domingo, 7 de março de 2021

Eu e as linhas que nos tecem

"Toda matéria se origina e existe apenas em virtude de uma força. [...] Devemos supor que por trás dessa força exista uma Mente consciente e inteligente. Essa Mente é a matriz de toda a matéria." — Max Planck, 1944


Hoje sabemos que o mundo não é apenas aquilo que conseguimos absorver com os nossos sentidos. Estamos constantemente rodeados por micro-organismos, por exemplo. Também sabemos - e isso é Ciência, não crença - que tudo é energia, desde o mais sólido pedaço de aço à mais delicada pétala de flor. O próprio Einstein, na sua mais famosa equação, equivale massa a energia. 

Somos todos energia e estamos todos conectados. Com as pessoas que nos são mais próximas é fácil sentir essa ligação. Quantas vezes, a quilómetros de distância de um ente querido, sentimos que alguma coisa aconteceu? Ou pensamos, subitamente, em alguém que não vemos há algum tempo e, inesperadamente, essa pessoa nos liga ou temos notícias dela por outra pessoa? Ou entramos numa sala ou conhecemos alguém e sentimos que a energia não "bateu" com a nossa? Coincidência? Ou são pequenas evidências dessas teias que nos tecem? 

Para mim, a grande magia da música - e da Arte, como um todo - passa por essa ligação invisível que nos une. Reparem como os momentos que, certamente, mais nos marcam em qualquer evento são aqueles em que todas as individualidades se dissolvem. Quando uma sala inteira canta, por exemplo, o refrão de uma música, canta, literalmente, a uma só voz. É como se essas teias que nos unem, fossem finíssimos fios, inertes e apagados e, nesses momentos, ganhassem vida e se acendessem todos, ligando-nos numa enorme teia iluminada. A energia gerada é incrível! Podemos senti-la no arrepio na espinha, no pulsar do coração, nos pêlos dos braços arrepiados, na lágrima que escorre. E, como tudo é energia, podemos senti-la a ver o pôr-do-sol, a observar uma árvore... Se estivermos receptivos a isso, podemos sentir essa ligação que temos com tudo e essa é a busca máxima do ser humano: transcender a limitada noção de "eu" e, ao perdermos a nossa individualidade, encontrarmo-nos, enfim. Nas palavras de Sadhguru:

O desejo humano de transcender as limitações físicas é natural. Viajando da limitação - baseado do corpo individual para a fonte ilimitada da criação - esta é a base de qualquer processo espiritual.(...) Se você é liberado das forças físicas da existência, a graça irrompe em sua vida.(...) É só que você tem que se tornar receptivo a isso.


Ousemos ir além dos sentidos. Os momentos mais mágicos da vida são aqueles em que nos esquecemos de nós mesmos e nos diluimos em algo maior do que nós. Deixemos as "teias que nos unem" brilhar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Eu e o ego


“Acordar para quem se é, requer desapego de quem você imagina ser.”

Alan Watts

 

Olhando para trás, percebo que, se há coisa que a vinda para São Paulo me proporcionou foi recomeçar. Não me refiro a recomeçar carreira, questões materiais ou nada dessas coisas que parecem óbvias e necessárias quando se muda de país ou cidade. A questão é que essa mudança obrigou-me a existir sem nada daquilo que foi parte da minha existência por 30 anos. Eu vi-me noutro país, com outra cultura, outros hábitos, outros problemas e desafios, outro clima (até outros mosquitos, aos quais me tornei, como já contei, extremamente alérgica), sem família nem amigos por perto, sem nada, absolutamente nada familiar ou conhecido, sem piano, sem nem sequer o meu sotaque. Era só eu, o meu marido e o meu filho. Em várias horas do dia era só eu e o meu turbilhão de pensamentos. Eu passei a ser a única portuguesa do meu dia-a-dia, não era mais a pessoa que tocava piano – e, por algum tempo, nem mesmo a pessoa que ensinava a tocar piano -, que podia ver os amigos e família com facilidade, não tinha mais carro para me levar a qualquer lugar a qualquer hora. Elencar todas as coisas das quais sentia falta era, na verdade, enumerar todas as coisas com as quais me identificava. Eu sentia falta de tudo de Lisboa. Tudo. Quanto mais pensava nisso, de mais coisas simples e ridículas me lembrava. Pensar em Lisboa, na minha família, nos meus amigos, no meu piano, era como querer agarrar-me com unhas e dentes a quem eu era. Porque...O que aconteceria comigo se eu deixasse de ser aquela pessoa? Quem seria eu, então? Como poderia eu existir sem a minha família? Quem sou eu sem eles? Sem os meus amigos, conhecidos, sem os lugares que frequentava? Quem sou eu se não tocar piano, sem a minha música? Quem sou eu se comer coisas diferentes? Se pensar coisas diferentes? Ou até mesmo se falar com um sotaque diferente? Quem sou eu? Temendo que a distância de quase 8000 km me pudesse fazer esquecer, o meu ego, ao mesmo tempo frágil e resistente, como o são todos os egos, – aquela vozinha que fala incessantemente na nossa mente, que nos diz que não somos bons o suficiente, que tem medo, que é insegura, que acha que tem de provar alguma coisa a alguém, que julga, critica, que se compara, que nos faz crer que as respostas estão “lá fora”, nas coisas materiais - procurava coisas e mais coisas às quais se apegar, pois o ego só se sente bem no que lhe é familiar, conhecido. O ego faz-nos crer que o que somos é o resultado de um conjunto de circunstâncias (país em que nascemos), características físicas, pessoas com quem nos relacionamos, gostos e aversões que temos, traços de personalidade, profissão que exercemos, coisas que possuímos, etc. etc. Reparem... Se alguém perguntar: “Quem és tu?” A nossa tendência é elencar uma série de características: mulher, 39 anos, portuguesa, pianista. Podemos acrescentar estrutura física, raça, traços de personalidade, coisas favoritas ou até papéis que representamos no mundo (filha, mãe, esposa, irmã, colega, diretora, funcionária). Mas...se pararmos para pensar: isso é tudo o que somos? E quando não somos mais o que somos? O que resta? Foi aí que surgiu a minha oportunidade de recomeçar. Recomeçar a questionar-me. Recomeçar a busca. Quem sou eu se grande parte do que eu entendo por “parte de mim” me faltar? Deixando de ouvir o meu ego que gritava, clamava e exigia o seu conforto no que lhe é familiar, eu rendi-me a tudo o que me causava desconforto e angústia e resolvi tentar espreitar o que tinha do outro lado dessas camadas que cobrem o meu Ser. Aliás, é isso exatamente que fazem os monges (budistas, hindus, cristãos, ou quaisquer outros): abdicam das suas roupas, posses, cabelos, confortos, para que possam, enfim, olhar-se e descobrir-se despidos de tudo o que achavam ser. Assim como uma borboleta tem de se desapegar da identificação com a lagarta que achava ser para poder abrir asas e alçar voo.

