terça-feira, 24 de novembro de 2020

Eu e o Théo




Nasceu no começo de 2019 - estima-se que no dia 8 janeiro. No penúltimo dia de março tornou-se o mais novo integrante da nossa família, por isso, decidimos adoptar o dia 30 de março para data comemorativa. Sugerimos todos os nomes possíveis e imagináveis. Mas era Theo que o Mateus queria. E Theo ficou.
No dia da adopção, parecia um anjinho. Estava lá num cantinho, sossegado. Fofo, fofo, fofo. "Podemos ver aquele?" Puseram-no no colo do meu marido e logo adormeceu. Depois ficou tranquilo no colo do Mateus. Os três olhávamos para ele enternecidos. Como resistir a tamanha fofurice? Ele dormia pacifica e tranquilamente como se o nosso colo fosse o seu lar. Logo percebemos que o Mateus já tinha feito a sua escolha. (E o Théo, aparentemente, também.) Quando o deitámos na cama na loja de animais, para testar se o tamanho era adequado, adormeceu, mais uma vez, ali mesmo - e compramos esse modelo de cama. Irresistível. Parecia um bichinho de peluche. Acho que foi o único dia da vida dele em que parecia ser um anjinho - vá, justiça seja feita, quando dorme ainda parece um anjinho. Mesmo depois de chegar à sua nova casa, continuou tranquilo, dorminhoco. Um doce.
Nas primeiras noites, tinha dificuldades para dormir a noite inteira e acordava muito, muito cedo. Realmente tínhamos, novamente, um bebé em casa, que não nos deixava dormir tanto quanto gostaríamos. Chegou pequenino. Tão pequeno que, durante o dia, adorava dormir escondido em baixo dos armários da cozinha. Insistiu em dormir lá até ficar entalado, alguns meses depois, e precisar de ajuda para sair por algumas vezes. Resignou-se à sua nova condição: passou a dormir ao lado do armário, só com a cabeça escondida em baixo dele. (Agora nem a cabeça dele cabe lá.) À noite, dormia num cantinho entre a nossa cama e a parede, com a cabeça igualmente enfiada em baixo da cama. Ainda hoje é um dos lugares preferidos dele para dormir, embora já não consiga enfiar a cabeça em baixo da cama - mas ainda consegue dormir em baixo da poltrona da sala, que ele usa como sua cabana.
A cama dele foi uma das primeiras vítimas: em poucos dias já tinha estragado o fecho e roído um dos cantos. Seguiram-se os pés das cadeiras da sala. Quando o deixámos sozinho em casa, arrancou pedaços de espuma de uma almofada. Em outra ocasião, cantos de lençóis e edredons - um dos lençóis ficou em frangalhos.
Sempre gostou de mordiscar e pular. O alvo predileto é, e sempre foi, o Mateus. Os dois fazem a festa, mas quase sempre acaba com reclamações das mordidas e arranhões.
É medroso. Gosta de passear, mas adora voltar para casa e, quando somos nós a sair, recebe-nos entusiasticamente, com pulos e mais pulos, como se não nos visse há meses!
Acho que o que mais gosta na vida é de comer. Claro que não a própria ração. Basta ouvir-nos na cozinha a mexer em alguma embalagem ou talheres e corre para lá para ver se vai ter sorte, e se nos vê a comer alguma coisa, senta-se, educada e pacientemente à nossa frente, implorando com o olhar - sim, aquele olhar tipo "Gato das Botas" - que partilhemos com ele . Qualquer coisa. Alguma coisa. Adora fruta, bolacha e macarrão cru - fica sorrateiramente à espreita todas as vezes que vamos colocar macarrão na panela, não vá algum pedacinho cair...- E cai mesmo, acho que de tanto que ele torce para que aconteça.
Apaixonei-me por ele logo no primeiro dia e ele, bebezinho, talvez sentindo o meu carinho por ele, seguia-me por todo o lado. Não podia nem ir à casa-de-banho que lá ficava ele a choramingar na porta. Hoje em dia, ainda me segue se vou estudar piano, por exemplo, e fica a chorar na porta se não o deixo entrar. À noite, quando percebe a nossa movimentação na sala e os diálogos, corre imediatamente para a porta do quarto do Mateus, e fica sentado a olhar para ela: já sabe que é hora de ir dormir e quer entrar para dar boa noite. Abrimos a porta do quarto, ele dispara para cima da cama e deita-se lá à nossa espera. Algumas vezes fica perto de nós enquanto lemos um pouco. Depois, o Mateus faz carinho nele, dá beijo de boa noite e ele volta para a sala. Connosco também tem sempre o mesmo ritual: espera que me deite e, só então, sobe também na cama e deita-se no meu lado esquerdo (em que a cama está encostada à parede) com o focinho em cima da minha barriga. Se, por acaso, não vai diretamente para o lado esquerdo, dizemos "Théo: lá no teu lugar" e ele, imediatamente, vai para lá. De manhã, se sente que o Sérgio se mexeu na cama e vai acordar, logo se levanta e abana o rabo como um tambor rápido e ritmado. Também adora deitar-se aninhado nas pernas do pai . Quando ouve o Mateus no quarto dele, sai em disparada para a porta para lhe dar bom dia. Adora brincar conosco no quintal com a bola dele - que, diga-se, já tem tantas partes mordiscadas que, tecnicamente, já não é exatamente uma bola - e, principalmente, com a nossa bola de futebol - que, definitivamente, já não é uma bola - que abocanha enquanto abana a cabeça vigorosamente de um lado para o outro - qual predador que exibe a sua presa nos dentes.
Quando ouve a campainha, ladra sem parar. Quando ouve as pessoas a falar na rua também. Sempre ladrou para a televisão desligada, pois vê nela o próprio reflexo. Não pode ver um papel ou guardanapo perdido por aí que logo os come como se se tratasse de um petisco saboroso. Não gosta de tomar banho e, principalmente, não gosta do secador. Também não gosta de ter o pêlo escovado - tenta, insistentemente, morder a escova, o que dificulta a nossa tarefa de o escovar.
É muito querido, companheiro e beijoqueiro. Mas não gosta de abraços nem apertões. Também não gosta que o Mateus se meta com ele quando está entretido a roer o seu osso. 
Sabe que o amamos. Sim, não tenho pudor de o dizer: amo o meu cão, nessa forma de amor única que existe entre nós, seres humanos, e eles, bichos de estimação (principalmente cães) que nos amam incondicionalmente e nos ensinam tanto sobre isso e também sobre a felicidade dos pequenos momentos partilhados. E se há coisa que eu gosto aqui no Brasil é que aqui eu não sou dona do Théo: aqui sou a mãe dele.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Eu e Tu


