O título não pretende ser um plágio mas uma vénia a esse grande livro desse grande escritor/cronista: As minhas aventuras na República Portuguesa (Miguel Esteves Cardoso). Neste humilde endereço, apenas um pouco de tudo, um pouco de nada, muito de mim.
sábado, 17 de fevereiro de 2024
Eu e os condicionamentos
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024
Eu e os atalhos
É muito comum observar os alunos lidarem com alguns desafios de coordenação motora no piano: se quer tocar forte com uma mão, a outra mão quer segui-la, se quer tocar desligado numa mão, a outra quer segui-la, se tocamos com o polegar, a outra mão também quer tocar com o polegar. Isto acontece com todos nós, por uma simples razão: o nosso cérebro é um exímio especialista em poupar energia. Embora corresponda a apenas 2% do nosso peso corporal, consome cerca de 25% da energia, por isso, é essencial poupar. E qual é uma das melhores formas de poupar energia? Criar atalhos. No caso do piano, ao invés de dar uma ordem para uma mão e outra ordem para a outra mão, a maneira mais fácil de poupar energia é dar uma só ordem igual para ambas as mãos. O nosso cérebro cria atalhos a cada momento: tomamos banho e lavamos os dentes sem pensar muito nos gestos. Vestimo-nos e apertamos os ténis de forma idêntica todos os dias. Comemos a mesma coisa ao pequeno-almoço, fazemos os mesmos trajetos. Mas mais do que isso: pensamos e sentimos as mesmas coisas. Repetidamente. Dos cerca de 70000 pensamentos que temos por dia, 95% são inconscientes, ou seja, gerados de forma automática. Atalhos. Repetem-se dia após dia. Esses mesmos pensamentos, levam-nos a sentir as mesmas emoções. E, assim como uma mão seguir, inadvertidamente, o gesto da outra no piano não beneficia a nossa performance, muitos desses pensamentos automáticos também não nos servem. A boa notícia: é possível treinar de forma a dar ordens diferentes a cada mão no piano. O primeiro passo é trazer a nossa atenção para isso: que som está a ser produzido e que som seria o ideal a ser produzido? Com os pensamentos é a mesma coisa: o primeiro passo é reconhecer que pensamentos se passeiam diariamente na mente. Quais queremos deixar ali? Quais escolheríamos, idealmente, ter? Parece difícil? Os meus alunos dizem que fazer uma coisa com a mão direita e outra com a esquerda é impossível mas, após algumas aulas, o impossível começa a tornar-se possível...A pouco e pouco. Com treino.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024
Eu, o Théo e os abraços
O Théo, o nosso cão, não gosta de abraços. Adora carinho. Quando começamos a fazer carinho na cabeça dele ou no peito, se paramos, ele puxa a nossa mão com a pata dele para continuarmos. Costumamos brincar com ele "és insaciável!" Adora deitar-se perto de nós, em cima dos nossos pés ou com a cabeça no nosso colo. Mas não gosta de abraços. Se o abraçamos, poucos segundos depois já começa a resmungar. Se não o largamos, a reclamação sobe de tom...Nós gostamos tanto, mas tanto dele que, quando olhamos para ele, aquele focinho lindo, aquelas orelhas expressivas, aquele olhar doce temos, literalmente, vontade de o apertar num abraço bem demorado. Adoramos este peludinho, e temos vontade de lhe demonstrar o nosso carinho através de abraços apertados. Para nós, um abraço é demonstração de amor mas, para ele, esses abraços apertados são, tudo menos uma coisa boa. Deixam-no inquieto, desconfortável, até assustado.
Nem sempre o que achamos que é melhor para o outro, é. Às vezes, há gestos nossos que são carregados de amor, carinho e atenção e não são percebidos pelo outro dessa forma, ou nem são percebidos de todo. Porque não somos todos iguais, não tivemos vivências iguais, aquilo que para uma pessoa é uma inequívoca manifestação de amor, para outra pessoa é supérfluo. Aí residem muitos equívocos: esperar dos outros o que seria a nossa manifestação, e não saber receber dos outros o que é a deles. É preciso perceber se é abraço apertado que o outro gosta e precisa...