Eu sempre me questionei “quem sou eu?”. Talvez mesmo antes da adolescência eu já fosse assaltada por essa angústia. Lembro-me, claramente, de a minha professora de piano me entregar um bilhete de “feliz Natal” após uma audição em que escreveu algo como “Espero que encontres tudo o que procuras na vida”. Aquilo foi como um soco no meu estômago. Do que, realmente, eu estava à procura? Eu nem mesmo fazia uma pequena ideia de “quem sou eu”, quanto mais do que procurar!.. Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Por que estou aqui? Estas eram as perguntas que passeavam incessantemente pela minha mente. Sem resposta. A minha mãe sossegava-me, dizia que era normal passarmos por essas dúvidas, questões e inquietações. Que não me preocupasse, que com o tempo, isso passa: ninguém sabe as respostas, e tudo bem. Aprendemos a viver sem as perguntas. Eu reparava que nem todos os meus colegas se preocupavam com esses assuntos e estranhava. Como podem não se perguntar de onde viemos? Por que estamos aqui? Para onde vamos? Porque eu fechava os olhos e observava: “impossível não pensar em nada...impossível “ser nada”, “não existir”. Eu queria entender. Seria tudo um enorme acaso? E quando morrêssemos, seria o fim? Como conceber o “nada”? Nem mesmo o silêncio eu concebia como real. À noite, sem um som que fosse na casa, eu percebia que, ainda assim, ouvia alguma coisa, um “zumbido”, uma vibração ou, nem que seja, o som da nossa respiração ou do nosso coração a bater. E então eu li “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach, que falava sobre ir mais além, sobre uma gaivota que não queria ser como as outras que só voavam para procurar comida e só viviam em função de satisfazer as suas necessidades básicas. Também li o “Pequeno Príncipe” que me disse que o essencial é invisível aos olhos. Perdi-me e encontrei-me nos versos de Fernando Pessoa e seus heterónimos. Identifiquei-me totalmente quando li, pelo mesmo autor de Fernão Capelo Gaivota, que todos e tudo somos “UM”. Aprendi com “O Profeta” de Khalil Gibran e com os ensinamentos de Osho. Deixei-me maravilhar pela Música e, ao tocar piano, comprovei que somos muito mais do que células, tecidos e ossos. Sempre fui sensível à beleza de uma paisagem, um pôr-do-sol, lua, estrelas, uma flor. Continuei a ler, ler, escrever, tocar. Percebi que a resposta a “o que queres ser na vida?” era simplesmente “feliz” - e só bem mais tarde soube que essa frase já tinha dono (John Lennon). A questão é “o que é isso de ser feliz?” É ter tudo o que queremos? Ou Ser quem queremos? Se achamos que somos felizes quando temos o que queremos, estamos a colocar a nossa felicidade na dependência de uma série de fatores externos e sobre os quais não temos o menor controle. Há, até, quem coloque a sua felicidade nas mãos de outra pessoa: é no outro que está a sua felicidade. Se o outro se vai embora, o mundo colapsa...e a culpa é do outro. Se obtemos o que tanto queríamos, logo encontramos outro objeto de desejo. É uma procura sem fim: há sempre um carro melhor, uma casa melhor, um telemóvel mais moderno, uma viagem mais exótica, um trabalho com melhor status ou melhor salário, ser mãe, ter um cão ou até, quem sabe, um avião! Mas... ser quem queremos...Só depende de nós. Podemos argumentar: mas eu sou assim, sempre fui e não vou mudar. Sim, indubitavelmente trazemos connosco traços de personalidade mas, se analisarmos bem, uma boa parte deles não são realmente nossos: foram adquiridos por nós, fruto de circunstâncias do ambiente em que vivemos, das pessoas com quem convivemos, das experiências às quais fomos expostos. Tudo são crenças que vamos abraçando, uma espécie de programação que se estabelece e que rege (quase) tudo o que pensamos, sentimos e fazemos. É disso que o tal ego se alimenta. Desses pensamentos automáticos que correm na programação do nosso cérebro inconsciente. Observemos cada uma das nossas crenças, cada uma das coisas que achamos que nos definem. Deixemos cair por terra uma a uma. O que sobra? Quem somos nós sem as nossas certezas? Quem somos sem o nosso emprego? Sem a família, os amigos? Quem somos nós sem o ressentimento, sem o ódio? Quem somos nós sem o nosso porto-seguro? Sem chão, sem tecto? Sem os dogmas da religião ou da sociedade? Quem somos nós sem o medo? Sem a nossa dor? Sem a nossa reclamação constante? Quem somos nós sem o sofrimento? Sem aquilo que nos magoou? Sem a culpa? Quem somos nós sem as nossas conquistas? Sem a alegria ou o orgulho? Sem a vergonha? Quem somos nós sem as histórias que vivemos? Quem somos nós no final de tudo isso? Quem, desde o começo, nunca deixamos de Ser.


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Eu e a Gioconda

 "Um professor afeta a eternidade; é impossível dizer até onde vai a sua influência."

                                                                                Henry Adams


Nem eu nem a Gioconda poderíamos imaginar o caminho que iríamos percorrer quando, naquela tarde, com 8 anos de idade, entrei na sala dela com a minha amiga Inês. Posso dizer que não me lembro das minhas primeiras aulas de piano, mas recordo-me claramente desse dia em que conhecemos a nossa professora. Recebeu-nos enquanto dava aula a uma aluna mais velha, na sala 3 - a "sala da professora Gioconda". Com aquela amabilidade que a caracterizava, sorridente, pediu-nos para lhe mostrarmos as mãos. Ambas estendemos as mãos abertas na direção dela que exclamou "Que lindas mãos de pianista que vocês têm! Tenho a certeza que vão ser boas alunas!". Nós, tímidas - do género "entrar muda e sair calada" - nem sei se comentamos muita coisa durante os minutos em que estivemos ali. Acho que ouvimos a aluna mais velha tocar alguma música e a Gioconda motivou-nos, mais uma vez, "Daqui a pouco são vocês a tocar assim!.." Quando saímos da sala, lembro-me de olharmos para as mãos, encantadas: "a professora diz que temos mãos de pianista..."