Mais de 90 imagens grátis de Pôr-Do-Sol Sobre O Mar e Mar - Pixabay


Percebo agora que eras Tu. Eras Tu quando eu acreditava que podia transpôr qualquer limite do meu corpo a cada pirueta, mortal, acrobacia ou demonstração de flexibilidade. Eras Tu quando eu sentia a pura  liberdade de voar e fazer com o corpo o que pareceria impossível pelas leis da física. Eras Tu quando eu fechava os olhos na praia e me deleitava nas cores e formas que me apareciam. Eras Tu a cada queda, a cada derrota e eras Tu em cada conquista. Eras Tu em cada caminho não tomado, em cada pedra no caminho, a cada encontro e desencontro. Percebo agora. És Tu a cada harmonia e melodia que me arrepia a espinha. És Tu em cada livro, cada frase ou poema que me fala ao coração. És Tu numa bebida quente no inverno e numa bebida gelada no verão. És Tu no perfume das flores, no cheiro da maresia e da relva molhada. És Tu quando o meu cão deita o focinho no meu colo, no canto do sabiá e no vôo planado da gaivota. És Tu num bom filme ou obra de arte, e na energia inigualável de um evento desportivo ou de um concerto. És Tu no amor, na paixão e na amizade e és Tu na ausência deles. És Tu a cada pôr-do-sol ou lua cheia que me faz parar. És Tu nas cores do arco-íris, nas ondas do mar e na leve brisa que me acaricia o rosto nas tardes abafadas. És Tu no azul do céu, nas nuvens desenhadas e nas estrelas cintilantes. És Tu nos campos de girassóis, nos ramos das  árvores que dançam ao sabor da aragem, nas cores das folhas de outono e também na neve e na chuva que nos impressiona com a bela coreografia que faz no chão. És Tu nos vitrais da Igreja, no cume da montanha e no grão de areia. És Tu no sorriso do meu filho, nas horas de brinquedos espalhados no chão e és Tu nos desafios da convivência. És Tu no abraço de quem amamos, no encontro de almas e corpos, nas gargalhadas de doer a barriga, nas lágrimas de alegria e nas de tristeza também. És Tu na cereja doce, no pão quente com manteiga e no bolo acabado de fazer. És Tu no trabalho, no descanso, na dádiva e na perda. És Tu quando ajudamos e Tu quando somos ajudados. És Tu a cada coincidência, acaso e plano que não dá certo. És Tu nos acertos e nos erros (que são dádivas para nos fazer evoluir). És Tu na esperança e és Tu no desespero. És Tu na intuição, no sonho e na visão. És tu na inspiração e na respiração e no ténue e precioso espaço entre cada uma delas. És Tu na imensa escuridão dos olhos fechados e no silêncio que lá encontramos. És Tu o Começo e o Fim. És Tu Aqui, Ali, Agora, Antes e Depois. Percebo agora que eras Tu. És Tu. Percebo agora. Sou Eu.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Eu e as coisas que aprendemos com a Música

Quando estudamos um instrumento musical, além do prazer que, por si só, é fazer música, é sabido que, paralelamente, desenvolvemos várias habilidades. Há vários estudos científicos a respeito disso, do quanto o cérebro se desenvolve, de como a coordenação motora se aprimora, de como melhoramos a nossa capacidade de concentração, etc. Eu quero falar-vos de outras quantas que são apenas fruto da minha experiência pessoal. (E quem não é músico, mas é ou foi desportista de competição, encaixa-se igualmente na maioria dos itens.)