Eu e o stress
Treinávamos por meses até chegar ao momento da competição. E, ali na hora da verdade, horas e horas de trabalho consubstanciavam-se em poucos minutos de prova. Uma hipótese apenas de acertar os movimentos que tínhamos treinado tanto. Dava aquele "friozinho" na barriga. O corpo entrava em "modo stress": super mobilizado. Não raras vezes, aconteciam quedas por um excesso de adrenalina. A vontade de fazer, de mostrar o trabalho feito, atropelava o nosso planejamento. Por vezes, íamos com tanta força e velocidade que caíamos para trás após a recepção do mortal para trás, por exemplo. Ou a saída das paralelas saía demasiado alta para o que estávamos habituados. Esses pequenos desvios eram suficientes para nos tirar do eixo. Da mesma forma que estudamos uma música no instrumento com toda uma mobilização muscular e gestos pensados para determinada velocidade e, na hora da apresentação, por o nosso sistema estar acelerado (batimentos cardíacos, ritmo respiratório) em função do stress, podemos cair no erro de tocar bem mais rápido do que tínhamos planeado. A adrenalina e o stress, por mobilizarem o nosso corpo para situações extremas, podem ajudar-nos a melhorar as nossas performances. Mas, se não conseguirmos lidar com eles, podem levar-nos ao resultado oposto. Por isso, é tão importante incluí-los no nosso trabalho. Na ginástica, mais próximo das provas, simulávamos a sensação de stress criando desafios. Por exemplo: cinco vezes sem cair e, se cair, começa de novo a contagem. A primeira vez era tranquila. A segunda também. A terceira já com um pouco de nervoso. A quarta já com stress e a quinta já bem próximo do que se sente no dia da prova "tenho que acertar!" Outra estratégia é gravar-se. É impressionante como o simples gesto de apertar o REC altera todo o nosso estado mental e físico. Falhas totalmente inesperadas acontecem!
É preciso ter ferramentas para lidar com o stress, criar formas internas de responder a ele mantendo-se no controle de si mesmo. Primeiro, em momentos de tranquilidade, criamos o condicionamento. Por exemplo, respirar algumas vezes de forma absolutamente consciente antes da apresentação, com foco em exalação lenta. Visualizar o exercício físico, no caso da ginástica, ou ouvir internamente o início da melodia no piano. Depois, essas mesmas ferramentas devem ser trabalhadas naquelas "simulações" de stress - X vezes sem errar, gravar-se, etc.E estas estratégias devem ser levadas para a vida. Frequentemente somos enredados em situações de stress: trânsito, correria, problemas no trabalho, discussões familiares. No momento em que estamos em conflito, é impossível tentar implementar uma ferramenta. Escolha momentos serenos para começar a criar condicionamentos que o levem a um estado pacificado. Se, nesse momento, perceber que aquela ferramenta não serviu, tudo bem: redirecione o seu esforço para outra. Experimente, investigue, perceba quais funcionam melhor. Tentativa e erro. Treino. Tudo na vida melhora com a prática. Até a nossa resposta ao stress.
Eu e do que somos feitos
Na escola, eu tinha alguns colegas que, desde muito novos, sabiam exatamente o que queriam ser: advogados, biólogos, arquitetos. Eu nunca soube muito bem...(Achei, até certo ponto da vida, que seria sempre algo relacionado com ginástica.) Mas sabia o que não queria: médica, por exemplo. Nunca senti a menor vontade ou vocação para seguir alguma coisa relacionada com medicina, ou mesmo com qualquer área de ciências. Sempre fui boa aluna e, em teoria, poderia ter seguido qualquer coisa - excepto Belas Artes (o meu talento para desenhar é praticamente nulo) - mas, na prática, sempre percebi que não, não podemos ser qualquer coisa. E isso sempre me intrigou. Cada um de nós nasce com habilidades e sonhos específicos. Eu jamais tive o sonho de ser médica. Nunca sonhei ir ao espaço, nem descobrir a cura de uma doença. Nunca sonhei ser Presidente ou projectar um edifício. Eu sonhava ir aos Jogos Olímpicos. Fazer música num palco. Escrever um livro. Como dizia o poeta "o sonho comanda a vida", e continuo a alimentar sonhos, antigos e novos, do que reverbera cá dentro, em quem sou, quem já nasci a ser e que vou descobrindo pelo caminho. Percebo que a questão não é que não podemos ser tudo o que quisermos, mas que não queremos ser tudo o que pudermos. Todos somos únicos, cada um com as suas singularidades impressas no corpo e na alma, vindas não se sabe de quando ou onde, mas que nos atravessam Aqui. "Dentro de cada um de nós há um talento à espera de ser revelado. O truque é descobri-lo." (Billy Elliot) A nossa busca deve ser mais de atravessar as camadas do que nos foi sendo acrescentado (por pais, sociedade, cultura, amigos, experiências) e tocar aquele centro que nos anima cá dentro. Talvez a nossa verdadeira questão, a mais essencial de todas, não seja quem quero ser, mas quem sou eu?
