim, dominava a arte de brincar, daquela forma mais tradicional, como ninguém! Eu gostava de o observar a espalhar os carrinhos pelo corredor da casa, a criar diálogos e enredos elaborados com todos os personagens espalhados no chão do quarto dele. De vez em quando, ele percebia a minha presença, interrompia a fala de algum personagem e perguntava-me, um pouco irritado: "o que é que foi?..", seguido de um enternecedor "só estou a brincar..." Ele era tão especialista nessa arte de brincar que, qualquer peça de qualquer brinquedo que nós encontrássemos pela casa, era só recorrer a ele: "Pedro, sabes o que é isto?" Ele olhava, e logo enunciava minuciosamente de qual brinquedo aquilo fazia parte. Eu admirava a forma como ele brincava. Como eu disse, eu nunca fui muito disso de espalhar bonecos e pô-los a interagir uns com os outros. Eu...fazia ginástica e, com o meu irmão, jogava futebol, basquete, fazia cabanas ou jogava na Playstation.
O meu filho, Mateus, é como o tio: ama brincar e, como o tio, é um verdadeiro especialista nessa arte! Às vezes ouço-o a brincar e parece que estou a ver o meu maninho a brincar. Ele mistura playmobil com lego, constrói bases - leia-se casas - para todos e, para isso, utiliza o castelo, legos, casas do playmobil, blocos de madeira ou até mesmo o espaço por baixo da escrivaninha dele. Cria diálogos, faz efeitos sonoros ( de batidas, pancadas, quedas, sustos, etc) e até banda sonora - sim, ele entoa uma música estilo épico enquanto os super-heróis vão a caminho da missão ou depois de uma grande vitória deles. O Mateus gosta tanto de brincar que até nos jogos do videogame ele brinca. Passo a explicar: aqueles jogos de hoje que têm o chamado jogo livre, em que os personagens podem passear livremente por algum espaço do jogo e em que há pequenas missões para cumprir, ele gosta de inventar as suas próprias brincadeiras lá dentro. Não raras vezes eu fui companheira dele nesses momentos e ele inventou histórias das mais variadas: ele era o polícia e eu o ladrão, ou vice-versa, e um tinha de apanhar o outro; eu era a mãe e ele o filho e, com essa premissa, diversas peripécias aconteceram. É como se costuma dizer: o limite é a imaginação, e a do Mateus é bem prodigiosa. Neste mês que passou, de férias escolares dele, eu tenho a sensação que brinquei mais do que em toda a minha infância com este tipo de brinquedos. Passamos horas no quarto dele, com o que ele nomeou - ele adora esta palavra - "brincadeira infinita do Mine-ninja" (uma mistura de Minecraft com Ninjago) que, a cada dia que arrumávamos as coisas - para um cantinho do quarto, confesso, até para não estragar a brincadeira - dizíamos "amanhã: próximo capítulo!"
O capítulo de hoje, inclui o regresso às aulas do Mateus mas, com disciplina e organização, vamos garantir que ele continue a ter o tempo dele para cultivar este bem mais precioso que ele tem: ser criança. Vai ter o resto da vida para ser outras coisas, por isso, agora ainda é o momento de ele continuar com as suas "brincadeiras infinitas" que tanto o fazem feliz.
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Eu e os meus patrícios
Quando vivemos longe do nosso país, temos um sistema de alerta que dispara o sensor de aviso quando ouvimos uma palavra dita em português perto de nós. No meu caso, uma palavra portuguesa pronunciada no português de Portugal.
Sei que esse sensor não é exclusivo meu: já presenciei várias vezes aquele quase sobressalto quando olham repentinamente na minha direção e exclamam aquele "é portuguesa!" que, bem no finalzinho da palavra, tem um quê de interrogação. Como aquela senhora que estava com a filha pequena e entrou no mesmo elevador que eu. Depois do meu "boa tarde", com os olhos arregalados, disse o tal "é portuguesa?" e, em seguida, disse animada para a filha "olha, filha, a senhora também é portuguesa!" Fiquei a saber que vivia aqui há anos, que também é de lisboa, que vieram a trabalho. Falamos um pouco da experiência de viver aqui, partilhamos como foi difícil a adaptação no começo e de como acabamos por nos integrar bem aqui. Basta ouvir o mesmo sotaque, e parece que encontramos um primo distante ou um colega da escola que não víamos há anos e com quem, rapidamente, em 3 ou 4 frases, pomos a conversa em dia. Como aquela família que encontrei a passear na Oscar Freire, ou aquela senhora que levou os filhos ao parque e que diziam para as outras crianças "apanhei-te", por oposição ao "te peguei" deles, ou a simpática senhora que encontro na feira quase todas as sextas-feiras e me pergunta "está bem, filha? tudo bem?", como quem fala, zelosa, com uma prima ou uma sobrinha. Na primeira vez que nos encontramos, disse aquele mesmo "é portuguesa?" Perguntou de que cidade sou. "Lisboa". "Ah, então temos aqui uma alfacinha e uma tripeira!", respondeu-me com um sorriso cúmplice de quem sabe que ali, provavelmente, seríamos as duas únicas a saber o que isso significa. Há umas semanas atrás, conheci o marido dela. Vivem aqui há quarenta anos. O senhor contou-me que também é do Porto, que só foi a Lisboa uma vez e tenciona lá voltar para conhecer tudo a pé "que só andando a pé é que se conhece bem uma cidade", disse ele, sabiamente. Há também o senhor que vive aqui na rua e, no brasil, também há décadas, e me cumprimenta sempre "tudo bem, patrícia?"