1- Paciência, perseverança e disciplina
    Quando alguém (que nunca estudou música) ouve uma música interpretada de forma sublime, provavelmente não imagina as dezenas, centenas de horas de trabalho que estão ali. As centenas, milhares de vezes que algumas passagens foram exaustivamente repetidas. Algumas passagens demoram semanas, meses, até se parecer com o que procuramos, até os dedos nos obedecerem. Algumas são tão difíceis que demora até acertarmos uma vez que seja. Depois demora a acertar a segunda. Aos poucos, vamos reduzindo a margem de erro. "Isto é impossível!" é um pensamento que nos ocorre algumas vezes. Mas não há impossíveis. As coisas só são impossíveis enquanto não tentámos o suficiente. Às vezes fazemos o nosso trabalho por dias, semanas, sem parecer que nada está a acontecer, que não há a menor evolução. E, um dia, acordamos, sentamo-nos ao piano, e tudo começa a fluir. Como se a semente do trabalho dos dias ou semanas antes começasse, naquele momento, a dar frutos. A música (e o desporto) ensinam-nos que temos que confiar no processo: fazer o trabalho, dar o nosso melhor, que o resultado aparece. Mesmo quando parece impossível, o difícil torna-se fácil (ou, pelo menos, acessível) se tentarmos o suficiente (com método, claro). Esse é outro ponto crucial: nada acontece sem disciplina. É preciso trabalhar com regularidade, empenho e dedicação. Mesmo quando não apetece Ou, aliás, principalmente quando não apetece. É nesses dias que ganhamos pontos na força de vontade. O meu professor costumava dizer que a Música não tem culpa se estamos ou não com ânimo, com problemas pessoais ou não. Que temos que nos fazer presentes, inteiros, deixar o resto de lado e entregarmos o trabalho - e mesmo nas coisas que não apetece tanto, como escalas, arpejos, exercícios técnicos, o nosso empenho e alegria de descobrir devem ser os mesmos.  Foi com o meu filho que melhor entendi esta lição...Uma criança não tem culpa se não estamos no nosso melhor dia: ela precisa de nós, inteiros, dedicados. Sempre. 

2 - Tudo começa na nossa mente
      Uma das coisas mais importantes para se conseguir uma boa interpretação (ou uma boa execução desportiva) é planear e optimizar cada gesto. Antes de se materializar, o gesto já está delineado, já existe na nossa mente. Cada gesto, por sua vez, serve um objetivo que o impulsiona. No caso da música: o gesto serve o som. O som, por sua vez, antes de se fazer ouvir, já existe, igualmente, em potencial, na nossa mente. Se fecharmos os olhos, conseguimos "ouvir" claramente o que queremos ouvir (de facto). É essa ideia que temos, que nos faz procurar o som e, é ao procurá-lo, que encontramos o gesto que melhor lhe serve. Se não temos essa projeção sonora idealizada na nossa mente (e o gesto que lhe corresponde), seremos sempre surpreendidos pelo som que produzirmos. Por outro lado, quando antecipamos cada som (na nossa mente), é como trazer para a esfera da realidade o som que já estava a pairar, em algum lugar, à espera de ganhar vida. De alguma forma, como se esse som já existisse, e nós apenas o tornamos...audível. Tudo começa com uma ideia. E, se pararmos para pensar, é assim em tudo na vida. Como alguém disse "As coisas são sempre criadas duas vezes: primeiro na mente, e depois na realidade física." Ou, como disse Einstein " A imaginação é mais importante que o conhecimento."

3 - Estar no momento presente
     Creio que, para além da meditação, as atividades que mais nos trazem para o momento presente são a música e o desporto. Imagine-se alguém enfrentar uma onda gigante da Nazaré e não estar focado no momento? Alguém estar em cima da trave para fazer um mortal e ter o pensamento no jantar? Alguém estar no palco a interpretar uma sonata de Beethoven com o pensamento nas contas que tem para pagar no dia seguinte? Estas atividades exigem foco total e, consequentemente, deixam-nos totalmente enraizados no Presente. Em qual momento do nosso dia-a-dia podemos dizer o mesmo? Momentos em que os pensamentos não vagueiam, em que o magnetismo do passado e do futuro não exercem influência sobre nós? Essa é a razão pela qual nos sentimos tão completos nesses momentos. Porque apenas Somos. Estamos ali, autênticos, despojados de quem fomos, de quem achamos que somos ou que deveríamos ser, do que temos ou não temos ou achamos que deveríamos ter. Fica apenas o nosso Ser, mais genuinamente autêntico e inequivocamente real. É por isso que tantos desportistas ou músicos sentem que ali, naqueles momentos, é onde se sentem mais felizes, é onde se sentem mais eles mesmos. E é. Isto porque estar focado ali, naquele instante, leva-os à sua verdadeira essência, liberta de quaisquer rótulos ou condicionalismos. Puro Ser. Indizível e indescritível. É por isso que muitos se sentem completamente perdidos quando deixam de fazer essas atividades: não encontraram outra forma de ter acesso a essa essência.
(P.S.Observem uma criança pequena a brincar, a descobrir o mundo: é uma das maiores aulas de como viver no Presente que podemos ter.)

4 - Há mais (para) além dos nossos sentidos
     A experiência de nos entregarmos totalmente a uma atividade, com a mente consciente no presente, não raras vezes, leva-nos a momentos de flow ou até de estados de consciência elevados. Todos nós, em algum momento da nossa vida, já vivenciamos isso. Momentos em que o tempo pára. Em que tudo parece deixar de existir. Sem tempo, sem espaço. É nesses momentos de flow que estamos totalmente alinhados com o nosso Ser e o que quer que estejamos a realizar, fazemo-lo no mais alto nível das nossas capacidades. (Se preferirem, chamem-lhe inspiração.) Esses momentos podem levar-nos a lugares que estão muito para além dos nossos sentidos. Quase podemos tocar o Divino... E essa é uma enorme motivação para continuar à procura - e não será essa a própria essência da Arte e de altas performances: encontrar o Divino em nós, ir além da nossa existência corpórea, das nossas (pretensas) limitações?


