quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

33-365

 


Um dos assuntos que mais me tem fascinado nos últimos anos é a mente humana. Como funciona, como nos bloqueia e como pode ser uma ferramenta usada a nosso favor. O quão poderosa a maioria de nós ignora que seja.
As primeiras leituras que me fascinaram nesse sentido foram as de Yogananda. Na sequência, conheci o trabalho de Marisa Peer. Depois Joe Dispenza, Gregg Braden, Jim Kwik, Shefali Tsabary, entre tantos outros.

Cito apenas quatro experiências que foram realizadas e mostram o quão poderosa é a nossa mente.

Um grupo de arrumadeiras em um hotel respondeu a um questionário e afirmou não ter tempo nem energia para se exercitar. O peso delas foi registrado e foram realizadas análises de sangue. No final, informaram-nas que, na verdade, não tinham que se preocupar pois o trabalho que elas realizavam no hotel já era todo o exercício físico que tinham que fazer por semana. Todo o esforço de empurrar carrinho pelo hotel fora, de arrumar as camas, quartos, já era todo o esforço físico necessário durante a semana e, com isso, com certeza já perderiam peso. Elas ficaram surpresas e felizes de saber que, afinal, já estavam a exercitar-se de forma adequada. Tiveram instruções de manter a rotina e, um tempo depois, os exames de sangue foram refeitos, e foram pesadas novamente. A grande maioria tinha perdido peso e os exames de sangue apresentavam resultados melhores. Tudo por, apenas, mudar uma crença na sua mente.

Um grupo de pessoas foi dividido em dois: um que realizou uma cirurgia no joelho, outro que apenas fez um "corte e costura" no joelho mas sem realizar a cirurgia. Ambos foram informados que a cirurgia tinha sido um sucesso. Ambos, após 6 meses, apresentaram o mesmo grau de melhora no nível de dor.

Um grupo de pessoas foi dividido em dois: um que praticou escalas e arpejos no piano 2 horas por dia durante duas semanas, e outro que ficou 2 horas por dia a praticar mentalmente as mesmas escalas e arpejos no piano no mesmo período de tempo. Exames neurológicos, demonstraram que, em ambos os grupos, houve mudanças idênticas no cérebro: novas conexões neurais (idênticas nos 2 grupos!) foram formadas.

Um grupo de pessoas foi dividido em três: o primeiro não se exercitou, o segundo exercitou os braços durante a semana, o terceiro imaginou-se, mentalmente, a fazer os mesmos exercícios com os braços pelo mesmo período de tempo do grupo dois. O primeiro grupo não apresentou alterações, o segundo apresentou aumento de força muscular e o terceiro também!

É este o poder da nossa mente, das nossas crenças. Aquilo que dizemos à nossa mente tem, efetivamente, a propensão a materializar-se. (Pare para refletir: naqueles dias em que o despertador não toca, já começa na correria, stressado, e começa a pensar coisas como "este dia já está a correr mal", quantas vezes, na sequência, outra coisa corre mal, a sua mente valida "este dia está para esquecer" e mais coisas chatas vão acontecendo durante o dia? Ou uma fase, uma semana, um mês, em que pensa constantemente "Que fase! Tudo me acontece!" E, realmente, sucedem-se várias coisas desagradáveis.) Por isso, a próxima vez que der por si a pensar "eu não sou capaz", "isto não está a resultar", "isto vai correr mal", "eu sou ...(qualquer coisa negativa)" pare e repense. Procure palavras melhores. A sua mente está a ouvir, e ela...tem um poder incalculável! Acredite. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

32-365

 