Quando tenho estes breves encontros, fica a reflexão: não deixa de ser estranha a identidade que sentimos com "qualquer" português longe do nosso país quando, em Portugal, cruzamo-nos uns com os outros nas ruas todos os dias e mal nos olhamos nos olhos - assim como os brasileiros fazem uns com os outros aqui e, imagino, sintam a mesma identidade se se encontrarem em Portugal ou na China. Depois pensei: se uma mulher vivesse num mundo cheio de homens, quando encontrasse uma outra mulher, sentiria empatia. O Matt Damon, lá perdido em Marte, teria sentido empatia por qualquer ser humano que se cruzasse com ele. E, de uma forma mais realista e ainda mais flagrante: crianças sentem uma empatia natural por outras crianças. Veja-se a forma como, em cinco minutos de brincadeira no parque, parecem melhores amigos. A forma como, mesmo que seja em línguas diferentes, encontram uma forma de comunicar, brincar e se divertir. Talvez o que falte mais no mundo de hoje seja um pouco dessa empatia dos primeiros anos de vida que, por mil e uma razões, vamos perdendo ao longo do caminho.
Sei que esse sensor não é exclusivo meu: já presenciei várias vezes aquele quase sobressalto quando olham repentinamente na minha direção e exclamam aquele "é portuguesa!" que, bem no finalzinho da palavra, tem um quê de interrogação. Como aquela senhora que estava com a filha pequena e entrou no mesmo elevador que eu. Depois do meu "boa tarde", com os olhos arregalados, disse o tal "é portuguesa?" e, em seguida, disse animada para a filha "olha, filha, a senhora também é portuguesa!" Fiquei a saber que vivia aqui há anos, que também é de lisboa, que vieram a trabalho. Falamos um pouco da experiência de viver aqui, partilhamos como foi difícil a adaptação no começo e de como acabamos por nos integrar bem aqui. Basta ouvir o mesmo sotaque, e parece que encontramos um primo distante ou um colega da escola que não víamos há anos e com quem, rapidamente, em 3 ou 4 frases, pomos a conversa em dia. Como aquela família que encontrei a passear na Oscar Freire, ou aquela senhora que levou os filhos ao parque e que diziam para as outras crianças "apanhei-te", por oposição ao "te peguei" deles, ou a simpática senhora que encontro na feira quase todas as sextas-feiras e me pergunta "está bem, filha? tudo bem?", como quem fala, zelosa, com uma prima ou uma sobrinha. Na primeira vez que nos encontramos, disse aquele mesmo "é portuguesa?" Perguntou de que cidade sou. "Lisboa". "Ah, então temos aqui uma alfacinha e uma tripeira!", respondeu-me com um sorriso cúmplice de quem sabe que ali, provavelmente, seríamos as duas únicas a saber o que isso significa. Há umas semanas atrás, conheci o marido dela. Vivem aqui há quarenta anos. O senhor contou-me que também é do Porto, que só foi a Lisboa uma vez e tenciona lá voltar para conhecer tudo a pé "que só andando a pé é que se conhece bem uma cidade", disse ele, sabiamente. Há também o senhor que vive aqui na rua e, no brasil, também há décadas, e me cumprimenta sempre "tudo bem, patrícia?"
Quando tenho estes breves encontros, fica a reflexão: não deixa de ser estranha a identidade que sentimos com "qualquer" português longe do nosso país quando, em Portugal, cruzamo-nos uns com os outros nas ruas todos os dias e mal nos olhamos nos olhos - assim como os brasileiros fazem uns com os outros aqui e, imagino, sintam a mesma identidade se se encontrarem em Portugal ou na China. Depois pensei: se uma mulher vivesse num mundo cheio de homens, quando encontrasse uma outra mulher, sentiria empatia. O Matt Damon, lá perdido em Marte, teria sentido empatia por qualquer ser humano que se cruzasse com ele. E, de uma forma mais realista e ainda mais flagrante: crianças sentem uma empatia natural por outras crianças. Veja-se a forma como, em cinco minutos de brincadeira no parque, parecem melhores amigos. A forma como, mesmo que seja em línguas diferentes, encontram uma forma de comunicar, brincar e se divertir. Talvez o que falte mais no mundo de hoje seja um pouco dessa empatia dos primeiros anos de vida que, por mil e uma razões, vamos perdendo ao longo do caminho.