5 - Respirar fundo e voltar a tentar
     Muitas vezes deparamo-nos com um desafio no estudo. Tentamos uma, outra, outra e outra vez. A sucessão de erros e falhas começa a deixar-nos enervados. Quanto mais nos enervamos, menos acertamos. Ao longo dos anos, aprendi que, muitas vezes, a melhor forma de resolver um problema é afastarmo-nos um pouco, respirar fundo, tirar a mente do problema. Não raras vezes, percebi que, se parasse de estudar uma peça por um dia, no outro dia, subitamente, tudo parecia... menos complexo. Quando tiramos o nosso foco do problema, muitas vezes, aparece a solução. Como disse Einstein: "não podemos resolver os nossos problemas com a mesma mentalidade de quando os criamos". Em quantas situações na vida podemos aplicar este princípio...


6 - Só podemos corrigir aquilo que sabemos que está errado
     Muitas vezes acontece chamarmos a atenção do aluno (ou saltar à nossa atenção quando ouvimos uma gravação de algo que estamos a estudar) para determinado detalhe: uma nota que está mais forte do que devia, uma nota que está a deixar um buraco sonoro, uma imprecisão no ritmo ou mesmo um desequilíbrio sonoro entre as duas mãos. E eis que, a partir do momento em que a nossa atenção foi para aquele detalhe, ele salta-nos à vista como quando descobrimos os 7 erros numa charada: do nada, fica escancarado nos nossos ouvidos. Como nunca tínhamos percebido? E agora que já percebemos, parece-nos quase grosseiro e nem sempre é óbvia e imediata a forma de o resolver. Muitas vezes ouvimos do aluno: "É verdade!.. Agora percebi! Mas...não consigo fazer diferente." Nesse momento, respondo sempre "Que bom que já percebeste onde está o erro. É o primeiro passo para poder corrigi-lo. Enquanto achamos que está tudo bem, não há o que modificar e, consequentemente, não podemos melhorar." Então, procuramos as estratégias para solucionar o problema e uma parte essencial do nosso trabalho é, exatamente, perceber porque é que estamos a errar alguma passagem. Repetir vezes sem conta alguma coisa, quase como um autómato, nem sempre é a melhor estratégia. É preciso entender o que está a mais ou a menos. Podemos modificar alguma coisa no nosso gesto para melhorar o resultado sonoro? Mudar uma dedilhação? É a mão esquerda que está a atrapalhar, ou a direita? É uma questão de ritmo? Só quando percebemos isso, a verdadeira raíz do problema, é que realmente conhecemos o nosso erro e podemos corrigi-lo. Da mesma forma, só podemos mudar alguma coisa em nós a partir do momento em que admitimos e aceitamos que não é como gostaríamos que fosse e é bem mais fácil modificar algum comportamento, hábito ou forma de reagir quando percebermos de onde ele vem, qual a sua raíz.


7 - É possível mudar um hábito
  Todos conhecemos a velha máxima de "burro velho não aprende línguas". Aplicamos esta máxima não apenas a aprender qualquer nova habilidade mas também a todo o tipo de hábitos. Quantas vezes já ouvimos - ou nós mesmos já dissemos - "ah, eu sempre fui assim, não é agora que vou mudar." Por que não? Por que não agora? Não é fácil. Normalmente é até extremamente exigente. Mas é perfeitamente possível. Quando começamos a estudar uma peça, uma das primeiras coisas que definimos é a dedilhação. Nesse processo de escolher com qual dedo vamos tocar qual nota, vamos por tentativa e erro para perceber qual dedilhação melhor serve o que queremos fazer. Por vezes, em passagens difíceis, escolhemos uma dedilhação mas, a determinada altura do estudo, se os progressos tardam em aparecer ou se não estamos a atingir o nosso objetivo sonoro, optamos por mudar a dedilhação. Se, nesse momento, já tínhamos automatizado a dedilhação, ou seja, se os dedos já vão tocando "sozinhos", sem termos de racionalizar muito, a mudança é difícil. Em crianças, por exemplo, é uma tormenta tentar mudar uma dedilhação. Ouvimos logo "professora, já me habituei a fazer assim. Agora já não dá para mudar." (E, lamentavelmente, já lá está plantada a semente de "burro velho não aprende línguas".) Pois eu vos digo que não só dá, como muitas vezes, é a melhor coisa que podemos fazer. Quando nos decidimos por mudar uma dedilhação, passamos por um processo que exige a nossa total atenção. A mão quer fazer os movimentos A, B, C, mas a nossa cabeça, depois de ponderar as opções, escolheu o C, A, B. Cada vez que chegamos ali, a mão quer começar no A. A nossa cabeça assume o controle da situação e diz "Não, não é por aí." E coloca a mão no novo caminho escolhido. Podem ser poucas vezes ou dezenas de vezes. Pode resolver-se em um dia ou em vários. Depende muito. A única certeza é que a mudança de hábito acontece e a nova dedilhação torna-se tão automática e natural quanto a anterior. Mantendo a atenção e tomando o controle a cada vez que, automaticamente, caímos no mesmo hábito e substituindo-o, no mesmo momento, pelo que corresponde à nossa opção, será que este princípio não pode ser aplicado a qualquer coisa na vida, desde hábitos a traços de personalidade? Acredito que sim. Podemos escolher como reagir, como ser, como estar.