Mas..aos 8 anos de idade, o piano não era uma paixão para mim. Era só mais uma disciplina da escola à qual me dedicava o quanto podia, o melhor que podia, dentro do tempo (limitado) que a ginástica artística - essa, sim, minha paixão - me deixava. Desses primeiros anos, lembro-me bem do começo das aulas, da exigência da Gioconda em querer a melhor posição das nossas mãos ao piano - como uma "bolinha" e com o pulso leve - e das músicas a 4 mãos que toquei com a Inês e uma música a 6 mãos que toquei com a Inês e outro colega nosso - momentos de muita diversão e aprendizagem que guardo com o maior carinho.

Os anos foram passando e, não sei precisar em qual momento, a Gioconda teve de diminuir as horas de aulas e conversou com a minha mãe para saber qual seria a minha intenção em relação ao piano dali para a frente, uma vez que a ginástica ocupava a maior parte do meu tempo e prioridade. A minha mãe - obrigada, mamã - disse-lhe que não desistisse de mim que, quem sabe, um dia, eu poderia dedicar-me mais ao piano. Após um período conturbado, muitas lesões e um cansaço/desânimo, desisti da ginástica. Em pouco tempo, pensei também desistir do piano - talvez um pouco de rebeldia da adolescência - e tive algumas das piores discussões com a minha mãe, que não me deixou desistir - mais uma vez: obrigada, mamã. Mas, vindo não sei de onde, comecei a sentir um vazio pela falta de objetivos, desafios aos quais estava constantemente habituada com a ginástica. E, bem nesse momento, a Gioconda resolveu ter uma conversa séria comigo e a Inês. "Vocês estão a ficar atrasadas no programa de piano, e têm de decidir o que querem fazer. Se quiserem desistir, tudo bem, deixarei de ser vossa professora mas terão sempre a minha amizade. Mas se optarem por continuar, fazer o exame de 5º grau, têm de mudar de atitude, dedicar-se, estudar horas e horas por dia, desenvolver a técnica." Nessa altura, eu já estava a estudar um Prelúdio de J.S Bach que mexia com a minha sensibilidade. Comecei a perceber que, quando tocava piano, conseguia exprimir-me de uma forma que as palavras não permitiam. De alguma forma, conseguia aceder a partes de mim às quais não chegava por nenhum outro meio. Então, naquele momento oportuno, a Gioconda soube dizer exatamente o que eu precisava ouvir e aquelas palavras mexeram profundamente comigo - como tantas e tantas vezes aconteceu. Não ia desistir novamente! Resolveu trocar todas as minhas peças - excepto o tal Prelúdio de Bach. Com enorme sensibilidade à nossa personalidade, como era sua característica, tocou algumas peças para eu escolher. E como tocava bem! Uma exímia pianista, de uma sensibilidade e expressividade raras. Tudo parecia fácil quando era ela a tocar. Entre as peças que tocou para eu ouvir, estava uma Canção sem Palavras de Mendelssohn. Emocionou-me como nenhuma música antes, com aquele arrepio na espinha e, sem qualquer dúvida, escolhi-a. Aprovou a minha escolha dizendo, como costumava, "Vai ficar-te muito bem." E, sim, foi essa peça que mudou a minha vida. Foi ali que eu percebi tudo o que a música me permitia exprimir. Sem palavras. A Gioconda dizia-nos "a música é poesia, e as notas são as nossas palavras. Se tu te emocionas a tocar, os outros também se emocionam a ouvir-te." Comecei a estudar várias horas de piano por dia. Abraçava, apaixonada, o ideal de perfeição que a Gioconda nos fazia perseguir. Incentivava-nos a sonhar, a encontrar a nossa Voz, a desenvolver a nossa sensibilidade, mais ainda do que a nossa técnica. Ao mesmo tempo, fomos estreitando laços a um ponto em que eu não tinha que dizer se estava tudo bem comigo ou não: era só entrar na sala e ela já sabia, só de olhar para mim. Mais do que professora, tornou-se uma grande Amiga, que sabia respeitar o nosso silêncio e ouvir os nossos desabafos. Também conversava connosco sobre a vida dela, fazia questão de nos mostrar que era "gente como a gente" (como se diz aqui no Brasil), com alegrias, tristezas, problemas, preocupações. Enfrentou perdas e doenças com coragem e resiliência. Tudo isso nos fazia admirá-la sempre mais. Admirávamos não só a excelente professora e pianista que era, mas o ser humano sensível, generoso, dedicado que sempre foi. (Quantas vezes corria para ajudar a família, quantas aulas a mais nos dava, quantas vezes nos recebeu na sua casa em aulas particulares sem aceitar nenhum pagamento?) Elegante, amável e educada como nenhuma outra pessoa que tenha conhecido. Carinhosa connosco, fazia questão de nos escrever bilhetes que entregava, principalmente, nos dias das audições - verdadeiros tesouros para mim. Não tinha vergonha de se emocionar. Não raras vezes a vimos chorar, emocionada com a música ou com bilhetes que também gostávamos de lhe escrever. Hoje, faço questão de a lembrar e homenagear aqui mas, se há coisa que me deixa feliz, é saber que sempre o fiz, sempre soube exprimir-lhe a gratidão pelo grande presente que me deu, e de uma forma tão especial e completa: a Música. Sempre soube desculpar-me quando errei. Sempre soube exprimir-lhe o quanto a admirava, o quanto a nossa amizade significava para mim. Sempre demonstrei afeto e carinho. A Gioconda inspirava-nos a procurar e a ser o melhor de nós. Não só na música, mas na vida. Uma das evidências disso é a classe de alunos unida e coesa que conseguiu construir. De alguma foma, nós éramos o espelho das qualidades humanas da Gioconda: não havia a menor competitividade entre nós. Só entreajuda, amizade, zelo, carinho. A Gioconda promovia o nosso convívio, e todos conhecíamos bem as peças que todos tocavam, por isso, sabíamos exatamente quais eram os compassos mais difíceis para cada um de nós, e o que sempre aconteceu foi uma enorme corrente de boas energias que se formava enquanto cada um de nós se apresentava em público. Nas partes difíceis, todos cruzávamos os dedos e, quando tudo corria bem, todos comemorávamos como uma conquista de cada um. Quando corria menos bem, todos nos apoiávamos. Criámos amizades fortes e verdadeiras. Algumas das minhas melhores amigas até hoje, são desse grupo. Tenho a certeza que a Gioconda ficaria feliz de saber que permanecemos próximas.  