Hoje dei de caras com um "boguinhas" verde igual ao que tive entre os meus 18 e 25 anos. O meu querido Twingo! Não tinha vidros elétricos, não tinha direção assistida, não tinha ar condicionado, tinha apenas duas portas e um rádio simples que só permitia ouvir cassetes, mas era o melhor carro do mundo para mim. Incrivelmente espaçoso por dentro - todas as pessoas, todas, as que entravam no meu carro ficavam espantadas "como é possível este carro ter tanto espaço por dentro?! - e cabia em qualquer lugarzinho de estacionamento. Levou-me para tudo quanto foi lado. Gostava tanto, mas tanto daquele carro que, quando me despedi dele, não consegui evitar umas lágrimas. Mesmo estando a trocá-lo por um carro com bem mais recursos - e que me fez feliz também, diga-se.
Não precisamos de mansões, carros de luxo, roupas de marca para ser felizes. Durante aqueles anos, eu não senti falta de nada no meu twingo. A felicidade não está nas coisas, mas no que fazemos delas. É possível ser feliz com coisas simples. Com o meu "boguinhas" verde, no auge da sua simplicidade, eu fui. (Por isso, ver um estacionado na rua, arranca-me, facilmente, um sorriso.)

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

31-365

 


Noite atípica. Um apagão generalizado no bairro. Como, ao mesmo tempo, chovia, caminhei até casa pelas ruas apenas iluminadas pelas luzes dos carros que passavam e dos relâmpagos que rasgavam o céu de tempos em tempos.
Em casa, velas acesas em vários cantos. Entro no quarto para trocar de roupa e, inconscientemente, aperto o interruptor. Eu sei que não há luz. Já sabia que não havia luz quando entrei no quarto com o auxílio da lanterna do telemóvel! Mas a minha mente insiste em ordenar o meu dedo a fazer o gesto habitual quando se encontra perante a escuridão (e ele, por sua vez, obedece sem titubear): acender a luz. E eis a reflexão: quantos gestos na nossa vida, quantas ações e, principalmente, reações fazemos sem sequer ponderar por que o estamos a fazer? Quantos "pilotos-automáticos" nos levam a lugares inúteis (como tentar ligar a luz quando não há energia) ou a lugares indesejáveis (como ter a mesma discussão, com as mesmas argumentações, pela centésima vez)? E é tudo uma questão de atenção: só tentei acender a luz na primeira vez. Nas seguintes, a minha mente já estava focada, já tinha entendido que era hora de sair do piloto-automático. A nossa mente não é nossa inimiga: se soubermos dar-lhe a atenção devida, é nossa aliada na mudança. A questão é saber o quanto estamos dispostos a investir da nossa energia nessa mudança. É mais simples seguir automatismos do que estar atento, mas automatismos... nem sempre acendem luzes. Atenção leva-nos onde queremos, automatismos não nos tiram do mesmo lugar.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

30-365

 


Hoje, ao voltar para casa, ouvi grilos a cantar. Em um ápice senti-me na beira da piscina em Monte Gordo, numa noite de verão. Nas férias de verão, era uma das minhas coisas preferidas: ouvir o canto dos grilos ecoar no silêncio das noites quentes. Em Vila Nova de Milfontes também. O canto do grilos ficou, para mim associado a noites de verão na praia e, ao ouvi-lo, sinto como se me transportasse para outro lugar. É impressionante como certos cheiros, sabores e sons nos levam de volta no tempo e no espaço! Sentimos aquele cheiro de bolo ou de tempero e estamos na casa da mãe ou da avó, comemos alguma coisa e voltamos no tempo - ainda esta semana comi uma abóbora grelhada que, não sei porquê (porque a minha avó, que me recorde, nunca cozinhou nada parecido!) me fez lembrar alguma coisa que a minha avó fazia e senti um gostinho de infância que nem soube bem explicar porquê - sentimos um perfume e lembramo-nos de alguém ou de algum lugar. E as músicas... há músicas que nos levam de volta a um concerto, a uma festa, a um evento em particular e outras, levam-nos de volta exatamente ao que sentíamos e pensávamos na época em que as ouvíamos em loop. A memória é tão curiosa quanto imprevisível. Nunca sabemos qual momento estamos a viver e que vai ficar gravado na nossa memória. Mesmo quando são coisas absolutamente marcantes e previsivelmente eternas, nunca sabemos de que forma vão ficar gravadas em nós. Às vezes, só percebemos que essas coisas vivem em nós quando, de repente, um cheiro, um sabor ou um som nos devolvem algum momento que parecia ter ficado perdido. Dizem que "recordar é viver" mas acho que o mais acertado seria "recordar é re-viver", pois viver...só se vive uma vez. Aproveite-a bem! E talvez tenha a felicidade de poder revivê-la.

