Matinais na Sala São Paulo são sempre um excelente passeio de domingo de manhã. Quando o programa do concerto é maravilhoso, melhor ainda. E hoje foi especial. Começamos com obras de Johann Sebastian Bach (orquestradas, respectivamente, por Ottorino Respighi e Max Reger). Se na primeira, Passacaglia e Fuga em dó menor, BWV 582, se reconhece o estilo fugado tão característico e envolvente da escrita de Bach, e um final apoteótico em uma surpreendente tonalidade maior, que encheu a Sala de Luz, na segunda, o coral "O Mensch, bewein' dein' Sünde gross", BWV 622, entramos numa atmosfera mais meditativa, instrospetiva, aquele carácter quase místico, espiritual ao qual Bach nos conduz com tanta maestria. Graças ao prévio pedido do simpático e competente maestro José Soares, o público aguardou o sinal dele para aplaudir após a música terminar. Isso concedeu-nos uns preciosos e mágicos segundos de silêncio. Um silêncio no qual a música adentrou, no qual mergulhamos, que nos acolheu, abraçou. Um silêncio difícil de ser ouvido no dia-a-dia. Profundo. Total. Imenso. Simultaneamente vazio e indizivelmente preenchido. Nenhuma palavra que eu escreva poderá descrever aqueles segundos. E, depois, vieram os "Pinheiros de Roma" de Respighi. Obra absolutamente incrível que ouvi, pela segunda vez, na Sala São Paulo. Hoje, à minha frente, estava um menino de uns 3 anos sentado no colo da mãe. Quando as flautas começaram a soar no terceiro andamento, ele disse "mamãe, tem pássaros na Sala?" Ela disse que não, que eram os instrumentos da orquestra. A música continuou e ele reiterou "São pássaros na Sala!" Mérito do compositor e da Orquestra que conseguiram, genuinamente, retratar os ditos pássaros. Logo em seguida, entramos em outro andamento, com instrumentos graves, e o menino comenta "mamãe, agora é um 'fante!" Achei adorável. E, mais uma vez, a partir de meio desse andamento até ao fim, é emoção pura! Arrepios, lágrimas, energia a fluir pelo corpo inteiro, uma emoção que transborda a cada vez que a música sobe mais um pouco, a cada vez que os metais ressoam de lugares inesperados da Sala. Absolutamente, totalmente... indescritível. Depois do último acorde, o público explodiu em palmas e bravos e ninguém, absolutamente ninguém ficou sentado na cadeira. Obrigada, OSESP. Obrigada, mastro José Soares. Obrigada, Sala São Paulo.
#Bach #Respighi #salasaopaulo #josesoares #osespO título não pretende ser um plágio mas uma vénia a esse grande livro desse grande escritor/cronista: As minhas aventuras na República Portuguesa (Miguel Esteves Cardoso). Neste humilde endereço, apenas um pouco de tudo, um pouco de nada, muito de mim.
domingo, 10 de setembro de 2023
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Ontem fomos à festa da Achiropita. Uma festa típica em honra a Nossa Senhora da Achiropita, com comidas e doces tradicionais italianos e várias barracas com brincadeiras e jogos. Um pouco na tradição dos Santos Populares em Portugal. Assemelha-se também na multidão que enche as ruas! Impossível comprar fogazza com as filas quilométricas, mas comemos doces e fizemos tiro ao alvo. E, do nada, começou a chover. A chover bem ao estilo de São Paulo: torrencialmente. Ficamos abrigados nas barracas dos jogos, e tentamos ganhar um peluche acertando com umas argolas no alvo. O peluche não veio, mas saímos de lá com uma bola enorme, ao estilo pilates mas sem a mesma resistência. A chuva acalmou e começámos o caminho de volta para casa. Mais uns chuviscos. Pingos mais grossos. Chuva mais forte. Vamos ter que abrir o guarda-chuva. Pega na bola, pega na embalagem com o tiramisu, tira o guarda-chuva da mochila. Guarda-chuva aberto, e seguimos, por entre a multidão, com choques de guarda-chuvas a projetar água por todo o lado e poças a formar-se por todo o caminho. Em nenhum momento ficamos chateados. Pelo contrário. Já fomos a várias festas da Achiropita, mas esta, em que ele acertou no tiro ao alvo, e apanhamos chuva a ponto de ficar todos molhados, tenho a certeza que vai ficar na nossa memória. Como disse ao Mateus, "Destas (coisas), a gente não se esquece." As coisas não têm que ser perfeitas para serem boas ou inesquecíveis.
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Nas últimas semanas houve um assunto do qual se falou muito aqui no Brasil: a necessidade que um famoso apresentador brasileiro teve de fazer um transplante do coração. Nos noticiários e programas de televisão, não só o estado de saúde dele quanto a divulgação da importância da doação de orgãos foi bastante divulgado. Há uns dias, o próprio apresentador, publicou um vídeo nas redes sociais em que agradecia a todos os envolvidos na sua recuperação, e a todos os que torceram por ele. Agradeceu também à família do doador e disse que vai fazer o possível para honrar aquele coração. Aquela frase ressoou em mim. É natural que se sinta grato e privilegiado por ter um coração saudável a bater no peito. Mas... e todos nós? Nós também temos um coração que nos foi, generosamente, concedido e que bate incansavelmente no nosso peito! O nosso coração também é uma dádiva! Quantas vezes paramos para lhe agradecer? Quantas vezes sentimos que temos que honrar o privilégio que é tê-lo? Aproveite agora. Feche os olhos, coloque as duas mãos sobre o peito, sinta o seu coração bater. Respire calmamente algumas vezes. Perceba como o coração reage à sua respiração consciente. E, então, agradeça cada batida. Pense o que pode fazer hoje para o honrar, o que pode fazer na próxima semana, no próximo mês? O seu coração é uma dádiva. Honre-a.