Infelizmente, já a tínhamos perdido, sem a perder, há vários anos. Deixamos de partilhar tantas coisas... A última vez em que a encontrei, conseguiu lembrar-se de mim, do meu nome e de onde me conhecia mas, quando lhe mostrei a fotografia do meu filho bebé, não conseguiu esboçar nenhuma reação. Naquela época, já era apenas uma sombra pálida do ser humano iluminado que foi. Não imagino o sofrimento que a família passou - sempre admirámos a forma como ela e o marido se olhavam, com ternura e admiração, a linda relação que tinham construído depois de tantos anos juntos. Quando, nesse dia, me despedi do marido, confidenciou-me que a Gioconda jamais tinha apagado do telemóvel as mensagens carinhosas que eu lhe enviava. Segurei as lágrimas enquanto o abraçava, mas desabei. Que falta que ela nos fez! Que falta que ela nos faz! Que bom que vivemos essa amizade. Que bom que cada uma de nós soube demonstrar à outra o que sentia. Que bom que ela continuará viva nos ensinamentos que nos deu e que nós passamos adiante, nas memórias que criamos juntas, no afeto e carinho que sempre teremos por ela, nas notas que tocamos no piano, na Música que, como a Gioconda dizia, "vai ser sempre a nossa melhor amiga." Obrigada, Gioconda. Obrigada. Até sempre.






terça-feira, 24 de novembro de 2020

Eu e o Théo




Nasceu no começo de 2019 - estima-se que no dia 8 janeiro. No penúltimo dia de março tornou-se o mais novo integrante da nossa família, por isso, decidimos adoptar o dia 30 de março para data comemorativa. Sugerimos todos os nomes possíveis e imagináveis. Mas era Theo que o Mateus queria. E Theo ficou.
No dia da adopção, parecia um anjinho. Estava lá num cantinho, sossegado. Fofo, fofo, fofo. "Podemos ver aquele?" Puseram-no no colo do meu marido e logo adormeceu. Depois ficou tranquilo no colo do Mateus. Os três olhávamos para ele enternecidos. Como resistir a tamanha fofurice? Ele dormia pacifica e tranquilamente como se o nosso colo fosse o seu lar. Logo percebemos que o Mateus já tinha feito a sua escolha. (E o Théo, aparentemente, também.) Quando o deitámos na cama na loja de animais, para testar se o tamanho era adequado, adormeceu, mais uma vez, ali mesmo - e compramos esse modelo de cama. Irresistível. Parecia um bichinho de peluche. Acho que foi o único dia da vida dele em que parecia ser um anjinho - vá, justiça seja feita, quando dorme ainda parece um anjinho. Mesmo depois de chegar à sua nova casa, continuou tranquilo, dorminhoco. Um doce.
Nas primeiras noites, tinha dificuldades para dormir a noite inteira e acordava muito, muito cedo. Realmente tínhamos, novamente, um bebé em casa, que não nos deixava dormir tanto quanto gostaríamos. Chegou pequenino. Tão pequeno que, durante o dia, adorava dormir escondido em baixo dos armários da cozinha. Insistiu em dormir lá até ficar entalado, alguns meses depois, e precisar de ajuda para sair por algumas vezes. Resignou-se à sua nova condição: passou a dormir ao lado do armário, só com a cabeça escondida em baixo dele. (Agora nem a cabeça dele cabe lá.) À noite, dormia num cantinho entre a nossa cama e a parede, com a cabeça igualmente enfiada em baixo da cama. Ainda hoje é um dos lugares preferidos dele para dormir, embora já não consiga enfiar a cabeça em baixo da cama - mas ainda consegue dormir em baixo da poltrona da sala, que ele usa como sua cabana.
A cama dele foi uma das primeiras vítimas: em poucos dias já tinha estragado o fecho e roído um dos cantos. Seguiram-se os pés das cadeiras da sala. Quando o deixámos sozinho em casa, arrancou pedaços de espuma de uma almofada. Em outra ocasião, cantos de lençóis e edredons - um dos lençóis ficou em frangalhos.
Sempre gostou de mordiscar e pular. O alvo predileto é, e sempre foi, o Mateus. Os dois fazem a festa, mas quase sempre acaba com reclamações das mordidas e arranhões.
É medroso. Gosta de passear, mas adora voltar para casa e, quando somos nós a sair, recebe-nos entusiasticamente, com pulos e mais pulos, como se não nos visse há meses!
Acho que o que mais gosta na vida é de comer. Claro que não a própria ração. Basta ouvir-nos na cozinha a mexer em alguma embalagem ou talheres e corre para lá para ver se vai ter sorte, e se nos vê a comer alguma coisa, senta-se, educada e pacientemente à nossa frente, implorando com o olhar - sim, aquele olhar tipo "Gato das Botas" - que partilhemos com ele . Qualquer coisa. Alguma coisa. Adora fruta, bolacha e macarrão cru - fica sorrateiramente à espreita todas as vezes que vamos colocar macarrão na panela, não vá algum pedacinho cair...- E cai mesmo, acho que de tanto que ele torce para que aconteça.
Apaixonei-me por ele logo no primeiro dia e ele, bebezinho, talvez sentindo o meu carinho por ele, seguia-me por todo o lado. Não podia nem ir à casa-de-banho que lá ficava ele a choramingar na porta. Hoje em dia, ainda me segue se vou estudar piano, por exemplo, e fica a chorar na porta se não o deixo entrar. À noite, quando percebe a nossa movimentação na sala e os diálogos, corre imediatamente para a porta do quarto do Mateus, e fica sentado a olhar para ela: já sabe que é hora de ir dormir e quer entrar para dar boa noite. Abrimos a porta do quarto, ele dispara para cima da cama e deita-se lá à nossa espera. Algumas vezes fica perto de nós enquanto lemos um pouco. Depois, o Mateus faz carinho nele, dá beijo de boa noite e ele volta para a sala. Connosco também tem sempre o mesmo ritual: espera que me deite e, só então, sobe também na cama e deita-se no meu lado esquerdo (em que a cama está encostada à parede) com o focinho em cima da minha barriga. Se, por acaso, não vai diretamente para o lado esquerdo, dizemos "Théo: lá no teu lugar" e ele, imediatamente, vai para lá. De manhã, se sente que o Sérgio se mexeu na cama e vai acordar, logo se levanta e abana o rabo como um tambor rápido e ritmado. Também adora deitar-se aninhado nas pernas do pai . Quando ouve o Mateus no quarto dele, sai em disparada para a porta para lhe dar bom dia. Adora brincar conosco no quintal com a bola dele - que, diga-se, já tem tantas partes mordiscadas que, tecnicamente, já não é exatamente uma bola - e, principalmente, com a nossa bola de futebol - que, definitivamente, já não é uma bola - que abocanha enquanto abana a cabeça vigorosamente de um lado para o outro - qual predador que exibe a sua presa nos dentes.
Quando ouve a campainha, ladra sem parar. Quando ouve as pessoas a falar na rua também. Sempre ladrou para a televisão desligada, pois vê nela o próprio reflexo. Não pode ver um papel ou guardanapo perdido por aí que logo os come como se se tratasse de um petisco saboroso. Não gosta de tomar banho e, principalmente, não gosta do secador. Também não gosta de ter o pêlo escovado - tenta, insistentemente, morder a escova, o que dificulta a nossa tarefa de o escovar.
É muito querido, companheiro e beijoqueiro. Mas não gosta de abraços nem apertões. Também não gosta que o Mateus se meta com ele quando está entretido a roer o seu osso. 
Sabe que o amamos. Sim, não tenho pudor de o dizer: amo o meu cão, nessa forma de amor única que existe entre nós, seres humanos, e eles, bichos de estimação (principalmente cães) que nos amam incondicionalmente e nos ensinam tanto sobre isso e também sobre a felicidade dos pequenos momentos partilhados. E se há coisa que eu gosto aqui no Brasil é que aqui eu não sou dona do Théo: aqui sou a mãe dele.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Eu e Tu