8- Resiliência
    Esta é uma palavra que nos últimos anos está em voga. Se procurarmos o significado literal, encontramos "propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica" Podemos dizer que resiliência é a nossa capacidade de "voltar ao jogo", a nossa capacidade de recuperação dos revezes. E como há revezes nesta atividade! Trabalhamos por meses para um único momento. As nossas horas de trabalho culminam em poucos minutos de música. Temos uma hipótese, uma só, para mostrar o que preparamos. Às vezes, esse momento é uma decepção enorme. Nada do que trabalhamos acontece. A memória trai-nos, os dedos embolam, a atenção dispersa, os nervos tomam conta. E, então, aprendemos a aceitar as coisas como elas são e a aproveitar esses momentos como enormes oportunidades para crescer e aprender. Por que as coisas correram como correram? O que podemos fazer de diferente para que, numa próxima oportunidade, a nossa performance seja melhor? Como ter a maturidade para aceitar que não estamos sempre no nosso melhor e isso não nos torna piores? Como não deixar que o ego nos enterre num poço escuro do qual sairemos com enorme dificuldade e dificilmente sem marcas? Como olhar as coisas pelo prisma do que podemos tirar de positivo, do que ganhamos e não do que perdemos?

9- Erros e acertos
     Em uma masterclass, ouvi um professor dizer: "os erros têm o valor que nós lhes damos: passa pelo erro como se nada fosse, e o público mal dará por ele; passa pelo erro a parar, corrigir, repisar, e o público sentirá o (enorme) peso que atribuímos a esse erro." É preciso desenvolver a maturidade necessária para lidar com o erro no momento da apresentação de forma a que nos mantenhamos centrados e não prejudiquemos a música. Da mesma forma, é preciso saber lidar com os acertos. Costumo dizer isso aos meus alunos: no momento da apresentação, não podemos deixar-nos levar pelas emoções de um erro ou de um acerto (numa passagem difícil e à qual precisamos dedicar mais tempo e trabalho). A música não pára, e ficar a pensar e lamentar um erro, é arriscar um outro erro em seguida; comemorar um acerto também tira o nosso foco e, não raras vezes, vem um erro tolo na sequência. Esta é uma lição que todos os grandes mestres nos transmitiram ao longo dos tempos: equanimidade da mente, ou seja, a capacidade de manter a tranquilidade, serenidade seja em que situação da vida for (boa ou má - ou melhor ainda, aceitar tudo apenas como "é", sem rotular de "bom" ou "mau"). Não sei por vocês, mas a mim parece-me um excelente objetivo de vida.

10 - O poder das crenças
     Há um fenómeno que acontece, por vezes, quando estudamos música. Por alguma distração ou precipitação, às vezes, lemos mal uma nota e introduzimo-la na nossa interpretação como se fosse a nota certa. O nosso ouvido vai-se habituando àquela sequência de sons. Para nós, aquela torna-se a sequência certa. Soa bem aos nossos ouvidos. Nem nos passaria pela cabeça que aquela não é a nota certa. Não questionamos. Aceitamos e acolhemos aquela nota como qualquer outra. De tal forma que, quando damos pelo erro e substituímos a nossa "nota certa" pela nota certa de facto, soa-nos...mal. A verdadeira nota certa não faz parte da sequência que interiorizámos. Ela soa-nos...errada. Quantas coisas na nossa vida aceitamos como certas sem nem questionar, porque sempre foi assim, ou "parece-nos" bem ou nos fizeram crer que é assim? Quem nos garante que a nossa crença é "certa" ou  mesmo "real"? Ainda assim, quanto das nossas crenças determina as nossas opções de vida? E, mais ainda, quanto das nossas crenças define o que consideramos ser o nosso limite? Ninguém conhece o seu próprio limite - quando achamos que atingimos um, logo outro surge no lugar. O que consideramos ser o nosso limite é aquilo que, inconsciente e erroneamente, nós próprios criamos. Na verdade, essa barreira estabelecida por nós ("isso não é para mim", "eu não consigo fazer isso", etc) não é real e só se torna real na medida em que acreditamos nela. A história de Roger Bannister é ilustrativa disso. Foi o primeiro homem a correr uma milha abaixo de 4 minutos, o que era considerado impossível para um ser humano e até perigoso para a saúde. No mês seguinte ao feito de Bannister, o record dele foi batido por outro atleta e, no ano seguinte, 15 outros corredores conseguiram quebrar essa barreira que se considerava, até Bannister, intransponível. Ao quebrar essa barreira mental coletiva, Bannister abriu as portas para que outros atletas, agora crentes de que era um objetivo possível, o atingissem também. Temos de analisar bem as nossas crenças e ver quais delas nos servem de âncoras. A partir do momento em que nos libertamos delas, nem o céu é o limite.