domingo, 29 de janeiro de 2023

29-365


Sabem a máxima de "vemos o mundo pelas nossas lentes e não como ele é"? Ontem estava a brincar de "guerra de água" com o meu filho. No final da brincadeira, já totalmente encharcados, o Mateus encheu um dos balões e disse "vamos desenhar no muro: water drawing." Apontou o balão para o muro, e foi deixando esguichar água do balão. A água ia formando uma mancha mais escura no muro. Ele perguntou-me o que eu via naquela forma. Ainda estava a descrutinar alguma coisa quando ele exclamou "Já sei! É um Among Us!" Verdade, assemelhava-se ao formato do personagem do popular jogo Among Us. Foi aí que parei para pensar: as "formas" que vemos por aí são reflexo daquilo que já conhecemos. Esguichou mais água noutra parte do muro e, desta vez, fui eu que vi com clareza "um jogador a dar um pontapé de bicicleta". O Mateus discordou "para mim parece só uma pessoa deformada..." Eu adoro futebol e o Mateus não gosta. Parei para pensar outra vez: as "formas" que vemos por aí refletem os nossos gostos e aversões.
O mundo que percebemos, depende das "lentes" que usamos para o observar. As nossas lentes têm o colorido das nossas experiências, do que já conhecemos, do que gostamos e não gostamos, das nossas crenças, dos nossos medos. Ninguém vê um mundo objetivo, cada um de nós vê o seu próprio mundo. (Por exemplo, para algumas pessoas o mundo é um lugar perigoso, cheio de ameaças, para outras o mundo é um lugar bonito e cheio de oportunidades.) Se a visão que temos do mundo depende das lentes que usamos, então, isso significa que não estamos fadados a ver o mundo da forma que sempre vimos. Podemos mudar as nossas lentes e, com isso, perceber um mundo diferente! Escolher lentes mais bonitas, que nos façam ver um mundo melhor, mais colorido, talvez com mais esperança e alegria. Se podemos mudar as lentes que usamos, a questão mais importante é: que mundo escolhemos ver? Comece hoje, agora: escolha, cuidadosamente, em que mundo deseja viver. Ele já existe aí. É só aprender a observá-lo através das lentes certas. 

sábado, 28 de janeiro de 2023

28-365

 


No Ocidente, temos muito receio de falar na morte. Até de pensar na morte. Vivemos como se não soubéssemos que, um dia, vamos morrer. Vivemos como se esse dia fosse daqui a muito, muito, muito tempo, como se talvez, até lá, a tecnologia e a medicina pudesse evoluir tanto que já seja possível viver para sempre e, afinal, esse dia nem tenha de chegar. Fazemos planos para daqui a 1 ano, 5 anos, 10 anos quando, na verdade, esse dia pode ser hoje. Pode ser amanhã.
Ter consciência da nossa mortalidade traz-nos para o Agora, e Agora é a única coisa que sempre tivemos e sempre teremos. A vida é uma incessante sucessão de Agora. Daqui a pouco não existe. Há bocado já deixou de existir. Enquanto escrevo, cada palavra me leva a um novo Agora. Cada respiração profunda me transporta de um Agora até outro. Vivemos sempre Agora. A nossa mente pode vaguear entre passado, presente e futuro, mas a Vida acontece sempre Agora e, quando tiver de nos deixar, também será Agora.
Por estes dias, refletia eu sobre o quão imprevisível e inexplicável é a morte. Assim como não sabemos de onde vem esta centelha que nos dá Vida, também não sabemos por que ela nos deixa. Sim, o corpo deixa de funcionar, ou por doença, ou por acidente, seja lá que razão for, o nosso corpo não reage mais da forma que deveria, mas... eu refiro-me ao momento exato em que se morre. Num momento, há algo no corpo que lhe dá Vida e, no momento seguinte, a Vida deixa aquele corpo. O que a segurava ali? Pensem naquelas mortes súbitas, em que a pessoa estava, aparentemente, saudável e, de um minuto para o outro, cai inerte. Por quê naquele exato segundo, o que animava aquele corpo deixa de o fazer? Eu não temo a morte, nunca temi, na verdade. O que dói é a ausência dos outros em mim ou a minha ausência nos outros. A Morte, em si, é uma coisa que aceito tão naturalmente como a Vida. Acho tão inexplicável eu estar aqui agora quanto, um dia, deixar de estar. Como a vida é cheia de sincronicidades, entre uma linha e outra que escrevia aqui, assisti a um episódio (o sexto) de Sandman. Esse episódio começa com Sandman a conversar com a sua irmã, Morte, e a acompanhá-la em um dia de trabalho dela. Bonita, calma e simpática, a Morte vai passeando pela cidade, visitando as pessoas que tem de visitar nesse dia. Entre uma corrida, umas braçadas na água, e uma música no violino, nenhuma delas percebe que morre, até que a Morte lhes sorri e as leva pela mão. Nenhuma delas sofre. Deixam-se levar por Ela, envoltos no seu sorriso, na compaixão do seu olhar. Assistir este episódio neste exato momento, foi como se o Cosmos me respondesse: sim, a Morte é apenas uma moça bonita que, no momento que tiver de ser, nos sorri e nos leva pela mão. Até lá, aproveito a dádiva que me foi concedida: viver. Agora.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