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Percebo agora que eras Tu. Eras Tu quando eu acreditava que podia transpôr qualquer limite do meu corpo a cada pirueta, mortal, acrobacia ou demonstração de flexibilidade. Eras Tu quando eu sentia a pura  liberdade de voar e fazer com o corpo o que pareceria impossível pelas leis da física. Eras Tu quando eu fechava os olhos na praia e me deleitava nas cores e formas que me apareciam. Eras Tu a cada queda, a cada derrota e eras Tu em cada conquista. Eras Tu em cada caminho não tomado, em cada pedra no caminho, a cada encontro e desencontro. Percebo agora. És Tu a cada harmonia e melodia que me arrepia a espinha. És Tu em cada livro, cada frase ou poema que me fala ao coração. És Tu numa bebida quente no inverno e numa bebida gelada no verão. És Tu no perfume das flores, no cheiro da maresia e da relva molhada. És Tu quando o meu cão deita o focinho no meu colo, no canto do sabiá e no vôo planado da gaivota. És Tu num bom filme ou obra de arte, e na energia inigualável de um evento desportivo ou de um concerto. És Tu no amor, na paixão e na amizade e és Tu na ausência deles. És Tu a cada pôr-do-sol ou lua cheia que me faz parar. És Tu nas cores do arco-íris, nas ondas do mar e na leve brisa que me acaricia o rosto nas tardes abafadas. És Tu no azul do céu, nas nuvens desenhadas e nas estrelas cintilantes. És Tu nos campos de girassóis, nos ramos das  árvores que dançam ao sabor da aragem, nas cores das folhas de outono e também na neve e na chuva que nos impressiona com a bela coreografia que faz no chão. És Tu nos vitrais da Igreja, no cume da montanha e no grão de areia. És Tu no sorriso do meu filho, nas horas de brinquedos espalhados no chão e és Tu nos desafios da convivência. És Tu no abraço de quem amamos, no encontro de almas e corpos, nas gargalhadas de doer a barriga, nas lágrimas de alegria e nas de tristeza também. És Tu na cereja doce, no pão quente com manteiga e no bolo acabado de fazer. És Tu no trabalho, no descanso, na dádiva e na perda. És Tu quando ajudamos e Tu quando somos ajudados. És Tu a cada coincidência, acaso e plano que não dá certo. És Tu nos acertos e nos erros (que são dádivas para nos fazer evoluir). És Tu na esperança e és Tu no desespero. És Tu na intuição, no sonho e na visão. És tu na inspiração e na respiração e no ténue e precioso espaço entre cada uma delas. És Tu na imensa escuridão dos olhos fechados e no silêncio que lá encontramos. És Tu o Começo e o Fim. És Tu Aqui, Ali, Agora, Antes e Depois. Percebo agora que eras Tu. És Tu. Percebo agora. Sou Eu.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Eu e as coisas que aprendemos com a Música

Quando estudamos um instrumento musical, além do prazer que, por si só, é fazer música, é sabido que, paralelamente, desenvolvemos várias habilidades. Há vários estudos científicos a respeito disso, do quanto o cérebro se desenvolve, de como a coordenação motora se aprimora, de como melhoramos a nossa capacidade de concentração, etc. Eu quero falar-vos de outras quantas que são apenas fruto da minha experiência pessoal. (E quem não é músico, mas é ou foi desportista de competição, encaixa-se igualmente na maioria dos itens.)