11 - O coração mostra o caminho
     Quando estudamos no Conservatório ou na Faculdade, temos um programa (de músicas) a cumprir. Nesse programa, nem tudo são peças que, imediatamente, são da nossa preferência. Algumas são, na verdade, o contrário: músicas com as quais não nos identificamos minimamente ou músicas que achamos realmente desinteressantes ou até mesmo feias. Ninguém consegue tocar uma música da qual não goste com um bom desempenho. Enquanto resistimos a gostar da música, não temos prazer a estudá-la, nem tão pouco conseguimos uma interpretação verdadeira, que convença o público. Para interpretar bem uma música, a nossa emoção, o nosso coração tem que estar lá. Aconteceu-me com uma peça contemporânea. Quando comecei a estudá-la parecia-me um puzzle. Não lhe encontrava sentido. Não lhe encontrava beleza. O meu professor orientou-me "procura algum elemento - harmonia, ritmo, melodia - da música com o qual te identifiques, qualquer um, e começa a colar a tua emoção ali". Comecei a abordar a música com curiosidade, a querer explorar alguma coisa mais ali. Já não me guiava pela resistência que tinha à música, mas por uma vontade de encontrar um elemento que me cativasse. Comecei a perceber a riqueza rítmica e a divertir-me com ela. Algumas passagens começaram a ter significado para mim. Depois comecei a entender a beleza e emotividade das frases. No final, foi um enorme desafio que me deu imenso prazer e que gostei imenso de tocar e de tentar mostrar ao público a sua beleza. Anos mais tarde, como já escrevi aqui, foi esse mesmo processo que me levou a perceber a beleza de São Paulo. A verdade é que a beleza está aí, por todo o lado, disfarçada de muitas e variadas formas: basta que saibamos como olhar para ela, e só de coração aberto isso pode acontecer. Como disse Carl Jung: aquilo a que resistimos, persiste.

12 - Fé
       O meu professor na Faculdade, quando estávamos a tocar as passagens mais difíceis e que mais receávamos, gritava entusiástico "Fé! Fé!" É preciso entrega para que as coisas aconteçam. Há um ditado árabe que diz "atira o teu coração para a frente e corre, logo em seguida, para o apanhares". Sem fé, ninguém  atira o coração ou, se atira, não o consegue agarrar de volta. Se nos encolhemos com medo, não somos bem sucedidos - como já escrevi neste post O público percebe o nosso constrangimento - e, tratando-se de um desporto, ceder ao medo é perigoso para a nossa integridade física. Temos de acreditar que estamos à altura do desafio, deixar as dúvidas de lado, e colocar-nos, inteiros, no que estamos a fazer. Nas palavras de Ricardo Reis:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

13 - Somos parte de um todo
       Uma das experiências mais enriquecedoras e especiais que podemos ter na música é fazer música de conjunto. Se estamos em cima de um palco, como parte de um coro, a cantar com uma orquestra sinfónica, a experiência é ainda mais plena. Somos vários indivíduos mas, na verdade, somos uma única entidade. Vários elementos que formam uma única estrutura - como cada célula do nosso corpo forma um ser. O público não ouve cada um de nós em particular: ouve todos como um só. Mais do que isso: o público, cada um dos elementos ali sentados, sente-se parte de uma coisa só, uns com os outros que estão a vivenciar a mesma experiência enquanto ouvintes e também com todos no palco. A música une. Todos nós já sentimos a enorme e incrível energia que se sente ao estar numa sala de concertos (seja de que género de música for). É real. Para mim, é isso que somos enquanto humanidade: vários elementos que formam uma entidade bem maior do que temos noção. Há muito mais que nos une do que nos separa. Somos todos um.


sábado, 4 de abril de 2020

Pensamento do dia

Sempre se disse que os olhos são o espelho da alma, que sorrimos e falamos com o olhar. Que possamos desenvolver cada vez mais essa habilidade enquanto os nossos sorrisos e expressões estiverem tapados por um pedaço de tecido.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Eu e os outros (ou: Nós)

Hoje cortei as unhas com o corta-unhas. Todas elas. Os cinco dedos de cada mão. Estão todas cortadas (mais ou menos) por igual. Há cerca de uma semana atrás já tinha feito esse ritual. E na semana anterior também.
Vocês podem estar a perguntar-se o que isso tem de tão especial que mereça aqui registo. Bom,
a única vez em que isso aconteceu, com esta regularidade e consistência, nos últimos 25 anos foi há mais de 10 anos atrás. Foi logo na sequência de saber que estava grávida. A médica advertiu-me: "Joana, não pode roer as unhas agora. É perigoso para o bebé." Desde esse dia até ao nascimento do Mateus não roí uma única unha e sem o menor esforço ou dificuldade. Depois dele nascer, infelizmente, aos poucos, retomei esse péssimo hábito. Nos últimos 2 anos, diminuí bastante, mas não consegui livrar-me em absoluto. Não até agora. A ameaça do coronavírus paira sobre todos nós. Evitamos o mais possível tocar no rosto, que dirá roer as unhas? Sem hesitar mudei esse hábito. Mais uma vez, fi-lo sem o menor esforço, praticamente sem necessidade de me policiar. Não tenho medo de ficar doente por mim. (Ainda) Sou jovem e saudável e, por isso, acredito que não ficaria em maus lençóis - embora tenha consciência que, com este vírus, tudo pode acontecer. Preocupo-me, sim, pelos outros, pelas pessoas que me são próximas e a quem só desejo bem. Preocupo-me pelos outros que, conhecendo ou não, eu pudesse vir a prejudicar. Preocupo-me não por mim, mas pelos outros. Isso faz toda a diferença. Assim como há 10 anos me preocupava com o Mateus, o meu bebé. Quando pensamos nos outros, sem dúvida alguma, somos a melhor versão de nós mesmos. Somos mais fortes, mais focados, mais dedicados, mais gentis, mais completos, mais felizes. Ser altruísta é como ter um boomerang nas mãos: atiramos o melhor de nós e a vida devolve-nos no sentimento de realização e felicidade que isso nos traz. Quanto mais damos, mais temos para dar, porque quanto mais damos, mais somos. E quanto mais somos, mais queremos Ser. Nas palavras de Mahatma Gandhi

"O melhor modo de se encontrar a si mesmo é perder-se a servir aos outros." 