27-365

 



Se há assunto que eu acho fascinante é o livre-arbítrio. Quando eu tinha os meus 16, 17 anos, e começou aquela pressão para decidir que curso seguir, comecei a fazer essa reflexão: até onde vai o nosso livre-arbítrio? Porque eu, claramente, não tinha a menor propensão que fosse para, por exemplo, seguir Medicina. O menor interesse, vocação, capacidade (de lidar com sangue, etc) que fosse. E comecei a questionar-me: nós podemos mesmo ser tudo o que quisermos? Ou nós apenas queremos aquilo que podemos Ser?
No ano passado, ao estudar mais yoga, deparei-me com o conceito de samskara. (Desculpem-me alguma imprecisão, pois não sou entendida no assunto, mas vou aventurar-me aqui.) Samskara pode ser interpretado como uma impressão, uma marca ou uma "cicatriz". Digamos que, quando nascemos, não temos folhas em branco para preencher, mas folhas que já vêm com algumas linhas impressas, algumas marcas. Desde que nascemos, as nossas ações também vão imprimindo letras a lápis nessas folhas. Tornam-se impressões (samskara) na nossa folha. Primeiro escritas de leve, mais fáceis de ser apagadas mas, à medida que reiteramos ações e reações delas decorrentes, essas linhas vão ficando escritas de forma mais forte, até que podem ficar marcadas a caneta, o que dificulta a sua edição. Imagine que, em criança, cada vez que ficava triste, ganhava um doce para se alegrar. Na primeira vez, o doce foi uma boa surpresa. Na segunda vez, ainda uma boa surpresa. Na terceira vez, já foi um antecipado conforto. A cada vez que isso acontecia, na sua folha, começava a ser escrito em letras cada vez mais fortes "quando eu estou triste, preciso de um doce para me alegrar". Em breve, essa ação-reação torna-se uma impressão, uma atitude totalmente inconsciente e automática. Voltando à questão do livre-arbítrio: parece-me plausível que já cheguemos aqui, a este mundo, com certas "impressões" que nos guiam. (De que outra forma explicar a paixão que tive, desde que me entendo por gente, pela ginástica artística, por exemplo?) Também me parece essencial que olhemos atentamente para as nossas "folhas em branco" e comecemos a ponderar o que está ali impresso. (Eu preciso mesmo desse doce para me confortar ou alegrar, ou será que eu posso escolher traçar um novo caminho aqui?) Nós temos, sim, livre-arbítrio de escolher o que fazer com o que nos é dado. E temos, aliás, o dever, connosco mesmos, de refletir sobre as nossas ações e reações. Quanto mais conseguirmos livrar-nos de linhas que não precisam estar impressas nas nossas folhas, mais espaço em branco temos para nos reinventarmos e, com ações conscientes - livres! - reescrevermos a nossa história.