1- Paciência, perseverança e disciplina
    Quando alguém (que nunca estudou música) ouve uma música interpretada de forma sublime, provavelmente não imagina as dezenas, centenas de horas de trabalho que estão ali. As centenas, milhares de vezes que algumas passagens foram exaustivamente repetidas. Algumas passagens demoram semanas, meses, até se parecer com o que procuramos, até os dedos nos obedecerem. Algumas são tão difíceis que demora até acertarmos uma vez que seja. Depois demora a acertar a segunda. Aos poucos, vamos reduzindo a margem de erro. "Isto é impossível!" é um pensamento que nos ocorre algumas vezes. Mas não há impossíveis. As coisas só são impossíveis enquanto não tentámos o suficiente. Às vezes fazemos o nosso trabalho por dias, semanas, sem parecer que nada está a acontecer, que não há a menor evolução. E, um dia, acordamos, sentamo-nos ao piano, e tudo começa a fluir. Como se a semente do trabalho dos dias ou semanas antes começasse, naquele momento, a dar frutos. A música (e o desporto) ensinam-nos que temos que confiar no processo: fazer o trabalho, dar o nosso melhor, que o resultado aparece. Mesmo quando parece impossível, o difícil torna-se fácil (ou, pelo menos, acessível) se tentarmos o suficiente (com método, claro). Esse é outro ponto crucial: nada acontece sem disciplina. É preciso trabalhar com regularidade, empenho e dedicação. Mesmo quando não apetece Ou, aliás, principalmente quando não apetece. É nesses dias que ganhamos pontos na força de vontade. O meu professor costumava dizer que a Música não tem culpa se estamos ou não com ânimo, com problemas pessoais ou não. Que temos que nos fazer presentes, inteiros, deixar o resto de lado e entregarmos o trabalho - e mesmo nas coisas que não apetece tanto, como escalas, arpejos, exercícios técnicos, o nosso empenho e alegria de descobrir devem ser os mesmos.  Foi com o meu filho que melhor entendi esta lição...Uma criança não tem culpa se não estamos no nosso melhor dia: ela precisa de nós, inteiros, dedicados. Sempre. 

2 - Tudo começa na nossa mente
      Uma das coisas mais importantes para se conseguir uma boa interpretação (ou uma boa execução desportiva) é planear e optimizar cada gesto. Antes de se materializar, o gesto já está delineado, já existe na nossa mente. Cada gesto, por sua vez, serve um objetivo que o impulsiona. No caso da música: o gesto serve o som. O som, por sua vez, antes de se fazer ouvir, já existe, igualmente, em potencial, na nossa mente. Se fecharmos os olhos, conseguimos "ouvir" claramente o que queremos ouvir (de facto). É essa ideia que temos, que nos faz procurar o som e, é ao procurá-lo, que encontramos o gesto que melhor lhe serve. Se não temos essa projeção sonora idealizada na nossa mente (e o gesto que lhe corresponde), seremos sempre surpreendidos pelo som que produzirmos. Por outro lado, quando antecipamos cada som (na nossa mente), é como trazer para a esfera da realidade o som que já estava a pairar, em algum lugar, à espera de ganhar vida. De alguma forma, como se esse som já existisse, e nós apenas o tornamos...audível. Tudo começa com uma ideia. E, se pararmos para pensar, é assim em tudo na vida. Como alguém disse "As coisas são sempre criadas duas vezes: primeiro na mente, e depois na realidade física." Ou, como disse Einstein " A imaginação é mais importante que o conhecimento."

3 - Estar no momento presente
     Creio que, para além da meditação, as atividades que mais nos trazem para o momento presente são a música e o desporto. Imagine-se alguém enfrentar uma onda gigante da Nazaré e não estar focado no momento? Alguém estar em cima da trave para fazer um mortal e ter o pensamento no jantar? Alguém estar no palco a interpretar uma sonata de Beethoven com o pensamento nas contas que tem para pagar no dia seguinte? Estas atividades exigem foco total e, consequentemente, deixam-nos totalmente enraizados no Presente. Em qual momento do nosso dia-a-dia podemos dizer o mesmo? Momentos em que os pensamentos não vagueiam, em que o magnetismo do passado e do futuro não exercem influência sobre nós? Essa é a razão pela qual nos sentimos tão completos nesses momentos. Porque apenas Somos. Estamos ali, autênticos, despojados de quem fomos, de quem achamos que somos ou que deveríamos ser, do que temos ou não temos ou achamos que deveríamos ter. Fica apenas o nosso Ser, mais genuinamente autêntico e inequivocamente real. É por isso que tantos desportistas ou músicos sentem que ali, naqueles momentos, é onde se sentem mais felizes, é onde se sentem mais eles mesmos. E é. Isto porque estar focado ali, naquele instante, leva-os à sua verdadeira essência, liberta de quaisquer rótulos ou condicionalismos. Puro Ser. Indizível e indescritível. É por isso que muitos se sentem completamente perdidos quando deixam de fazer essas atividades: não encontraram outra forma de ter acesso a essa essência.
(P.S.Observem uma criança pequena a brincar, a descobrir o mundo: é uma das maiores aulas de como viver no Presente que podemos ter.)

4 - Há mais (para) além dos nossos sentidos
     A experiência de nos entregarmos totalmente a uma atividade, com a mente consciente no presente, não raras vezes, leva-nos a momentos de flow ou até de estados de consciência elevados. Todos nós, em algum momento da nossa vida, já vivenciamos isso. Momentos em que o tempo pára. Em que tudo parece deixar de existir. Sem tempo, sem espaço. É nesses momentos de flow que estamos totalmente alinhados com o nosso Ser e o que quer que estejamos a realizar, fazemo-lo no mais alto nível das nossas capacidades. (Se preferirem, chamem-lhe inspiração.) Esses momentos podem levar-nos a lugares que estão muito para além dos nossos sentidos. Quase podemos tocar o Divino... E essa é uma enorme motivação para continuar à procura - e não será essa a própria essência da Arte e de altas performances: encontrar o Divino em nós, ir além da nossa existência corpórea, das nossas (pretensas) limitações?


5 - Respirar fundo e voltar a tentar
     Muitas vezes deparamo-nos com um desafio no estudo. Tentamos uma, outra, outra e outra vez. A sucessão de erros e falhas começa a deixar-nos enervados. Quanto mais nos enervamos, menos acertamos. Ao longo dos anos, aprendi que, muitas vezes, a melhor forma de resolver um problema é afastarmo-nos um pouco, respirar fundo, tirar a mente do problema. Não raras vezes, percebi que, se parasse de estudar uma peça por um dia, no outro dia, subitamente, tudo parecia... menos complexo. Quando tiramos o nosso foco do problema, muitas vezes, aparece a solução. Como disse Einstein: "não podemos resolver os nossos problemas com a mesma mentalidade de quando os criamos". Em quantas situações na vida podemos aplicar este princípio...