Acrescento: quando servimos aos outros, servimos a nós próprios, e daí não advém qualquer tipo de egoísmo, pois se  há coisa que já podemos concluir de tudo o que estamos a viver nestes tempos difíceis é que a grande maioria de nós andava a viver um grande equívoco: não existe (eu e) o outro. Estamos todos juntos neste barco. Somos todos parte da mesma coisa. Só existe "Nós". Estamos todos interligados. Sabem aquele velha história de uma borboleta bater as asas e, no outro lado do mundo, provoca uma tempestade? Pois é: no outro lado do mundo, alguém come alguma coisa e o mundo inteiro fica virado de cabeça para baixo. Ao seu lado alguém espirra e outro alguém fica doente. Alguém usa uma máscara e protege vários de adoecer. Alguém se faz presente, mesmo à distância, e faz-nos sorrir. Alguém fica em casa e garante a segurança de todos. Todos. Estamos todos juntos nisto. Somos um imenso organismo de mais de 7 biliões de elementos que, mais do que nunca, tem de agir em consonância. 
Que este seja um tempo de acordar, de elevar a nossa consciência e que cada um de nós possa encontrar-se. Em pequenos gestos. Em grandes sacrifícios. (Nós) Vamos ficar todos bem.


sexta-feira, 6 de março de 2020

Nós e os bastidores da Gulbenkian

A Sala São Paulo é um dos meus lugares preferidos em São Paulo. Além da sala de concertos ser incrível, com uma acústica muito especial - e a OSESP é uma excelente orquestra -, o edifício é muito bonito, uma estética impressionante, num estilo neoclássico, que mistura elementos do passado com elementos modernos.
Ontem fiz a visita guiada ao edifício. É um programa que vale a pena fazer. Já no final da visita, dentro da sala de espetáculos, a guia explicava o funcionamento de várias coisas, entre elas, um estrado que sobe e desce no palco e que serve para elevar o piano de cauda. "Lá em baixo, existe uma sala especial, de manutenção, onde guardamos diversos instrumentos e materiais." No mesmo instante, veio à minha memória uma sala idêntica em que estive há muitos, muitos anos atrás - diria que cerca de 25 anos. A memória é uma coisa curiosa: lembramo-nos das coisas não exatamente como elas aconteceram, mas de acordo com a narrativa que fomos construindo com o passar do tempo. Se é verdade que "quem conta um conto, acrescenta um ponto", nós mesmos, frequentemente, acrescentamos ou subtraímos pontos nas histórias que contamos a nós mesmos. A memória que tenho daquele dia é cheia de espaços em branco. Lembro-me daquele dia como me lembro do que sonhei ontem: algumas partes com mais nitidez, outras nebulosas e, de um modo geral, cheia de cortes abruptos entre uma cena e outra. (Aliás, essa semelhança entre o que sonhamos/imaginamos e o que realmente vivenciamos é muito interessante: a mente recorda da mesma forma aquilo que vivemos e é real, digamos assim, e aquilo que sonhamos ou planeamos para o futuro... Como dizia Shakespeare "Somos feitos da mesma matéria dos sonhos".)
Naquele dia, o que tenho a certeza é que estávamos na Gulbenkian. Era a 8ª Sinfonia de Mahler e nós, enquanto Coro Infantil, participávamos apenas em alguns momentos da obra, por isso, não ficávamos o tempo inteiro no palco: aguardávamos pela nossa participação em uma sala - acho que a sala em que o Coro Gulbenkian normalmente ensaiava - com as queridas funcionárias Isabelita e a Guarete. Não sei quem teve a brilhante ideia mas, a dada altura, achámos que era interessante dar uma voltinha por ali, explorar a Gulbenkian. A sala tinha tantas crianças cheias de energia - coitadas da Isabelita e da Guarete - que, nem deram por sairmos de lá. Não me lembro exatamente qual era o grupo. Acredito que as de sempre: eu, Ana, Andrea, Inês, Margarida, Mariana, Raquel, Rita F., Rita G. Tão pouco me lembro que caminho fizemos ou quem liderou as "tropas". Sei que fomos andando por portas e corredores e, inclusivamente, tenho uma vaga ideia de termos andado de gatas num corredor para não sermos vistas! Tanto andamos que chegamos a uma sala que parecia uma espécie de arrecadação e, segundo o que me lembro, tinha vários instrumentos de percussão. Ali andávamos a explorar o espaço e alguém comentou algo como "Já repararam que se ouve uma música por aqui?" Ouvia-se, ao longe. Até que... algum tutti da orquestra que fez tudo ressoar ali nos despertou "Estamos em baixo do palco!!!" Corremos dali. Andamos vá imaginar-se por onde, e recordo-me depois de estarmos sentadas a conversar numa sala ampla, com pouca luz e vazia. Seria algum espaço do Museu Gulbenkian? O que conversámos? Não faço ideia. Quem achou que era melhor voltar? Muito menos. Quem sabia como encontrar o caminho de volta à sala onde estavam todos os nossos colegas? Não sei, mas chegamos a tempo e horas. Mais uma vaga ideia: de algum colega (talvez o André G. ou o Nuno L.) ter perguntado por onde tínhamos andado e, após a nossa explicação, ter comentado "Vocês são malucas." E fomos mesmo, mas depois de tanta inconsciência, entramos no palco com todos eles e vivemos o que, tenho a certeza, foi uma das experiências mais marcantes das nossas vidas: a parte final da "Sinfonia dos Mil" de Mahler. Se me recordo com exatidão daqueles minutos? Não, mas guardo comigo até hoje a emoção de fazer parte daquela imensa massa sonora. Somos privilegiados por ter vivido aquela experiência. Aquela sensação incrível de ser parte de uma coisa maior. As memórias que mais nos acompanham são aquelas que estão carregadas de emoção e, acredito que todos nós, quando ouvimos aquele "Alles Vergängliche ist nur ein gleichnis" de Goethe, no final da Sinfonia, nos arrepiamos até à medula. Curiosamente, essa frase pode ser traduzida como:

Tudo o que passa
É mera aparência

Ou:

O que não é eterno
É apenas uma alegoria.