As above so below
Atualmente, há evidências científicas de que, no centro de cada galáxia, existe um buraco negro massivo, ao redor do qual os sistemas solares gravitam. Por sua vez, em cada sistema solar há uma estrela ao redor da qual os planetas gravitam.
Todos e tudo é feito de átomos. Cada átomo tem um núcleo ao redor do qual gravitam partículas de energia. Da menor partícula à maior estrutura, tudo se espelha. Vivemos num universo holográfico. "As above so below". (Ou, se preferirem, "Assim na Terra como no Céu.")E o que isso tem de mais incrível? Se os planetas, estrelas, galáxias, buracos negros estão todos interligados e a desenhar os seus trajetos de forma harmónica e perfeita, nós, aqui, como pequenas estrelas e planetas dentro deste universo particular que é o planeta Terra, também seguimos a mesma lógica. Estamos todos interligados, relacionados, e a desempenhar o nosso papel nesta enorme trama. Nada é por acaso. No seu dia-a-dia, preocupa-se com o magnetismo da Terra, que a lua saia de órbita ou que o Sol fique demasiado perto? Nós sabemos que tudo está no lugar certo, confiamos que tudo segue o seu caminho. Então, aprenda a confiar que também cada um de nós está no lugar certo, na hora certa, a fazer a coisa certa. Há razões que desconhecemos...Faça a sua parte, o melhor que puder fazer (e ser) a cada momento, e confie. Nada é por acaso. (Nem mesmo o facto de ter lido isto aqui agora.)
Eu e a Barbie
Eu tive uma Barbie. Uma Barbie, um Ken e uma Skipper. Os meus pais e o meu avô construíram, em madeira, uma verdadeira mansão para eles, quase da minha altura, com vários cómodos mobiliados e ofereceram-me como presente de Natal. Eu era apaixonada por ginástica, por isso as minhas Barbie e Skipper eram ginastas e um dos cómodos da casa era um ginásio. Muitas vezes, eram essas as brincadeiras: treinos e competições de ginástica, porque isso era o que eu mais gostava no mundo. Passados alguns anos, deixei de brincar com elas - preferia eu mesma fazer ginástica e criar os meus campeonatos imaginários - , e acabamos por doar tudo a um orfanato.
Quando, há meses atrás, estreou o filme da Barbie, não senti especial nostalgia, nem sequer grande curiosidade de ver o filme. Honestamente, não percebi a onda de entusiasmo que se criou à volta do filme. Algumas alunas minhas que o foram ver ao cinema, vinham desanimadas "não percebi nada do filme, Joana. Não gostei..." De facto, o filme, apesar da estética cor-de-rosa, bonitinha, algo infantil, não é para crianças. E é, sim, maravilhoso. Foi uma grata surpresa para mim. Comecei a vê-lo sem qualquer expectativa, nem sabia bem qual era a temática, e foi captando a minha atenção a cada cena, a cada frase, a cada boa alusão a outros filmes (como Matrix ou 2001 Odisseia no espaço). O filme diverte mas é, acima de tudo, um convite à reflexão, não apenas a respeito da sociedade em que vivemos, do que é ser mulher mas, principalmente, do que significa ser humano. "Quem somos se esquecermos tudo aquilo que achávamos que nos definia?" Com frases inspiradoras e provocativas, e uma mensagem muito bonita, é um filme que vale a pena ver, como excelentes interpretações. (Na minha opinião, só peca por um excesso de cantoria...Algumas partes musicais, tornam-se cansativas.)