6 - Só podemos corrigir aquilo que sabemos que está errado
     Muitas vezes acontece chamarmos a atenção do aluno (ou saltar à nossa atenção quando ouvimos uma gravação de algo que estamos a estudar) para determinado detalhe: uma nota que está mais forte do que devia, uma nota que está a deixar um buraco sonoro, uma imprecisão no ritmo ou mesmo um desequilíbrio sonoro entre as duas mãos. E eis que, a partir do momento em que a nossa atenção foi para aquele detalhe, ele salta-nos à vista como quando descobrimos os 7 erros numa charada: do nada, fica escancarado nos nossos ouvidos. Como nunca tínhamos percebido? E agora que já percebemos, parece-nos quase grosseiro e nem sempre é óbvia e imediata a forma de o resolver. Muitas vezes ouvimos do aluno: "É verdade!.. Agora percebi! Mas...não consigo fazer diferente." Nesse momento, respondo sempre "Que bom que já percebeste onde está o erro. É o primeiro passo para poder corrigi-lo. Enquanto achamos que está tudo bem, não há o que modificar e, consequentemente, não podemos melhorar." Então, procuramos as estratégias para solucionar o problema e uma parte essencial do nosso trabalho é, exatamente, perceber porque é que estamos a errar alguma passagem. Repetir vezes sem conta alguma coisa, quase como um autómato, nem sempre é a melhor estratégia. É preciso entender o que está a mais ou a menos. Podemos modificar alguma coisa no nosso gesto para melhorar o resultado sonoro? Mudar uma dedilhação? É a mão esquerda que está a atrapalhar, ou a direita? É uma questão de ritmo? Só quando percebemos isso, a verdadeira raíz do problema, é que realmente conhecemos o nosso erro e podemos corrigi-lo. Da mesma forma, só podemos mudar alguma coisa em nós a partir do momento em que admitimos e aceitamos que não é como gostaríamos que fosse e é bem mais fácil modificar algum comportamento, hábito ou forma de reagir quando percebermos de onde ele vem, qual a sua raíz.


7 - É possível mudar um hábito
  Todos conhecemos a velha máxima de "burro velho não aprende línguas". Aplicamos esta máxima não apenas a aprender qualquer nova habilidade mas também a todo o tipo de hábitos. Quantas vezes já ouvimos - ou nós mesmos já dissemos - "ah, eu sempre fui assim, não é agora que vou mudar." Por que não? Por que não agora? Não é fácil. Normalmente é até extremamente exigente. Mas é perfeitamente possível. Quando começamos a estudar uma peça, uma das primeiras coisas que definimos é a dedilhação. Nesse processo de escolher com qual dedo vamos tocar qual nota, vamos por tentativa e erro para perceber qual dedilhação melhor serve o que queremos fazer. Por vezes, em passagens difíceis, escolhemos uma dedilhação mas, a determinada altura do estudo, se os progressos tardam em aparecer ou se não estamos a atingir o nosso objetivo sonoro, optamos por mudar a dedilhação. Se, nesse momento, já tínhamos automatizado a dedilhação, ou seja, se os dedos já vão tocando "sozinhos", sem termos de racionalizar muito, a mudança é difícil. Em crianças, por exemplo, é uma tormenta tentar mudar uma dedilhação. Ouvimos logo "professora, já me habituei a fazer assim. Agora já não dá para mudar." (E, lamentavelmente, já lá está plantada a semente de "burro velho não aprende línguas".) Pois eu vos digo que não só dá, como muitas vezes, é a melhor coisa que podemos fazer. Quando nos decidimos por mudar uma dedilhação, passamos por um processo que exige a nossa total atenção. A mão quer fazer os movimentos A, B, C, mas a nossa cabeça, depois de ponderar as opções, escolheu o C, A, B. Cada vez que chegamos ali, a mão quer começar no A. A nossa cabeça assume o controle da situação e diz "Não, não é por aí." E coloca a mão no novo caminho escolhido. Podem ser poucas vezes ou dezenas de vezes. Pode resolver-se em um dia ou em vários. Depende muito. A única certeza é que a mudança de hábito acontece e a nova dedilhação torna-se tão automática e natural quanto a anterior. Mantendo a atenção e tomando o controle a cada vez que, automaticamente, caímos no mesmo hábito e substituindo-o, no mesmo momento, pelo que corresponde à nossa opção, será que este princípio não pode ser aplicado a qualquer coisa na vida, desde hábitos a traços de personalidade? Acredito que sim. Podemos escolher como reagir, como ser, como estar.

8- Resiliência
    Esta é uma palavra que nos últimos anos está em voga. Se procurarmos o significado literal, encontramos "propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica" Podemos dizer que resiliência é a nossa capacidade de "voltar ao jogo", a nossa capacidade de recuperação dos revezes. E como há revezes nesta atividade! Trabalhamos por meses para um único momento. As nossas horas de trabalho culminam em poucos minutos de música. Temos uma hipótese, uma só, para mostrar o que preparamos. Às vezes, esse momento é uma decepção enorme. Nada do que trabalhamos acontece. A memória trai-nos, os dedos embolam, a atenção dispersa, os nervos tomam conta. E, então, aprendemos a aceitar as coisas como elas são e a aproveitar esses momentos como enormes oportunidades para crescer e aprender. Por que as coisas correram como correram? O que podemos fazer de diferente para que, numa próxima oportunidade, a nossa performance seja melhor? Como ter a maturidade para aceitar que não estamos sempre no nosso melhor e isso não nos torna piores? Como não deixar que o ego nos enterre num poço escuro do qual sairemos com enorme dificuldade e dificilmente sem marcas? Como olhar as coisas pelo prisma do que podemos tirar de positivo, do que ganhamos e não do que perdemos?

9- Erros e acertos
     Em uma masterclass, ouvi um professor dizer: "os erros têm o valor que nós lhes damos: passa pelo erro como se nada fosse, e o público mal dará por ele; passa pelo erro a parar, corrigir, repisar, e o público sentirá o (enorme) peso que atribuímos a esse erro." É preciso desenvolver a maturidade necessária para lidar com o erro no momento da apresentação de forma a que nos mantenhamos centrados e não prejudiquemos a música. Da mesma forma, é preciso saber lidar com os acertos. Costumo dizer isso aos meus alunos: no momento da apresentação, não podemos deixar-nos levar pelas emoções de um erro ou de um acerto (numa passagem difícil e à qual precisamos dedicar mais tempo e trabalho). A música não pára, e ficar a pensar e lamentar um erro, é arriscar um outro erro em seguida; comemorar um acerto também tira o nosso foco e, não raras vezes, vem um erro tolo na sequência. Esta é uma lição que todos os grandes mestres nos transmitiram ao longo dos tempos: equanimidade da mente, ou seja, a capacidade de manter a tranquilidade, serenidade seja em que situação da vida for (boa ou má - ou melhor ainda, aceitar tudo apenas como "é", sem rotular de "bom" ou "mau"). Não sei por vocês, mas a mim parece-me um excelente objetivo de vida.