Tudo aquilo é eterno para nós.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Eu e o medo

Sou apaixonada por ginástica artística desde que me entendo por gente. Acho que as minhas memórias mais recônditas são relacionadas à ginástica: com 2 ou 3 anos de idade, vidrada na televisão a ver os campeonatos. Depois de anos a pedir aos meus meus pais, prestes a completar 6 anos comecei, finalmente, a praticar. Era a minha grande paixão. Adorava ir para os treinos. Aliás, o pior castigo que me podiam dar era proibir-me de ir ao treino.
Nos 7 ou 8 anos em que fui atleta de competição, fui colecionando preciosas lições que trago comigo para a vida. Uma das principais é sobre o medo. Lembro-me claramente de, nos primeiros anos da ginástica, não sentir medo de nada. Absolutamente nada. Tudo era uma aventura, descoberta, tudo era novidade, cativante. A treinadora explicava o movimento novo que íamos fazer e nós, pequenas e inconscientes, atirávamo-nos sem pestanejar! Não havia hesitações. Apenas um enorme entusiasmo de fazer uma coisa nova, impensável até àquele momento. "Vamos fazer pirueta." O nosso pensamento era "Boa!" Tudo o que fosse novo, ousado, era simplesmente incrível para nós. O problema surge quando os pensamentos começam a trair-nos. Em algum momento, quando a treinadora explicava o que íamos fazer, apesar de me sentir motivada para fazer uma coisa nova, também sentia um friozinho na barriga e várias imagens surgiam, inadvertidamente, na minha cabeça de tudo o que podia correr mal "E se o pé escapar? E se não subir o suficiente? E se?.. E se?.." Pior ainda era quando caíamos mal a fazer algum movimento. Depois de verificar se não nos tínhamos magoado, a primeira coisa que nos diziam era " Vai lá e faz novamente." Logo em seguida. Sem nos dar muito tempo para pensar. Mas como os pensamentos ficavam velozes nesses momentos! Lá vinham todos aqueles cenários desfavoráveis. Tremia por dentro. Oscilava entre "Vamos lá: eu sou capaz!" e "Eu não consigo. Não consigo." E então vem a segunda parte da lição: realmente o medo tinha de ser vencido ali, na mesma hora. Quanto mais deixava passar, mais difícil ficava, mais o medo se instalava em mim e mais força eu tinha de ter para o vencer. Lá ficava eu, a ganhar coragem, naquele "vou" "não vou".  No momento em que, finalmente, me decidia por fazer o que tinha de fazer, enfrentava a última parte da lição: quando decidimos que vamos, vamos! Todas as hesitações ficam para trás. Só há um caminho possível: foco total na direção do nosso objetivo. Não dá para tentar fazer um mortal para a frente na trave e arrependermo-nos a meio do caminho. É queda certa e, provavelmente, bem feia.Tal como acontece quando estamos a preparar uma música nova. Há passagens que nos desafiam, que são tecnicamente difíceis. Quando, na música, começamos a aproximar-nos daquelas passagens, a mente já começa a vagar a 300 km/h. Uma hesitação, um momento de dúvida e teremos a passagem "suja". Se nos "encolhermos", a passagem pode até não ter erros, mas não cativará ninguém que nos ouça. É preciso esquecer o medo e colocar-se inteiro ali, com fé, como dizia o meu professor. Imaginem que, num parque aquático, subimos lances e lances de escadas para descer por um escorrega radical. Chegamos lá a cima, olhamos para baixo, e hesitamos. Ainda assim, optamos por escorregar mas, no meio do caminho, arrependemo-nos e começamos a tentar segurar-nos de qualquer forma, parar. Impossível! Tentar parar num situação dessas só vai ter resultados nefastos para nós. Por isso, quando decidimos que vamos, vamos com tudo, com todas as nossas forças! Deixamo-nos ir. Quantas conquistas alcançamos ao vencer os nossos medos naquele ginásio? Quantas conquistas alcançamos na vida por vencer os nossos medos e inseguranças? Não são os nossos medos que nos definem, mas a nossa coragem e audácia para os ultrapassar. Essas, sim, vão definir até onde podemos chegar. E a verdade é que ninguém conhece os seus limites até os testar. Teste-os novamente e encontrará novos limites, um pouco mais além. Logo ali, depois do medo, está a nova saída da trave, a nova pirueta no solo, o novo emprego, a nova relação, o filho, a experiência inesquecível de pular de paraquedas, subir uma montanha ou mergulhar no oceano, a nova manobra no skate, a nova amizade, o perdão, a nova receita, a tão esperada viagem, o livro, a palestra, o filme, o curso, o blog, o novo visual, a música. Logo ali, depois do medo, está a Vida. E é sempre o amor que nos leva até lá.