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Um dia destes, vi um sabiá pousado num ramo de uma árvore a cantar. Bico apontado para cima, peito a inflar, e o canto, tenazmente, a sobrepôr-se ao ruído do trânsito de São Paulo. Olhei em volta para ver se era seguro pegar no telemóvel, e tentei filmá-lo. Ao observá-lo através do ecrã do telemóvel, perdi-o de vista.
Ontem estava a filmar a minha mão no piano para gravar uma melodia que estava a pairar na minha mente. Ao ver a minha mão através do ecrã, fiquei um pouco desorientada, com uma noção distorcida do teclado.Será que, muitas vezes, não andamos a perder coisas importantes de vista ou a ver coisas distorcidas porque estamos a olhar para a realidade através de um pequeno e limitado ponto de vista? O que poderemos perceber à nossa volta se sairmos da "caixa" e alargarmos os horizontes? Fica a reflexão.
166-365
Gosto desta árvore. Sempre que passo por ela, sinto que ela está vestida a rigor para cumprimentar quem por ela passa. Elegante e vistosa. Há semanas que andamos a cumprimentar-nos. Ela acena-me ao sabor do vento, e eu paro e reverencio-a. Nenhuma fotografia minha lhe faz jus. Não se nota a sua nobreza, graça e beleza. Não se vêem os seus quase passos de dança, graciosos, ora subtis ora vigorosos, e em que algumas folhas se soltam esvoaçantes a rodopiar pelo ar como uma talentosa patinadora a rodopiar no gelo. E pensar que, enquanto eu a contemplo e ela me acena, entre nós há uma colaboração vital em que eu recebo o seu oxigénio e ela acolhe o meu dióxido de carbono? Deleito-me a observá-la e deleito-me nesta constatação de que há muito mais na vida para além daquilo que está ao alcance dos nossos sentidos.
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Há uma flor de que gosto muito aqui em São Paulo. Não sei se existe em Portugal, não me recordo de a ver por lá. Coroa-de-Cristo. Durante o ano, há épocas em que ela é um emaranhado de espinhos retorcidos mas, em outras, enche-se de folhas verdes e flores que passeiam entre o vermelho e o rosa. Essas flores de pequenas e delicadas pétalas relembram-me sempre que, por mais inóspito que seja o ambiente, é possível nascer algo belo. Por mais espinhoso que esteja o caminho, vamos encontrar flores. E temos sempre uma escolha: focar a nossa atenção nos espinhos que nos amedrontam, magoam ou deixam paralisados, ou contemplar a beleza singela das flores.
Nem tudo são flores mas, seja onde for, há sempre algo que pode florir.
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Sempre aprendemos com os nossos alunos também. Ensinar é uma troca. Se eu pretendo que os meus alunos absorvam o que estou a transmitir, primeiro, tenho que perceber quem está do outro lado. Nem todos aprendem da mesma forma, nem todos têm o mesmo grau de abertura, a mesma maturidade ou o mesmo nível de entendimento. Ensinar envolve questionamentos e, com o passar dos anos, tenho vindo a perceber cada vez mais que a principal questão não é como eu posso ensinar, mas sim como o aluno pode aprender? Não há fórmulas mágicas, receitas infalíveis ou formatos pré-estabelecidos que se encaixam em qualquer pessoa. Por ser uma troca, ensinar é dinâmico. Ao mesmo tempo, nessa troca, aprendemos sobre nós mesmos. Exercitamos a nossa paciência, imaginação e, principalmente, empatia. Pensar através do que o aluno expressa e tentar entender através do olhar dele a sua dúvida, ajuda a resolver muitos problemas que vão surgindo na aprendizagem. Ao ensinar, também temos a oportunidade de conhecer outras maneiras de pensar, de ver o mundo. Eu tenho alunos dos 6 aos 73 anos de idade, então tenho a oportunidade de revisitar o mundo através do olhar puro e autêntico de uma criança e de aprender através do olhar de quem já viveu mais do que eu. Ambas as formas de ver o mundo são inspiradoras e, de alguma forma, têm pontos em comum, como se um ciclo se fechasse. A criança pequena não está preocupada com o que pensam dela ou não, e encanta-se com o mundo que a rodeia. Vive cada dia com intensidade, e as coisas simples são valiosas e estimulantes para ela. A pessoa mais experiente já deixou de se importar com o que pensam dela. Percebeu que a grande beleza da vida está na autenticidade, nas coisas simples e, por isso, olha o mundo ao seu redor com encanto e gratidão e quer viver cada dia com intensidade. No meio do caminho, quantas vezes andamos a perder o nosso precioso tempo e a gastar energia com coisas que não são tão importantes assim?
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