sábado, 14 de janeiro de 2017
Coisas que me fizeram parar

Na minha opinião, a poluição mais bonita de São Paulo. São cartazes espalhados por aí, parece-me que, na maior parte dos casos em tapumes de obras. Na Avenida Paulista, próximo à Casa das Rosas, há uma parede deles que faz parar muita gente.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
Eu, a senhora no elevador e a moça com o sorvete
Há uns tempos atrás, estava eu no elevador de um shopping, e entra uma senhora alta, vistosa, elegante. Noutro andar, entram várias pessoas, entre elas, uma moça que estava a comer um McFlurry - sorvete do McDonald´s. Eu estava bem perto de ambas. A senhora alta e elegante, olhava, olhava e olhava para o sorvete da outra moça, imagino que com água na boca. A certa altura, não resiste e diz, referindo-se ao sorvete: "Que cara ótima! Me desculpe, mas... o que é isso que você está comendo?" "É o novo sorvete com Ovomaltine do McDonald´s", responde a moça. "Ah...", continua a senhora. Pausa de alguns segundos. "Mas e essas bolinhas aí?" "Não sei bem explicar...é chocolate. São bolinhas de chocolate...", explicou a moça que, simpaticamente ofereceu "A senhora quer experimentar?" A senhora, um pouco envergonhada e rindo bastante - tal como outros de nós ali no elevador sorrimos- agradeceu "Não, não, obrigada!.. É que a cara desse sorvete está ótima mesmo, foi curiosidade. Me desculpe a indiscrição." A moça sai do elevador junto com a maioria das pessoas. Eu e a senhora alta continuamos. As duas sorrimos. Ela olha para mim e diz "Não resisti. Meu Deus, que cara ótima! Não é?" Sorrio e concordo com ela.. Antes de sair do elevador, conclui sabiamente "Ai, minha filha, nós mulheres, nos dias de hoje, é assim mesmo: ou a gente veste o que a gente quer, ou a gente come o que a gente quer!" - diga-se que, nestes anos a viver no Brasil, foi das melhores coisas que já ouvi! A julgar pela elegância dela, acredito que ela tenha optado pela primeira. Já eu...vou-me equilibrando entre as duas. Como se diz no meu país: nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Fico feliz quando perco um quilinho, mas também fico feliz quando como um belo sorvete!
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Eu e a sala São Paulo
Frequentei, com regularidade, durante alguns anos, a sala de concertos da Gulbenkian em Lisboa. Depois de anos aqui em São Paulo fui, finalmente, à Sala São Paulo há uns meses atrás. Arquitetura lindíssima. Impressiona já no exterior e, entrando na sala de concertos, é mais bonita ainda: uma harmoniosa mistura entre elementos modernos e elementos clássicos. Acústica privilegiada, orquestra (OSESP) muito, muito competente. Embora não traga tantos solistas renomados quanto podíamos ver na Gulbenkian, tem um programa bastante eclético e valoriza bastante a música contemporânea.
Ali, à espera de entrar na sala, senti-me na Gulbenkian outra vez. Muitas senhoras de mais idade, com os melhores vestidos e jóias para ir ouvir o concerto, senhores bem vestidos também, e muitos jovens, ora com calças jeans rasgadas e camisetas do Che Guevara, ora de calças sociais e camisa. Com certeza, grande parte daquelas senhoras, senhores e jovens, devem cruzar-se naqueles corredores e cadeiras quase todas as semanas. Já conhecem os rostos uns dos outros. Já conhecem os funcionários da bilheteria, pedem sempre o mesmo bolo ou salgado a acompanhar o café ou o chá, e seguem o mesmo ritual ao entrar na sala de concertos. Como acontece na Gulbenkian, talvez alguns deles apreciem mais o passeio e o encontro (quase) semanal com os amigos ali do que o próprio concerto em si. Comentam sobre os amigos em comum, sobre a família ou sobre os acontecimentos noticiados na semana. Chegada a hora de entrar para o concerto, despedem-se "até já, até já" e, no intervalo, em novo encontro, comentam sobre a primeira parte do concerto. Outros tantos, jovens, vão ali no intervalo do seu próprio estudo de música: vivem e respiram cada nota, emocionam-se, inspiram-se para continuar a melhorar, para não desistir. Prestam atenção a cada detalhe. Além de aproveitar o concerto, fazem dele uma aula. Sonham. Quando o concerto acaba, suspiram enquanto pensam "é isto que quero para a minha vida!"
Acústicas e arquiteturas à parte, de uma coisa sei: em todas as salas de concerto sentimos a mesma energia pulsante enquanto a música encobre o silêncio de cada pessoa ali sentada. O próprio silêncio é mais bonito numa sala de concertos. Ele é audível, perceptível: por instantes, podemos sentir que ele existe realmente. E a música...ah, a música, seja lá em que país for, é uma das coisas mais especiais e emocionantes com que a vida nos presenteou. Une, centenas de pessoas, na mesma energia, vibra, na sua forma particular, em cada um presente ali e faz-nos, inexplicavelmente, partilhar, por momentos, a nossa humanidade de uma forma única.
Obrigada, OSESP e sala São Paulo, pelos lindos momentos que me proporcionaram.
Estarei aí no próximo ano, várias e várias vezes!
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