10 - O poder das crenças
     Há um fenómeno que acontece, por vezes, quando estudamos música. Por alguma distração ou precipitação, às vezes, lemos mal uma nota e introduzimo-la na nossa interpretação como se fosse a nota certa. O nosso ouvido vai-se habituando àquela sequência de sons. Para nós, aquela torna-se a sequência certa. Soa bem aos nossos ouvidos. Nem nos passaria pela cabeça que aquela não é a nota certa. Não questionamos. Aceitamos e acolhemos aquela nota como qualquer outra. De tal forma que, quando damos pelo erro e substituímos a nossa "nota certa" pela nota certa de facto, soa-nos...mal. A verdadeira nota certa não faz parte da sequência que interiorizámos. Ela soa-nos...errada. Quantas coisas na nossa vida aceitamos como certas sem nem questionar, porque sempre foi assim, ou "parece-nos" bem ou nos fizeram crer que é assim? Quem nos garante que a nossa crença é "certa" ou  mesmo "real"? Ainda assim, quanto das nossas crenças determina as nossas opções de vida? E, mais ainda, quanto das nossas crenças define o que consideramos ser o nosso limite? Ninguém conhece o seu próprio limite - quando achamos que atingimos um, logo outro surge no lugar. O que consideramos ser o nosso limite é aquilo que, inconsciente e erroneamente, nós próprios criamos. Na verdade, essa barreira estabelecida por nós ("isso não é para mim", "eu não consigo fazer isso", etc) não é real e só se torna real na medida em que acreditamos nela. A história de Roger Bannister é ilustrativa disso. Foi o primeiro homem a correr uma milha abaixo de 4 minutos, o que era considerado impossível para um ser humano e até perigoso para a saúde. No mês seguinte ao feito de Bannister, o record dele foi batido por outro atleta e, no ano seguinte, 15 outros corredores conseguiram quebrar essa barreira que se considerava, até Bannister, intransponível. Ao quebrar essa barreira mental coletiva, Bannister abriu as portas para que outros atletas, agora crentes de que era um objetivo possível, o atingissem também. Temos de analisar bem as nossas crenças e ver quais delas nos servem de âncoras. A partir do momento em que nos libertamos delas, nem o céu é o limite.

11 - O coração mostra o caminho
     Quando estudamos no Conservatório ou na Faculdade, temos um programa (de músicas) a cumprir. Nesse programa, nem tudo são peças que, imediatamente, são da nossa preferência. Algumas são, na verdade, o contrário: músicas com as quais não nos identificamos minimamente ou músicas que achamos realmente desinteressantes ou até mesmo feias. Ninguém consegue tocar uma música da qual não goste com um bom desempenho. Enquanto resistimos a gostar da música, não temos prazer a estudá-la, nem tão pouco conseguimos uma interpretação verdadeira, que convença o público. Para interpretar bem uma música, a nossa emoção, o nosso coração tem que estar lá. Aconteceu-me com uma peça contemporânea. Quando comecei a estudá-la parecia-me um puzzle. Não lhe encontrava sentido. Não lhe encontrava beleza. O meu professor orientou-me "procura algum elemento - harmonia, ritmo, melodia - da música com o qual te identifiques, qualquer um, e começa a colar a tua emoção ali". Comecei a abordar a música com curiosidade, a querer explorar alguma coisa mais ali. Já não me guiava pela resistência que tinha à música, mas por uma vontade de encontrar um elemento que me cativasse. Comecei a perceber a riqueza rítmica e a divertir-me com ela. Algumas passagens começaram a ter significado para mim. Depois comecei a entender a beleza e emotividade das frases. No final, foi um enorme desafio que me deu imenso prazer e que gostei imenso de tocar e de tentar mostrar ao público a sua beleza. Anos mais tarde, como já escrevi aqui, foi esse mesmo processo que me levou a perceber a beleza de São Paulo. A verdade é que a beleza está aí, por todo o lado, disfarçada de muitas e variadas formas: basta que saibamos como olhar para ela, e só de coração aberto isso pode acontecer. Como disse Carl Jung: aquilo a que resistimos, persiste.

12 - Fé
       O meu professor na Faculdade, quando estávamos a tocar as passagens mais difíceis e que mais receávamos, gritava entusiástico "Fé! Fé!" É preciso entrega para que as coisas aconteçam. Há um ditado árabe que diz "atira o teu coração para a frente e corre, logo em seguida, para o apanhares". Sem fé, ninguém  atira o coração ou, se atira, não o consegue agarrar de volta. Se nos encolhemos com medo, não somos bem sucedidos - como já escrevi neste post O público percebe o nosso constrangimento - e, tratando-se de um desporto, ceder ao medo é perigoso para a nossa integridade física. Temos de acreditar que estamos à altura do desafio, deixar as dúvidas de lado, e colocar-nos, inteiros, no que estamos a fazer. Nas palavras de Ricardo Reis:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

13 - Somos parte de um todo
       Uma das experiências mais enriquecedoras e especiais que podemos ter na música é fazer música de conjunto. Se estamos em cima de um palco, como parte de um coro, a cantar com uma orquestra sinfónica, a experiência é ainda mais plena. Somos vários indivíduos mas, na verdade, somos uma única entidade. Vários elementos que formam uma única estrutura - como cada célula do nosso corpo forma um ser. O público não ouve cada um de nós em particular: ouve todos como um só. Mais do que isso: o público, cada um dos elementos ali sentados, sente-se parte de uma coisa só, uns com os outros que estão a vivenciar a mesma experiência enquanto ouvintes e também com todos no palco. A música une. Todos nós já sentimos a enorme e incrível energia que se sente ao estar numa sala de concertos (seja de que género de música for). É real. Para mim, é isso que somos enquanto humanidade: vários elementos que formam uma entidade bem maior do que temos noção. Há muito mais que nos une do que nos separa. Somos todos um.


sábado, 4 de abril de 2020

Pensamento do dia

Sempre se disse que os olhos são o espelho da alma, que sorrimos e falamos com o olhar. Que possamos desenvolver cada vez mais essa habilidade enquanto os nossos sorrisos e expressões estiverem tapados por um pedaço de tecido.